A Ética e o futuro J. B. Libanio O futuro encontra-se diante de nós de diversos modos. Anuncia-se já nos fatos presentes de tal modo que se faz mais que previsível. Quase determinado. Existem tantos e tais fatores em dado momento que se deduz com facilidade o que virá. Quanto mais nos aproximamos da natureza, das realidades físicas, tanto mais se torna evidente o vínculo do presente com o futuro. Os cálculos estatísticos têm-se desenvolvido de tal maneira que os matemáticos anunciam fatos futuros como se estivessem lendo números. Esse jogo entre presente e futuro mediado pelos números traz implicação ética. Já não temos direito de prescindir dessas simulações matemáticas para medir a eticidade de atos presentes. Imagine-se a construção de uma usina de eletricidade. Parece inocente. O crescimento industrial se estrangula, se não o acompanha igual produção de energia elétrica. Fato evidente que parece justificar eticamente as construções de usinas produtoras de eletricidade. Onde entra a ética. A construção se faz no presente. Justifica-se pela necessidade imprescindível de seu produto. Aí terminaríamos a consideração, se não interviesse novo fator de previsão do futuro pela via dos estudos das conseqüências previsíveis do uso desta ou daquela fonte de energia. A ética se alimenta do futuro e traz os imperativos para o presente. As ciências nos assinalam os riscos, os malefícios, os perigos de experiências ou decisões presentes com tal clareza que elas já não podem ser tomadas sem se levarem tais reflexões em consideração. O futuro surge também da criatividade humana, ao superar os traços já postos no presente. Escapam, neste caso, da probabilística da estatística. Pertence ao mundo da fantasia, da criatividade, da utopia. Então a ética submete a simulação futura a seu juízo como se fosse um presente. O que eticamente não cabe no amanhã, também não pode ser planejado e iniciado hoje. Na linguagem de Hans Jonas, o mal imaginado deve assumir o papel de mal experimentado. Imaginar o mal de amanhã significa já imaginá-lo hoje. E como hoje eticamente é-nos vedado praticá-lo, assim também imaginá-lo. Sacrifica-se o presente por causa do futuro. É ético? Na década de 60 e 70, uma juventude idealista no Brasil queimou anos de folguedo e até a vida, ao apostar no futuro socialista do país. Foi ilusão e engodo forjado por ideólogos inescrupulosos que exploraram o ardor juvenil ou significou momento de altura ética que estamos a perder? O futuro merece o presente quando ele o penetra de grandeza e carrega em si algum valor absoluto. O absoluto nunca se reduz a uma dimensão de tempo quer passado, presente ou futuro. É onipresente e eterno. Vale por ele mesmo em qualquer momento ou lugar que o antecede, o plenifica e o ultrapassa. Ele torna ético o agir humano. |