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Artigos: Turismo sexual  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2011/8/31
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O olhar do teólogo

Turismo sexual

J. B. Libanio

Jornal de Opinião – fevereiro de 2004

                   Eticamente não padece de discussão o turismo sexual. Faz parte do pacote de aberrações que os humanos arrumam quando se lhes obscurece a razão e fala o instinto. Nenhuma pessoa sensata discorda da inumanidade de tais iniciativas. Conjugam-se dois apetites degradados: a busca insaciável do dinheiro e as paixões do sexo. E do outro lado está a vítima que se mete nesses negócios por razões mais diversas, desde a necessidade econômica até deformações familiares.

                   Se levássemos conversas com os personagens envolvidos nesse jogo, far-nos-íamos um quadro da natureza humana em sua face negativa. Os empresários do turismo viriam com o assunto de desenvolvimento, de atrair estrangeiros de moeda forte para o Brasil. O sexo seria a isca. Mas o resultado nos traria peixes gordos para a mesa do progresso. O Brasil com imensa potencialidade turística necessita ousar. E os países nórdicos, cansados da monotonia de vida afetiva e sexual frustrada, deliciam-se com a gentileza e calor dos habitantes do Sul. Discurso falso que só engana mentes curtas. Caminho escuso para a entrada do dinheiro.

                   A conversa com o turista sexual assume outro tom. É a busca do prazer sem mais. Muitos empurram para frente, numa sociedade da abundância, uma vida aborrecida, sem sal, sem gosto. Imaginam aventuras sexuais de novidade, de surpresa, de prazer diferente. Os impérios, nos momentos de decadência, sofisticam os prazeres sexuais para oferecer algum sentido a existências presas à rotina amarga de sua engrenagem.

                   A história cansa-se de ensinar-nos que nenhuma felicidade vem do lado do simples satisfazer os sentidos. O prazer pesado e imediato termina com a rapidez do tamanho da volúpia. Deixa atrás de si o rasto de maior insatisfação e frustração. E volta  então com maior força para desaguar em mar ainda de pior enjôo. A vida entregue à busca sôfrega e devassa cinde o ser humano por dentro. O dualismo de que acusam os tradicionais deixa o olimpo da teoria e se faz carne. O ser humano divide-se em dois. É carne, sexo, satisfação instintiva e animal nas horas da exploração de seu corpo e do corpo dos outros. Mas não consegue viver só nesse nível. Em outros momentos, é cortesia, conversa amável com a esposa e com os filhos, é honesto trabalhador. Como viver essa dualidade? H. Arendt responde: não pensando.

                   É a banalidade do mal, continua a pensadora judia, ao estudar o caso do criminoso nazista Eichmann. Comportava-se ele no mundo familiar, das relações cotidianas do trabalho, do negócio como ser normal, razoável. Dentro da máquina nazista continuava com a mesma regularidade, só que agora destinava pessoas inocentes, crianças para os fornos de cremação. Transitava de um mundo ao outro com a maior naturalidade. Por quê? Porque não pensava. Assim são esses turistas do sexo. Não pensam no que significa para si mesmos esse comportamento que degrada, para as vítimas de que abusam e para tantas outras pessoas que vêem neles uma pessoa honesta e correta. A máscara, que lhes encobre o rosto existencial, chama-se: não pensar.

                   E a vítima? É outro departamento. Há de tudo. Desde aquelas que também partilham da mesma aventura com interesses mesquinhos do prazer e do dinheiro até as que a fatalidade de uma vida de pobreza, de inconsciência, de despreparo conduziu à prostituição. No turismo sexual deparamo-nos com o lado escuro da existência humana que corrói por dentro o elemento constitutivo de nosso ser: a relação humana na verdade, no respeito e no amor mútuo. Fora daí somos menos humanos.

 



O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é um projeto sem fins lucrativos comprometido com a Evangelização para mais servir e amar.
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