Doutrina social da igreja (DSI) e teologia da libertação (TDL)
Publicado por Jblibanio em 11/11/2009 (374 leituras)
Doutrina social da igreja (DSI) e teologia da libertação (TDL)
J. B. Libanio
Era um fato. A DSI vinha sendo defendida e estudada por grupos, se não conservadores, pelo menos, não tão aguerridos no campo social. A TDL, por sua vez, tornara-se bandeira daqueles que se viam mais envolvidos com mudanças profundas da sociedade.
O mútuo diálogo, o mútuo reconhecimento de suas peculiaridades próprias e riquezas, a mútua crítica positiva aproximaram as duas. Mais. Os eventos que abalaram o Leste europeu, de um lado, e a clara incapacidade do capitalismo, mesmo o mais avançado, de resolver o problema dos países pobres e dos pobres de seus países, produziram, referente à questão da relação entre a DSI e a TDL um duplo efeito. De uma parte, tirou à polarização capitalismo x socialismo, liberalismo x marxismo seu caráter agudo, inevitável e de divisor inexorável de águas. Assim já não se pode aproximar a DSI do capitalismo, nem a TDL do socialismo e opô-las mutuamente. Aproximação feita sempre de maneira incorreta e ideológica. Doutra parte, a DSI mostrou a profundidade de suas críticas aos dois contendentes, sem querer ser uma "terceira via", mas um incentivo a ambos de colocarem-se na via da superação de seus limites, de suas graves distorções. E a TDL continua, mais do que nunca, importante, como uma reflexão teológica a partir dos pobres, quando estes se encontram em situação ainda pior.
Pois o momentâneo, e esperemos, ilusório triunfo do capitalismo avançado no nível da concorrência econômica, coloca as nações pobres e os pobres das nações ricas ainda mais desprotegidos. Este triunfo funda-se, em grande parte, numa concepção economicista e materialista do desenvolvimento, objeto das críticas constantes da DSI. E conduz a uma exploração ainda maior dos pobres, objeto, por sua vez, da acerba investida da TDL. Por isso, ambas hoje se aproximam na tarefa comum de, cada uma na sua especificidade, manter vivas as críticas ao triunfante capitalismo em nome dos valores profundos da pessoa humana, sobretudo dos pobres.
Nesse contexto, uma reflexão sobre a relação entre a DSI e a TDL adquire relevância. A ambas cabe no momento papel importante na formação da consciência do cristão e das pessoas eticamente sensíveis à problemática humana do progresso, do avanço tecnológico, do futuro da humanidade ( ).
I. Distâncias ou diferenças: Estatuto epistemológico
Ò primeira vista, parece que a DSI e a TDL ocupam o mesmo espaço de conhecimento teológico doutrinal em relação à realidade social. Importa, por isso, marcar desde o início a diferença entre esses dois saberes e suas autonomias.
a. Quanto à estrutura do saber
Uma descrição da natureza da DSI e da TLD permite perceber as diferenças. Elas têm um modo diferente de pensar a relação da fé e a realidade.
Doutrina social da Igreja
O termo "doutrina" exprime a idéia de ensinamento estruturado de determinada validez permanente. O termo esteve um tempo em desuso ( ), mas João Paulo II o reabilitou. Usa-o com freqüência, tirando-lhe o ranço doutrinalista e estático. Define-a negativamente, como não sendo uma "terceira via" entre capitalismo liberalista e coletivismo marxista, nem possível alternativa. Ela se constitui por si mesma uma categoria. "Não é tampouco uma ideologia, mas uma formulação acurada dos resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional, à luz da fé e da tradição eclesial. A sua finalidade principal é interpretar essas realidades, examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho sobre o homem e sobre a sua vocação terrena e ao mesmo tempo transcendente; visa, pois, a orientar o comportamento cristão. Ela pertence, por conseguinte, não ao domínio da ideologia mas da teologia, e especialmente da teologia moral" ( ).
O termo "social" refere-se ao funcionamento e à estrutura da sociedade, onde existe relação de classes, de setores e de sistemas (econômico, político e jurídico). E a natureza das relações e das estruturas da economia e da sociedade é percebida sob o ponto de vista da qualidade humana e ética, especialmente de justiça ( ). A DSI vai além da "questão social" dos seus inícios, ocupando-se do homem todo na sociedade, da vida familiar, da vida rural, da vida internacional, dos problemas da paz e da guerra, das relações entre os estados, numa palavra, da dimensão integral e conjunta da questão social ( ).
O termo "Igreja" diz respeito diretamente ao magistério da Igreja, a saber: concílios, sínodos, papa, assembléias e conferências dos bispos.
É filha de três fontes diferentes. De um lado, alimenta-se do pensamento do direito natural e da filosofia social de valor universal. Haure princípios universais de uma vida social, justa e solidária. Uma segunda fonte são os elementos bíblicos e a tradição da Igreja, que traduzem a revelação de Deus, em forma humana, para toda a humanidade. Percebe-se uma tendência nos últimos documentos em acentuar essa dimensão cristã em relação aos documentos anteriores, em que se salientava a razão natural, no pressuposto de que a revelação cristã leva a realidade humana a sua plena realização. E finalmente, a DSI é provocada por compromissos históricos concretos a fim de oferecer orientação para a ação ( ).
