| Artigos: Presença das Igrejas Evangélicas na Política | |||
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Jornal de Opinião Presença das Igrejas Evangélicas na Política J. B. Libanio Jornal de Opinião – abril de 2003 Surpreende o número de ministros evangélicos que se candidatam e se elegem. Só no Estado do Rio 52 se apresentaram nas últimas eleições, sendo que 12 foram eleitos. Em proporção menor, esse fenômeno acontece em todo o país. Somam-se muitos interesses. Na sua visibilidade externa, mesmo que não correspondam à realidade, configuram-se tais candidatos mais fidedignos e honestos para os membros das igrejas, respondendo ao desejo de banir os corruptos do campo político. Duas visões teológicas mesclam-se na compreensão da presença da religião na política. Vale naturalmente de qualquer fiel que explicita sua fé no exercício político. Adquire maior clareza no caso dos pastores. Uma leitura conservadora vê a política como um espaço a ser conquistado e ocupado pelas igrejas no mesmo espírito de cristandade que vigorou séculos. Uma vez instaladas no poder, as igreja cuidam primeiramente de seus interesses corporativos e, se tiverem força, impõem seus princípios religiosos e morais a toda sociedade. Posição pré-moderna que conflita diretamente com os setores modernizados da sociedade. No Brasil de fortes traços religiosos pré-modernos, tal posição consegue ainda adesão suficiente para eleger bastantes candidatos vindos das hostes clericais ou do laicato identificado com as igrejas. Esta compreensão vale tanto para os evangélicos como católicos. Acontece, porém, que a teologia do Concílio Vaticano II já vem, faz tempo, deslegitimando-a, ao ensinar a autonomia das realidade políticas e ao opor-se a todo sonho de neocristandade. Mas quem tem certeza de que tal teologia chegou às bases populares ou a certas mentes clericais? A teologia da libertação faz outra leitura da presença das igrejas, de seus membros e de sua fé na política. Não se aceita a posição liberal que interpreta a autonomia das realidades políticas como absoluta, impermeável a qualquer crítica vinda das igrejas ou da prática da fé. Esta compreensão tem gerado a privatização da religião e da fé. Em sintonia com a teologia política européia, a teologia da libertação defende a posição da Igreja como instância crítica da política a partir sobretudo de sua opção pelos pobres e marginalizados. A fé deixa de ser ópio do povo, para tornar-se fermento de transformação da realidade. O exercício de tal função não se faz pela ocupação dos espaços políticos pela instituição eclesiástica como tal, mas por membros, principalmente leigos, que professam corajosa e publicamente a fé. E mesmo fora dos postos políticos, dentro dos espaços sociais e culturais normais da sociedade, as igrejas exercem essa função. Tal exercício não implica nem privilegia os cargos eletivos por membros oficiais. Mas apoia todos os que, praticantes ou não de comunidades eclesiais, se identificam com os seus valores e opções. A fé é lida de modo prático e não dogmático. Não é uma fidelidade à formulação do credo que importa, mas uma coerência com as conseqüências práticas desse credo. E essas se verificam no plano da justiça, da paz, da solidariedade e da opção pelos pobres. A eleição de membros eclesiásticos não é nenhuma garantia de que a presença das igrejas, enquanto instâncias de fé crítica, seja real e eficiente. A teologia da libertação alinha-se, pois, não ao lado de “ligas eleitorais de eclesiásticos”, mas ao lado de causas e projetos, defendidos por quem quer que seja, consentâneos com a justiça e com os interesses dos mais pobres. |
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