| Artigos: Encontro dos organismos do Povo de Deus | |||
|
|||
|   |
O olhar do teólogo Encontro dos organismos do Povo de Deus J. B. Libanio Jornal de Opinião – abril de 2004 Já o fato é significativo. A Igreja pensa-se como Povo de Deus. Afirmação central do Concílio Vaticano II que ocupa todo um capítulo da Constituição dogmática sobre a Igreja. Infelizmente tal compreensão eclesiológica tem sido algo esquecida. A Igreja do Brasil permanece atenta a que os organismos, que a constituem, se espelhem nessa metáfora bíblica. No horizonte do Encontro dos organismos está o desejo de criar uma Igreja-comunhão. Aspiração evangélica. O evangelho de João frisa essa dimensão de união entre os cristãos. João Paulo II tomou a expressão joanina "ut unum sint” como tema de uma encíclica de enorme riqueza ecumênica. Em João tudo respira comunhão, unidade, união. Sonho de Jesus. Infelizmente transformamos algumas vezes propósitos excelsos em interesses ideológicos, degradando-os. A expressão Igreja-comunhão significa tanto a beleza joanina como jogada sub-reptícia de poder. A eclesiologia resiste a tal tentação, ao atribuir ao Espírito Santo tanto o princípio da união como o da liberdade e diversidade no seio da Igreja. No Encontro programado realizam-se as duas dimensões do Espírito, não podendo nem devendo uma suprimir a outra. São muitos os organismos. A diversidade mostra a riqueza do Espírito. Cada um possui identidade, carisma, organização próprios, irredutíveis a um denominador comum. Quem alimenta tal originalidade plural é o Espírito. O Encontro pretende que essa diversidade dialogue entre si em busca de objetivos maiores comuns, procurados cada um a seu modo. Esse esforço dialogal nasce desse mesmo Espírito. Quando se pensa, porém, a comunhão como uniformidade imposta por algum centro maior e poderoso, sofre todo o Povo de Deus. Ele perde dons e carismas que o Espírito distribui a mancheias. Os autoritários não se dão conta do espiritocídio que provocam em nome de palavra tão bonita como comunhão. Essa é a passagem fácil e escorregadia da teologia para a ideologia. Toma-se uma afirmação bíblica, um termo teológico, uma realidade religiosa e insere-os num arcabouço de poder e interesses corporativos. A força da palavra evangélica consiste precisamente num frescor incorruptível e num questionar indomável no interior da instituição eclesiástica. No momento em que ela se presta servir a interesses organizacionais, perde o viço evangélico. Nesses casos vem-me à mente a genial dramatização de Dostoievski na figura do velho cardeal, o Grande Inquisidor, que termina condenando a Jesus. É a tensão permanente na Igreja dos carismas evangélicos, conscientes de sua identidade irredutível, e da pretensão institucional de enquadrá-los totalmente. Carisma e organização devem manter uma relação dinâmica sem que um destrua o outro. Se os organismos do Povo de Deus levarem ao extremo sua originalidade, romperão a veste inconsútil da Igreja. Mas também se a instituição podar-lhes os galhos da originalidade, perpetra o ecocídio no vergel eclesial. O Encontro situa-se no sonho de um Amazonas da evangelização, que surge dos numerosos afluentes dos organismos, das pastorais e dos movimentos da Igreja. Tudo que sobe, converge, diz Teilhard, em maravilhosa visão evolucionista. Considerando tal Encontro: tudo que comunga na diversidade, mantendo a originalidade do carisma, enriquece o Povo de Deus. O carisma é particular com serviço universal. A organização tem a pretensão de ser universal com serviços particulares. Pela dupla consciência da particularidade e universalidade de cada organismo constrói-se o todo da comunhão eclesial. |
|   |