Em outros termos, a DSI submete à apreciação de princípios enraizados na razão humana e na tradição evangélica eclesial situações históricas contingentes, elaborando assim sua doutrina. Tem, portanto, a validez de tais princípios, mas a transitoriedade e conjunturalidade das situações visadas.
Deve-se evitar, por isso, o duplo extremo. De um lado um objetivismo, doutrinismo, permanente e fixo, e doutro um relativismo, subjetivismo, e niilismo teórico. Há uma pretensão de verdade na DSI, que lhe dá um caráter de universalidade e obrigatoriedade vinculativa. Pois existem princípios gerais e absolutamente necessários da ética, da justiça, aos quais as relações sociais devem submeter-se. São válidos e identificáveis pela razão humana ( ). Mas são pensados para situações concretas em contínua mudança.
Este estatuto teórico não pode ser desligado do uso que se fez da DSI na A. Latina e em outros países fora deste continente de modo que alguns aspectos foram acentuados e outros negligenciados. A DSI é menos ligada aos movimentos históricos que ao lugar magisterial na percepção da realidade. Pois na verdade ela foi antes usada pelos partidos Democrata-criståos em suas bandeiras reformistas dentro do sistema neocapitalista, por certas correntes também reformistas da Ação Católica e por empresários cristãos, ligados à Associação de dirigentes cristãos de empresa (ADCE).
Este uso da DSI foi, em parte, responsável por certa suspeita em relação a ela sobretudo por parte dos movimentos operários e por grupos ligados a eles, especialmente numa perspectiva socialista e/ou revolucionária.
A nova situação, que a crise do Leste europeu tem produzido, e uma profunda revisão do socialismo têm propiciado a estes setores de Igreja mais comprometidos socialmente uma reaproximação positiva à DSI, sobretudo depois da nova inflexão dada a ela pela Laborem Exercens e muitos discursos de João Paulo II.
Teologia da Libertação (TdL)
A TdL, que assumimos aqui no sentido mais restrito da teologia praticada na América Latina depois de Medellín, responde à pergunta fundamental de repensar toda a fé para dentro de um contexto de opressão e libertação.
Ela é teologia e não doutrina. Elaborada por teólogos e não pelo magistério oficial da Igreja. O seu objeto é toda a revelação e não só a problemática social, ainda que a perspectiva social lhe seja fundamental.
Como a DSI é universal e particular. Universal por ser uma intelecção da fé cristã "católica" (universal). Particular ao procurar pensar essa fé católica para um contexto bem definido.
Cl. Boff estabelece uma relação no nível da determinação concreta entre a TdL e a DSI no sentido de que a "TdL seria uma 'determinação histórica das orientações doutrinárias e dos critérios práticos mais gerais contidos na DSI. Assim, a TdL não suprimiria a DSI mas a superaria dialeticamente". Isso significa que nos três níveis da mediação teórica da análise da realidade, do projeto histórico a ser implantado e da mediação prática de viabilizá-lo a TdL se relaciona com a DSI como um determinado (TdL) em relação a um determinante (DSI). A TdL avançaria, segundo ele, no nível da concretude sobre os ensinamentos sociais da DSI ( ).
No mundo da sensibilidade e do imaginário social, há diferenças entre a DSI e a TdL. A DSI é mais sensível aos problemas da sociedade que a primeira onda de desenvolvimento produziu (Leão XIII) ou que o capitalismo avançado tem produzido (os últimos documentos). O seu imaginário trabalha muito mais com uma sociedade que basicamente permanecerá a mesma, mas que deverá sofrer reformas, mudanças profundas, mas não uma transformação. Por sua vez, a TdL tem a sensibilidade avessa a um capitalismo selvagem opressor, periférico, monstruoso na sua iniqüidade e o horizonte de libertar-se radicalmente dele povoa-lhe o imaginário, com simpatias por formas socializantes alternativas ao capitalismo.
Entretanto numa análise mais racional e fria, vê-se que a diferença entre a TdL e a evolução da DSI é muito menor, sobretudo na posição crítica da DSI ao capitalismo e nas aberturas a formas socializantes, como já aparecem na Laborem Exercens. E a TdL também assumiu posição mais crítica frente ao socialismo, sobretudo depois dos últimos eventos do Leste europeu.
b. Quanto ao sujeito produtor: seu lugar social
A DSI é fundamentalmente um produto do magistério da Igreja, quer conciliar, quer romano, quer episcopal regional. Como todo discurso magisterial, ela tem como lugar de produção a "autoridade", a representação oficial da Igreja. Isso lhe dá um caráter de ensinar o fruto de consenso, já, de certo modo, cristalizado na tradição. Não é sua função, como tal, abrir novos caminhos, romper estruturas sedimentadas, mas procurar ir renovando sua doutrina somente com elementos novos já comumente aceitos. Fala-se tanto do estilo curial. A DSI participa, em parte, desse estilo, que arredonda as pontas, lapida as arestas, produzindo um discurso consensual menos percuciente ( ).
