| Artigos: SUS | |||
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O olhar do teólogo SUS J. B. Libanio Jornal de Opinião – fevereiro de 2002 Constatação geral: o sistema de saúde pública do Brasil vai mal, apesar de esforços reais e de atos esporádicos do governo. Diante de um fato há três posições possíveis. Analisa-se o fato. Assim ele é. Critica-se o fato: ele não deve ser assim. Apresenta-se o fato como projeto: assim queremos que seja. Que o SUS seja extremamente precário e que as camadas populares sofram neste país terrível discriminação no referente ao cuidado de sua saúde, é uma evidência. Assim é o fato. Muitos param nessa constatação. Descarregam suas palavras iradas contra a realidade. E esta permanece absolutamente intocada. Palavras não transformam a sociedade. Discursos de campanha eleitoral - e ouviremos muitos ao longo deste ano de eleições gerais - não perturbam o fluir frio dos acontecimentos. Geram frêmitos momentâneos de repulsa e terminam na inércia dos fatos. Dizer que não deve ser assim significa ir mais longe que simples linguajar constatativo. Supõe uma tela de valores contra a qual se jogam os fatos para daí surgir um juízo mais coerente e consistente. O SUS sofre da doença geral do sistema capitalista. Este é o primeiro passo de juízo crítico. O capitalismo teve pais lúcidos e corajosos que tiveram a hombridade de delinear-nos os princípios basilares com clareza e inocência. Só que depois caíram no olvido e ficou a vitrine dos seus sucessos tecno-econômicos com enorme força sedutora. Um dos princípios afirmados nos seus inícios é tão cruel que posto a nu apenas conseguimos suportá-lo. É o princípio do “produto adicional”. Sem entrar em muitas considerações teóricas exemplificá-lo-ei com dois casos corriqueiros. Imaginemos uma mãe de família pobre. Tem filhos pequenos. Em vez de cuidar deles, vai a uma casa de família de classe média que lhe paga um salário mínimo para ela tomar conta dos filhos daquela família. Então ela paga a metade para uma outra pessoa cuidar dos seus. Esta diferença - do que ganha e do que paga para a mesma função - move-a que troque os seus filhos pelos outros. Se ela levasse em consideração outros valores: afeição em relação aos próprios filhos, a sua realização pessoal como mãe, o melhor equilíbrio dos filhos, a convivência familiar, a responsabilidade materna e tantos outros valores, certamente ela não faria a troca. Mas o sistema econômico capitalista estabelece, não a prioridade ética ou afetiva, mas a do “produto adicional”. Outro dia conversava com um médico que me narrava um fato do seu cotidiano. Trabalha num hospital. Se for almoçar em casa, em vez de rapidamente ingerir algo na cantina do hospital, perderia duas horas em vez de 15 minutos. Nesta hora e quarenta e cinco minutos atende vários pacientes e aumenta sua renda mensal. O “ganho adicional” de almoçar na cantina em lugar de fazê-lo em casa com a esposa e filhos o leva à primeira opção. De novo, o critério do ganho adicional prevaleceu sobre a importância afetiva, simbólica, humana de uma refeição em família. Parece até uma aberração o profissional que se dá o luxo de tomar refeições com a família. Isso lhe custa um “prejuízo adicional” que o impede de fazê-lo. Ampliando esse raciocínio temos a loucura da vida moderna, regida pelo capitalismo do “lucro adicional”. Que tem isto a ver com o SUS? Muito. O “prejuízo adicional” que implica trabalhar com pobres é tão grande que a empresa privada e o Estado não se interessam por eles e deixam-nos à míngua. Por trás da crise do SUS está uma antropologia de que vale mais um “ganho adicional” que qualquer outro valor afetivo, humano, ético. Enquanto o sistema for regido por visão semelhante do ser humano dificilmente se achará saída para esse gigantesco problema. |
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