| Artigos: Adoção de criança | |||
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O olhar do teólogo Adoção de criança J. B. Libanio Jornal de Opinião – janeiro de 2003 Educar uma criança é fonte de imensas alegrias e sofrimentos. É um dos maiores riscos da existência. Se o próprio viver é perigoso, quanto mais colocar alguém na existência e acolher uma criancinha para adotá-la e assumir assim a responsabilidade de prepará-la para a vida. Ser mãe ou pai não é simplesmente biológico. É muito mais ter vocação de educar. O desastre na educação de tantas e tantas crianças vem precisamente do fato de que pais biológicos são uma catástrofe no exercício da real paternidade e maternidade. Uma vez posto o filho no mundo, cabe aos pais dar-lhe a formação. É algo impositivo pela lei da natureza. Criança não se desenvolve física, psíquica e espiritualmente sem a presença de adultos a seu lado. É conhecido o fato de duas crianças encontradas na Índia em 1920, Amala e Kamala, que tinham sido abandonadas pelos pais e foram mantidas em vida desde o início por lobos. Verificou-se depois que elas não tinham adquirido os hábitos humanos. Não caminhavam sobre os dois pés. Não possuíam os nossos costumes alimentícios. Não choravam nem riam como seres humanos. Enfim, eram biologicamente humanos e psico-espiritualmente animais. O fator humano tem base genética, mas a humanidade só se desenvolve cercada dos cuidados maternos e paternos. Adotar uma criança implica que os pais adotivos se disponham e tenham vocação de configurar humanamente aquele ser pequenino que trazem para casa. Mais do que os pais biológicos, os pais adotivos devem ser mais pais ainda. Não os vinculam laços do sangue, mas unicamente os do amor, da vocação, da livre escolha. Conheço pessoalmente um caso paradigmático. Um jovem casal leu no jornal que uma criança fora deixada no lixo. Foram lá para onde ela fora levada e adotaram-na. Hoje já é um jovem sadio física e psiquicamente. Esses pais adotivos não só falavam com a criança que ela era filha do amor e carinho deles, mas agiam assim. A ferida da rejeição inicial dos pais naturais curou-se ao longo dos anos com a melhor terapia: o carinho e o amor dos novos pais. Adoção é risco. Não se conhece a carga genética da criança. Mas é a convicção, muitas vezes comprovada, de que o amor cria e recria as pessoas. É um empreendimento cujo resultado não é absolutamente garantido, mas tem tanto mais possibilidade de êxito quanto mais os pais adotivos conseguirem passar à criança a certeza de ela ter encontrado um porto seguro onde ancorar o barco da existência. Só o amor é digno de fé (H. von Balthasar). Só o amor constrói eternidade. Só o amor tem força de estruturar por dentro a fragilidade de uma psicologia privada de pais. Adoção não é aventura. Não é solução para carência de adultos. Nem é presença para preencher o vazio de vida na casa de casal sem filhos. É obra do amor de artista. É olhar para o filho que entra como a argamassa humana a ser moldada pelo afeto numa pessoa digna e corajosa para enfrentar os desafios da existência. É uma ação que atualiza na história o infinito cuidado e carinho de Deus por suas criaturas. Adotar é uma ação tão humana que é divina. |
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