Além disso, a DSI foi primordialmente elaborada no Primeiro Mundo, ainda que com preocupações que alcançam toda a humanidade e ultimamente com especial atenção ao Terceiro Mundo. Mas mesmo assim é a perspectiva de quem se interessa de longe, de outro lugar. O capitalismo é freqüentemente percebido na sua forma mais humanizada, nem sempre com consciência da sua exportação de opressão para outras regiões. O socialismo, por sua vez, aparece na crueza de sua opressão dos países do leste.
Mesmo que muitas vezes certos documentos da DSI tenham soado como novidade na Igreja, isso, em geral, apenas significou quão distantes certos setores eclesiais estavam do consenso humano de muitas das afirmações desses documentos.
A TdL, pelo contrário, quer responder a novos problemas, arriscar reflexões que vão abrindo caminho na Igreja. O seu lugar de produção é o compromisso do teólogo com uma situação bem concreta: A libertação dos pobres. De dentro desse engajamento social, o teólogo pensa a fé da Igreja e a traduz, de maneira mordente, para essa mesma situação. A TdL transita por caminhos novos, com riscos de equívocos, não fugindo à responsabilidade de responder a questões difíceis, provocadoras, que vão surgindo do embate da situação sobre a fé.
Diferentemente dos países centrais, o teólogo da libertação vive o lado hediondo do capitalismo, sua terrível opressão, sua face assassina com a morte de tantos líderes populares, sem falar dos métodos obscuros de repressão. E, por sua vez, o socialismo aparece como uma alternativa popular na esperança de que poderá ser vivido sem as contradições dos países do leste.
c. Quanto à experiência fundante
A DSI parte fundamentalmente da experiência de justiça, quer iluminada pela razão humana, quer trabalhada na tradição cristã eclesial. O ângulo sob o qual ela encara a realidade social, as relações entre as classes, os diversos sistemas, são a justiça social, entendida na perspectiva cristã.
João Paulo II, ao repassar a história da DSI, recorda como Paulo VI na Encíclica Populorum Progressio dá à DSI uma dimensão mundial, porque a exigência da justiça só pode ser satisfeita neste mesmo plano ( ). A centralidade da justiça permitiu o alargamento da própria DSI, conforme novos problemas eram colocados nesse horizonte.
A TdL parte da experiência de Deus nos pobres. E essa experiência leva-a, sim, a um grito ético de protesto contra a situação injusta. Mas a força última - porque é teologia, e não doutrina social - de sua inspiração é a percepção de Deus no pobre. Um Deus go'el dos pobres, que protesta, através dos profetas no Antigo Testamento e de seu Filho Jesus, contra o massacre de seus filhos mais queridos, os pobres. O teólogo co-experimenta Deus no encontro com os pobres. Desse encontro, haure a inspiração fundante de sua teologia. A irrupção dos pobres, como sujeito social e sujeito eclesial, coloca o teólogo diante de uma provocação. Nessa provocação, percebe o próprio Deus que o questiona a pensar a revelação à luz dessa presença do pobre.
Na América Latina, o pobre mediatiza mais facilmente a Deus por causa da sua qualidade. É um pobre que se chama legião. É um pobre produzido pelo sistema dominante. É um pobre que se organiza e grita por um lugar na sociedade e na Igreja. É um pobre carregado de profunda experiência religiosa. Para muitos agentes de pastoral e teólogos esse contacto com os pobres não só foi inspirador de sua maneira de pensar, de refletir teologicamente, de rezar, como também de converter-se e viver. Esta experiência de Deus no pobre adquire, portanto, na América Latina uma originalidade própria ( ).
II. Proximidades
a. Preocupação fundamental
Preside a ambas - DSI e TdL - um interesse profundo e sério pela problemática social, ainda que sob ângulos diferentes. Querem responder aos questionamentos que a dura realidade humana, social levanta à consciência dos homens em geral e dos cristãos em particular. Ambas dizem um não a tanta injustiça e querem oferecer uma colaboração, a partir da fé (e da razão), para a criação de uma sociedade alternativa, quer no nível da motivação, quer no da ação concreta.
Ambas se mostram abertas à história, assumindo o pressuposto teológico básico de que Deus age na história humana. Deus é um Deus dos homens. E a história humana interessa-lhe fundamentalmente. Por isso a fé cristã sob a dupla forma de teologia e doutrina social pode dizer sua palavra coerente, autêntica, pertinente.
Ambas pretendem dar uma resposta desde a fé à pretensão absoluta das ideologias do social. Estas se ancoraram no ateísmo, deslocando a fé para o campo da intimidade individual (capitalismo) ou descartando-a como alienação (marxismo). Nesse sentido, ambas re-situam a fé no campo do social, desvelando-lhe o caráter crítico e utópico.
Ambas nascem por causa da necessidade de dar uma reposta de fé aos cristãos engajados no campo social. No final do século XIX, os cristãos sobretudo na Europa preocupados com o social necessitavam de uma palavra séria, autêntica da Igreja. Leão XIII com a Encíclica Rerum Novarum pretende dar-lhes uma primeira resposta, que foi sendo ampliada, corrigida, aprofundada pelos documentos seguintes. Na década de 60 do nosso século, os cristãos latino-americanos encontravam-se em situação semelhante. As exigências sociais de um compromisso sério com a libertação do povo empobrecido pedia uma releitura de sua fé. E a TdL veio então ao encontro desta expectativa e necessidade.
