| Artigos: Os casais de segunda união | |||
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O olhar do teólogo Os casais de segunda união J. B. Libanio Jornal de Opinião – setembro de 2004 Toda separação matrimonial é dolorosa e ninguém, que vive com seriedade sua existência, a faz por futilidades. É um último recurso a fim de tornar a vida humana digna de ser vivida. Há uniões conjugais que se transformaram numa relação insuportável. Quanto mais próxima é uma presença, mais dolorosos são os conflitos quando surgem. Entende-se que, em dado momento, a solução seja buscar caminhos diferentes. E nesses surge um novo amor, uma nova relação. E então? O primeiro discurso ideal refere-se a uma palavra anterior à separação. Trata-se de envidar todos os esforços para que o casal recupere o primeiro amor. Existem psicólogos e pastoralistas especializados nessa missão e já conseguiram deter processos de deterioração conjugal e provocar uma reestruturação do amor inicial. Mas diante de fatos consumados, essa pastoral já não funciona e as igrejas são chamadas a não abandonar tais casais separados, e que se uniram em outra relação ou que continuaram na solidão do amor. A tradição moral da Igreja conhece, de longa data, uma distinção entre a objetividade e gravidade de ensinamentos oficiais e o nível de percepção existencial das consciências. No primeiro nível, não há muito que fazer senão conhecer a legislação oficial que não admite à vida sacramental as segundas uniões. Isso vale enquanto tal legislação vigorar. Cabe, porém, a teologia ir testando os fundamentos e argumentos aduzidos por tal legislação, porque certamente padecem, como toda realidade humana, de aspectos transitórios e culturais. Hoje a própria exegese sabe que ensinamentos bíblicos, que pareciam de uma transparência única, se revelaram mais tarde como fruto de determinado momento cultural e que, por isso, puderam e deveram ser reinterpretados. A letra mateana (Mt 19, 9ss) parece, à primeira vista, mostrar um Jesus que refaz a legislação mosaica no sentido de estabelecer a indissolubilidade do matrimônio, condenando o divórcio. Deixo de lado esse aspecto para os especialistas. Sigo aqui outro caminho de reflexão. Há um nível de percepção da consciência pessoal que não raro entra em tensão com a visibilidade institucional. Nem sempre é fácil fazer baixar o braço da balança para um dos lados sem mais. Nem uma rigidez que vete toda vida sacramental a casais de segunda união, nem um laxismo que passe por cima da seriedade da comunhão eclesial. A solução dificilmente se encontra no plano da pura legislação e disciplina, mas requer a prudência e o toque pastoral. Só esse consegue ter, ao mesmo tempo, a clareza da letra e a transparência da consciência para ajudá-la no discernimento. A sabedoria de pastores e orientadores espirituais, que conseguem manter a tensão dialética da liberdade diante da literalidade da lei e a seriedade de suas exigências, permite que se encontre no concreto da vida dos casais de segunda união um caminho espiritual. Vale para eles, sem dúvida, como para toda pessoa humana, ser o critério último de moralidade a própria consciência séria e responsavelmente educada. Não é um subjetivismo arbitrário, filho do capricho, mas da liberdade do Espírito. A graça vitoriosa da misericórdia de Deus
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