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Artigos: Ética e modernidade  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2008/12/21
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Ética e modernidade

J. B. Libanio

 

                        Fechou-se definitivamente para o homem ocidental o mundo cultural da pura transmissão autoritativa de valores, da ética. Há e haverá sempre transmissão, mas com a originalidade da modernidade: submetê-la ao crivo crítico da razão presente.

 

                        O agir humano no Ocidente se sujeita ao contínuo processo de revisão a partir das teorias que se elaboram. não consegue prender-se a um cânon imutável, extrínseco, fundamentalista, sem violência simbólica.  Estabelece-se círculo interpretativo próprio. Agimos e refletimos sobre a ação com os elementos de conhecimentos de que dispomos. O agir pede teoria que o ilumine, justifique, explicite. A iluminação teórica se bate com a prática que a testa. Nesse continuo processo estamos.

 

                        A ética realiza-o de modo paradigmático. A natureza desse saber condensa mais claramente a dialética da ação e reflexão. Pois, por sua natureza, a ética é um conhecimento intimamente vinculado com a prática humana. Existe precisamente para torná-la transparente à consciência e à liberdade naquilo em que ela responde ao bem ou o contraria.

 

                        O ser humano ético comporta-se como alguém que espontânea e permanentemente articula o próprio agir com juízo crítico a partir dos valores de tal maneira que ambos se alimentam mutuamente. O agir se sujeita à crítica da subjetividade teórica de valores e esta se confrontada com a ação. Nãonenhum agir que se imponha de fora por cima da interioridade, da dimensão subjetiva, livre e consciente. Dado da modernidade incontornável. Autonomia, subjetividade, individualidade soam realidades na consciência moderna de maneira insobrepujável.

 

                        Os conflitos éticos assaltam a modernidade precisamente porque ela não aceita sem mais a objetividade imposta até então pelas tradições culturais e religiosas, e rejeita instâncias que se arvoram em normativas por elas mesmas. Prefere suportar os erros da subjetividade, os desvios da liberdade, ao negá-las. A objetividade impositiva dói-lhe como prisão da liberdade.

 

                        A consciência moderna trava sofrido duelo entre a dimensão subjetiva e as exigências das realidades dadas na crua objetividade. Por isso, oscila de um pólo a outro. Descamba para relativismo sem peias, como fruto do excesso de subjetividade e reage com moralismos objetivistas até o extremo da repressão.

 

                        A lucidez ética passeia entre os extremos. Reconhece a condição insuperável da autonomia do sujeito, respeita-lhe a instransferível liberdade e afirma a indestrutível individualidade em oposição à pura transmissão. No entanto, tem experimentado o desvario da perda de toda referência objetiva. Bento XVI estigmatizou-a de “ditadura do relativismo”, o renomado escritor francês J.-Cl. Guillemand intitulou-a de Tirania do Prazer.

 

                        Em contrapartida, o espectro do fundamentalismo nas grandes religiões nos atemoriza. Pelos dois lados, a ética se perde. A modernidade extremada do subjetivismo a destrói. A reação não menos fanática da ortodoxia fundamentalista a submete a leis irracionalmente aplicadas.

 

                        A modernidade deixou-nos herança imperdível. Nada se constrói de humano, de ético que não passe pelo tribunal da consciência, pela instância da liberdade, pelo regime da autonomia e individualidade. Sooa-nos, porém, o alerta da tradição: não se destroem valores tradicionais inocentemente. Somente colhendo dos dados transmitidos o trigo da bondade e da verdade com a foice afiada da liberdade e da consciência subjetiva cozeremos amanhã o pão da convivência humana para saboreá-lo em sociedade justa e fraterna.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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