Ambas pretendem também fazer uma leitura dos sinais dos tempos. No interior da DSI foi ressuscitada essa expressão bíblica, por João XXIII. Sem usar o termo, João Paulo II inicia a Encíclica Sollicitudo Rei Socialis referindo-se à "Igreja (que) dispondo da plenitude da Palavra revelada por Cristo Jesus e com a assistência do Espírito Santo (cf. Jo 14, 16.26; 16, 13-15), vai lendo os acontecimentos, enquanto eles se desenrolam no decurso da história" a saber, lendo os sinais dos tempos ( ).
A TdL identifica seu método com uma leitura dos sinais dos tempos. Nesse sentido, coincidem nesse propósito fundamental. Na prática significa que ambas querem interpretar o sentido salvífico das realidades humanas sociais. A TdL tem uma pretensão mais ampla, já que, a partir de uma concepção unitária da história, busca interpretar salvificamente todo ato que envolva a liberdade humana na dupla valência possível de salvação ou condenação. A DSI, ainda que se debruce sobre a leitura dos sinais dos tempos, restringe seu campo antes à dimensão da justiça social. Não trabalha com as mesmas categorias que a TdL, já que sua preocupação não é de uma leitura teológica de todas as realidades humanas, mas de ser uma doutrina social.
A perspectiva do Reino de Deus une também as duas. Ocupa o lugar central na TdL ( ). A DSI visa a mostrar as exigências desse Reino na atividade humana na história. Ela procura ser uma serva do Reino no sentido de oferecer elementos para uma práxis cristã da libertação. A realidade do Reino articula as dimensões sociológica e soteriológica, comuns à TdL e à DSI ( ).
Esta comunhão na intenção profunda as aproxima muito, de modo que o cristão pode valer-se de ambas as ajudas, conforme necessidades diferentes. Ò busca de uma reflexão mais globalizante sobre a sua fé, pode recorrer à TdL. Pretendendo luz para seu agir em determinadas questões sociais, encontrará na DSI princípios e diretrizes de ação.
b. Características do discurso
Ambas trabalham de maneira indutiva. Partem da realidade. Num segundo momento, apelam para princípios e/ou revelação para iluminá-la. Entretanto a TdL aprofundou ainda mais a dimensão indutiva, ao querer purificar até mesmo seus conceitos teológicos, ao serem eles questionados pela realidade ( ).
Além desse aspecto indutivo, ambas trabalham com um discurso antes performativo e normativo que analítico descritivo. O analítico-descritivo é um simples momento intermédio, mas não o término e o específico desse discurso. Ele visa à ação. A DSI e a TdL são um discurso da práxis para a práxis. A hermenêutica do sentido, que caracteriza o discurso da teologia neoliberal, cede lugar em ambas para uma hermenêutica da práxis, isto é, interpreta-se a fé ou a doutrina da Igreja em vista do social, da práxis.
Quer para a leitura e intelecção da realidade social, quer para orientar a ação do cristão, ambas usam de elementos analíticos das ciências sociais. Convergem nessa mesma tarefa. Divergem na maneira como se posicionam diante dos elementos concretos. Nesse sentido, prestam-se mútua ajuda. A TdL é mais pródiga em assumir elementos da análise marxista, enquanto a DSI mostra-se bem mais reticente e crítica. Corrige certas reflexões ideologizadas de algumas TdLs. Doutro lado, a DSI não é normalmente entendida na mesma linha de criticidade em relação à ideologia liberal. Contra os danos de tal ideologia à fé, a TdL cumpre tarefa importante, desmascarando as pseudo-neutralidades e as alianças ambíguas e coniventes com tal ideologia na intelecção da fé e na prática pastoral. A TdL é muito sensível à percepção da influência do lugar social sobre a gestação e interpretações dos ensinamentos sociais do magistério, desde sua ótica da opção pelos pobres.
c. Dimensão crítica
Ambas desempenham um papel crítico diante da realidade social. As ideologias arvoram-se em absolutos. A DSI, partindo de um personalismo radicalmente cristão, cujo modelo último é o mistério da Encarnação, encontra um princípio não-ideológico para criticar as ideologias. A TdL, também ela, não é ideologia e confronta-se criticamente com as ideologias, a partir da opção radical pelos pobres. Tal opção nasce de uma exigência da revelação. De dentro dela pensa a totalidade da fé, liberando assim inúmeros elementos da tradição cristã para uma posição crítica frente à realidade social.
Ambas trabalham com uma antropologia cujas raiz última e matriz são o mesmo mistério da Encarnação. O homem é um ser transcendente, porque criado em Cristo e destinado à comunhão com a Trindade. Nesse horizonte antropológico passeiam essas duas reflexões e possibilita-se assim uma distância frente a qualquer absolutização ideológico-política.
Em outros termos, a DSI e a TdL situam-se numa postura fundamental de superação do historicismo, do positivismo jurídico, já que aceitam uma normatividade radical vinda do fato Jesus Cristo ( ). Ele é, ao mesmo tempo, fato e norma. Enquanto fato, está sujeito à história. Enquanto norma, transcende a história e torna-se critério último para julgar toda outra realidade.
III. Articulações
As relações entre a DSI e a TdL não foram historicamente nem sempre fáceis e transparentes. Além disso, há problemas teóricos que necessitam ser pensados.
a. Momentos históricos na mútua relação
Há um primeiro momento em que o desenvolvimento de ambas corre por sendas paralelas. A DSI desenvolve-se e é comentada por autores principalmente europeus. A Democracia Cristã, de um lado, parece querer realizar os ideais traçados pela DSI e de outro lhe influencia as ulteriores elaborações. Por sua vez, na América Latina a TdL começou a desenvolver-se num momento, em que as situações sociais se agravaram enormemente e, em alguns países, a DC, que se implantara desde a década de 30, revelava sua falência.
Num segundo momento, A TdL começou a tomar distância de certas formulações da DSI e a conflitar mesmo com ela. Com efeito, em alguns casos, isso aconteceu até de modo dramático. Pois a DC, que se autoproclamava como aplicação concreta da DSI, não conseguiu barrar uma evolução política para regimes militares, totalitários, alimentados pela ideologia da segurança nacional ( ). A dominação das classes burguesas se reforçara com recurso à mão militar de maneira violenta ( ). Nesse momento a TdL assume virulenta crítica contra tais regimes militares de segurança nacional e contra certo tipo de DSI que, através da legitimação da DC, terminou também perdendo sua força crítica diante deles ( ).
Surge um terceiro momento, em que a DSI e a TdL se encontram e entabolam sadio diálogo. Já havia começado um real deslocamento da DSI no pontificado de João XXIII, mas que se acentuou no atual. Busca-se aprofundar as raízes dos problemas e das atuais deformações, conflitos, desvelando mais claramente as estruturas e mecanismos da injustiça, opressão, discriminação, dominação que pesam, de modo especial, sobre as relações de classes e sobre os povos do 3o Mundo. Valoriza-se também o sujeito da ação social: pessoa, grupos intermédios, setores e povos que devem ser os primeiros interessados e responsáveis mais ativos na sua promoção ( ).
As duas Encíclicas sociais de João Paulo II Laborem Exercens e Sollicitudo Rei Socialis aprofundam tal aproximação. A importância atribuída ao trabalho, como chave essencial da questão social, quer em âmbito nacional, quer mundial, oferece excelente contribuição para o diálogo entre a DSI e a TdL. Mais. Na conclusão da Encíclica Sollicitudo Rei Socialis, João Paulo II se refere diretamente a uma "nova maneira de enfrentar os problemas da miséria e do subdesenvolvimento, que faz da libertação a categoria fundamental e o primeiro princípio de ação", assumindo assim a categoria central da TdL ( ).
b. Reflexão teórica conclusiva
Ao considerar esses momentos históricos da relação entre a DSI e a TdL pode-se concluir que elas podem articular-se. Veremos primeiro os modelos que não respondem a uma verdadeira articulação entre ambas, já que o desejado é uma mútua fecundação.
Modelo de campos paralelos
Pode-se considerar como um momento superado e que não tem sentido ser defendido teoricamente. Isso significaria na prática definir autonomias internas como separações práticas. De fato, cada um desses saberes tem suas regras internas de conhecimento. Mas daí não se segue que devam ocupar campos paralelos. Como vimos, ambas têm muitos pontos em comum, sobretudo uma mesma intenção e preocupação fundamental.
Com efeito, a DSI e a TdL, cada uma a seu modo, visam ao processo da libertação dos homens, criando uma sociedade humana e fraterna. A TdL acentua a libertação dos empobrecidos do 3o Mundo, enquanto a DSI olha para o conjunto de opressões de toda a humanidade. Como há uma ligação interna e profunda entre as forças de opressão, deve-se também trabalhar para que o processo de libertação articule suas forças. Assim a DSI e a TdL podem contribuir para tal processo.
Modelo da substituição
Pior ainda seria se a DSI ou a TdL quisessem substituir uma a outra. Se a TdL substituísse a DSI, a Igreja perderia um acervo doutrinal importante de alcance autoritativa e geograficamente mais amplo. A DSI tem, de fato, um campo de irradiação e influência que ultrapassa o mundo da TdL e goza de um nível de legitimidade eclesial maior, já que vem sancionado de maneira imediata e direta pelo magistério.
Se a DSI substituísse a TdL, também se perderia uma rica reflexão teológica que tem ajudado bem concretamente as igrejas do 3o Mundo de maneira que a DSI não consegue fazê-lo. Permite ao cristão engajado repensar toda a sua fé e não simplesmente encontrar princípios, critérios ou diretrizes para seu agir pastoral.
Mútua fecundação
A verdadeira postura dos dois saberes é de mútua fecundação. Cada um deles pode oferecer ao outro perspectivas de reflexão e dados objetivos próprios e enriquecedores. A DSI tem trabalhado muito questões sociais fundamentais sobre as quais a TdL não se debruçou. E por sua vez, a TdL possui já uma rica reflexão teológica que pode iluminar a DSI nas suas considerações mais propriamente teológicas.
Conclusão
Vive-se no momento situação privilegiada para um diálogo mais aberto e enriquecedor entre a DSI e a TdL. Os preconceitos de ambas as partes têm condição de serem superados. De um lado, a crise do Leste veio confirmar muitas intuições e críticas elaboradas pela DSI no referente ao socialismo. Freqüentemente essas críticas foram encaradas como posição reformista, ou uma terceira via, ou uma sutil defesa do capitalismo. Hoje se verifica que eram pertinentes, ao defenderem com destemor o primado indiscutível da pessoa humana em relação às ideologias.
Doutro lado, a TdL continua sendo importante. A crise do Leste não significa nenhuma cura do doente grave do capitalismo que são, em grande parte, os países do Terceiro Mundo. Por isso, uma reflexão teórica sobre os ângulos diferentes de abordagem da DSI e da TdL pode ir criando pontes de contacto entre ambas.
Buscou-se, por isso, ver, quer teoricamente, quer em comportamentos históricos, a relação que se estabeleceu ou se pode estabelecer entre esses dois saberes.
Fica aberta uma ulterior reflexão em que se estude mais concretamente a real repercussão em nível de conteúdos concretos de ambos os saberes, um sobre o outro. Trabalhou-se aqui o aspecto mais formal.
Texto para o seminário Ibrades.
Belo Horizonte - maio de 1991
J. B. Libanio
Era um fato. A DSI vinha sendo defendida e estudada por grupos, se não conservadores, pelo menos, não tão aguerridos no campo social. A TDL, por sua vez, tornara-se bandeira daqueles que se viam mais envolvidos com mudanças profundas da sociedade.
O mútuo diálogo, o mútuo reconhecimento de suas peculiaridades próprias e riquezas, a mútua crítica positiva aproximaram as duas. Mais. Os eventos que abalaram o Leste europeu, de um lado, e a clara incapacidade do capitalismo, mesmo o mais avançado, de resolver o problema dos países pobres e dos pobres de seus países, produziram, referente à questão da relação entre a DSI e a TDL um duplo efeito. De uma parte, tirou à polarização capitalismo x socialismo, liberalismo x marxismo seu caráter agudo, inevitável e de divisor inexorável de águas. Assim já não se pode aproximar a DSI do capitalismo, nem a TDL do socialismo e opô-las mutuamente. Aproximação feita sempre de maneira incorreta e ideológica. Doutra parte, a DSI mostrou a profundidade de suas críticas aos dois contendentes, sem querer ser uma "terceira via", mas um incentivo a ambos de colocarem-se na via da superação de seus limites, de suas graves distorções. E a TDL continua, mais do que nunca, importante, como uma reflexão teológica a partir dos pobres, quando estes se encontram em situação ainda pior.
Pois o momentâneo, e esperemos, ilusório triunfo do capitalismo avançado no nível da concorrência econômica, coloca as nações pobres e os pobres das nações ricas ainda mais desprotegidos. Este triunfo funda-se, em grande parte, numa concepção economicista e materialista do desenvolvimento, objeto das críticas constantes da DSI. E conduz a uma exploração ainda maior dos pobres, objeto, por sua vez, da acerba investida da TDL. Por isso, ambas hoje se aproximam na tarefa comum de, cada uma na sua especificidade, manter vivas as críticas ao triunfante capitalismo em nome dos valores profundos da pessoa humana, sobretudo dos pobres.
Nesse contexto, uma reflexão sobre a relação entre a DSI e a TDL adquire relevância. A ambas cabe no momento papel importante na formação da consciência do cristão e das pessoas eticamente sensíveis à problemática humana do progresso, do avanço tecnológico, do futuro da humanidade ( ).
I. Distâncias ou diferenças: Estatuto epistemológico
Ò primeira vista, parece que a DSI e a TDL ocupam o mesmo espaço de conhecimento teológico doutrinal em relação à realidade social. Importa, por isso, marcar desde o início a diferença entre esses dois saberes e suas autonomias.
a. Quanto à estrutura do saber
Uma descrição da natureza da DSI e da TLD permite perceber as diferenças. Elas têm um modo diferente de pensar a relação da fé e a realidade.
Doutrina social da Igreja
O termo "doutrina" exprime a idéia de ensinamento estruturado de determinada validez permanente. O termo esteve um tempo em desuso ( ), mas João Paulo II o reabilitou. Usa-o com freqüência, tirando-lhe o ranço doutrinalista e estático. Define-a negativamente, como não sendo uma "terceira via" entre capitalismo liberalista e coletivismo marxista, nem possível alternativa. Ela se constitui por si mesma uma categoria. "Não é tampouco uma ideologia, mas uma formulação acurada dos resultados de uma reflexão atenta sobre as complexas realidades da existência do homem, na sociedade e no contexto internacional, à luz da fé e da tradição eclesial. A sua finalidade principal é interpretar essas realidades, examinando a sua conformidade ou desconformidade com as linhas do ensinamento do Evangelho sobre o homem e sobre a sua vocação terrena e ao mesmo tempo transcendente; visa, pois, a orientar o comportamento cristão. Ela pertence, por conseguinte, não ao domínio da ideologia mas da teologia, e especialmente da teologia moral" ( ).
O termo "social" refere-se ao funcionamento e à estrutura da sociedade, onde existe relação de classes, de setores e de sistemas (econômico, político e jurídico). E a natureza das relações e das estruturas da economia e da sociedade é percebida sob o ponto de vista da qualidade humana e ética, especialmente de justiça ( ). A DSI vai além da "questão social" dos seus inícios, ocupando-se do homem todo na sociedade, da vida familiar, da vida rural, da vida internacional, dos problemas da paz e da guerra, das relações entre os estados, numa palavra, da dimensão integral e conjunta da questão social ( ).
O termo "Igreja" diz respeito diretamente ao magistério da Igreja, a saber: concílios, sínodos, papa, assembléias e conferências dos bispos.
É filha de três fontes diferentes. De um lado, alimenta-se do pensamento do direito natural e da filosofia social de valor universal. Haure princípios universais de uma vida social, justa e solidária. Uma segunda fonte são os elementos bíblicos e a tradição da Igreja, que traduzem a revelação de Deus, em forma humana, para toda a humanidade. Percebe-se uma tendência nos últimos documentos em acentuar essa dimensão cristã em relação aos documentos anteriores, em que se salientava a razão natural, no pressuposto de que a revelação cristã leva a realidade humana a sua plena realização. E finalmente, a DSI é provocada por compromissos históricos concretos a fim de oferecer orientação para a ação ( ).
Em outros termos, a DSI submete à apreciação de princípios enraizados na razão humana e na tradição evangélica eclesial situações históricas contingentes, elaborando assim sua doutrina. Tem, portanto, a validez de tais princípios, mas a transitoriedade e conjunturalidade das situações visadas.
Deve-se evitar, por isso, o duplo extremo. De um lado um objetivismo, doutrinismo, permanente e fixo, e doutro um relativismo, subjetivismo, e niilismo teórico. Há uma pretensão de verdade na DSI, que lhe dá um caráter de universalidade e obrigatoriedade vinculativa. Pois existem princípios gerais e absolutamente necessários da ética, da justiça, aos quais as relações sociais devem submeter-se. São válidos e identificáveis pela razão humana ( ). Mas são pensados para situações concretas em contínua mudança.
Este estatuto teórico não pode ser desligado do uso que se fez da DSI na A. Latina e em outros países fora deste continente de modo que alguns aspectos foram acentuados e outros negligenciados. A DSI é menos ligada aos movimentos históricos que ao lugar magisterial na percepção da realidade. Pois na verdade ela foi antes usada pelos partidos Democrata-criståos em suas bandeiras reformistas dentro do sistema neocapitalista, por certas correntes também reformistas da Ação Católica e por empresários cristãos, ligados à Associação de dirigentes cristãos de empresa (ADCE).
Este uso da DSI foi, em parte, responsável por certa suspeita em relação a ela sobretudo por parte dos movimentos operários e por grupos ligados a eles, especialmente numa perspectiva socialista e/ou revolucionária.
A nova situação, que a crise do Leste europeu tem produzido, e uma profunda revisão do socialismo têm propiciado a estes setores de Igreja mais comprometidos socialmente uma reaproximação positiva à DSI, sobretudo depois da nova inflexão dada a ela pela Laborem Exercens e muitos discursos de João Paulo II.
Teologia da Libertação (TdL)
A TdL, que assumimos aqui no sentido mais restrito da teologia praticada na América Latina depois de Medellín, responde à pergunta fundamental de repensar toda a fé para dentro de um contexto de opressão e libertação.
Ela é teologia e não doutrina. Elaborada por teólogos e não pelo magistério oficial da Igreja. O seu objeto é toda a revelação e não só a problemática social, ainda que a perspectiva social lhe seja fundamental.
Como a DSI é universal e particular. Universal por ser uma intelecção da fé cristã "católica" (universal). Particular ao procurar pensar essa fé católica para um contexto bem definido.
Cl. Boff estabelece uma relação no nível da determinação concreta entre a TdL e a DSI no sentido de que a "TdL seria uma 'determinação histórica das orientações doutrinárias e dos critérios práticos mais gerais contidos na DSI. Assim, a TdL não suprimiria a DSI mas a superaria dialeticamente". Isso significa que nos três níveis da mediação teórica da análise da realidade, do projeto histórico a ser implantado e da mediação prática de viabilizá-lo a TdL se relaciona com a DSI como um determinado (TdL) em relação a um determinante (DSI). A TdL avançaria, segundo ele, no nível da concretude sobre os ensinamentos sociais da DSI ( ).
No mundo da sensibilidade e do imaginário social, há diferenças entre a DSI e a TdL. A DSI é mais sensível aos problemas da sociedade que a primeira onda de desenvolvimento produziu (Leão XIII) ou que o capitalismo avançado tem produzido (os últimos documentos). O seu imaginário trabalha muito mais com uma sociedade que basicamente permanecerá a mesma, mas que deverá sofrer reformas, mudanças profundas, mas não uma transformação. Por sua vez, a TdL tem a sensibilidade avessa a um capitalismo selvagem opressor, periférico, monstruoso na sua iniqüidade e o horizonte de libertar-se radicalmente dele povoa-lhe o imaginário, com simpatias por formas socializantes alternativas ao capitalismo.
Entretanto numa análise mais racional e fria, vê-se que a diferença entre a TdL e a evolução da DSI é muito menor, sobretudo na posição crítica da DSI ao capitalismo e nas aberturas a formas socializantes, como já aparecem na Laborem Exercens. E a TdL também assumiu posição mais crítica frente ao socialismo, sobretudo depois dos últimos eventos do Leste europeu.
b. Quanto ao sujeito produtor: seu lugar social
A DSI é fundamentalmente um produto do magistério da Igreja, quer conciliar, quer romano, quer episcopal regional. Como todo discurso magisterial, ela tem como lugar de produção a "autoridade", a representação oficial da Igreja. Isso lhe dá um caráter de ensinar o fruto de consenso, já, de certo modo, cristalizado na tradição. Não é sua função, como tal, abrir novos caminhos, romper estruturas sedimentadas, mas procurar ir renovando sua doutrina somente com elementos novos já comumente aceitos. Fala-se tanto do estilo curial. A DSI participa, em parte, desse estilo, que arredonda as pontas, lapida as arestas, produzindo um discurso consensual menos percuciente ( ).
Além disso, a DSI foi primordialmente elaborada no Primeiro Mundo, ainda que com preocupações que alcançam toda a humanidade e ultimamente com especial atenção ao Terceiro Mundo. Mas mesmo assim é a perspectiva de quem se interessa de longe, de outro lugar. O capitalismo é freqüentemente percebido na sua forma mais humanizada, nem sempre com consciência da sua exportação de opressão para outras regiões. O socialismo, por sua vez, aparece na crueza de sua opressão dos países do leste.
Mesmo que muitas vezes certos documentos da DSI tenham soado como novidade na Igreja, isso, em geral, apenas significou quão distantes certos setores eclesiais estavam do consenso humano de muitas das afirmações desses documentos.
A TdL, pelo contrário, quer responder a novos problemas, arriscar reflexões que vão abrindo caminho na Igreja. O seu lugar de produção é o compromisso do teólogo com uma situação bem concreta: A libertação dos pobres. De dentro desse engajamento social, o teólogo pensa a fé da Igreja e a traduz, de maneira mordente, para essa mesma situação. A TdL transita por caminhos novos, com riscos de equívocos, não fugindo à responsabilidade de responder a questões difíceis, provocadoras, que vão surgindo do embate da situação sobre a fé.
Diferentemente dos países centrais, o teólogo da libertação vive o lado hediondo do capitalismo, sua terrível opressão, sua face assassina com a morte de tantos líderes populares, sem falar dos métodos obscuros de repressão. E, por sua vez, o socialismo aparece como uma alternativa popular na esperança de que poderá ser vivido sem as contradições dos países do leste.
c. Quanto à experiência fundante
A DSI parte fundamentalmente da experiência de justiça, quer iluminada pela razão humana, quer trabalhada na tradição cristã eclesial. O ângulo sob o qual ela encara a realidade social, as relações entre as classes, os diversos sistemas, são a justiça social, entendida na perspectiva cristã.
João Paulo II, ao repassar a história da DSI, recorda como Paulo VI na Encíclica Populorum Progressio dá à DSI uma dimensão mundial, porque a exigência da justiça só pode ser satisfeita neste mesmo plano ( ). A centralidade da justiça permitiu o alargamento da própria DSI, conforme novos problemas eram colocados nesse horizonte.
A TdL parte da experiência de Deus nos pobres. E essa experiência leva-a, sim, a um grito ético de protesto contra a situação injusta. Mas a força última - porque é teologia, e não doutrina social - de sua inspiração é a percepção de Deus no pobre. Um Deus go'el dos pobres, que protesta, através dos profetas no Antigo Testamento e de seu Filho Jesus, contra o massacre de seus filhos mais queridos, os pobres. O teólogo co-experimenta Deus no encontro com os pobres. Desse encontro, haure a inspiração fundante de sua teologia. A irrupção dos pobres, como sujeito social e sujeito eclesial, coloca o teólogo diante de uma provocação. Nessa provocação, percebe o próprio Deus que o questiona a pensar a revelação à luz dessa presença do pobre.
Na América Latina, o pobre mediatiza mais facilmente a Deus por causa da sua qualidade. É um pobre que se chama legião. É um pobre produzido pelo sistema dominante. É um pobre que se organiza e grita por um lugar na sociedade e na Igreja. É um pobre carregado de profunda experiência religiosa. Para muitos agentes de pastoral e teólogos esse contacto com os pobres não só foi inspirador de sua maneira de pensar, de refletir teologicamente, de rezar, como também de converter-se e viver. Esta experiência de Deus no pobre adquire, portanto, na América Latina uma originalidade própria ( ).
II. Proximidades
a. Preocupação fundamental
Preside a ambas - DSI e TdL - um interesse profundo e sério pela problemática social, ainda que sob ângulos diferentes. Querem responder aos questionamentos que a dura realidade humana, social levanta à consciência dos homens em geral e dos cristãos em particular. Ambas dizem um não a tanta injustiça e querem oferecer uma colaboração, a partir da fé (e da razão), para a criação de uma sociedade alternativa, quer no nível da motivação, quer no da ação concreta.
Ambas se mostram abertas à história, assumindo o pressuposto teológico básico de que Deus age na história humana. Deus é um Deus dos homens. E a história humana interessa-lhe fundamentalmente. Por isso a fé cristã sob a dupla forma de teologia e doutrina social pode dizer sua palavra coerente, autêntica, pertinente.
Ambas pretendem dar uma resposta desde a fé à pretensão absoluta das ideologias do social. Estas se ancoraram no ateísmo, deslocando a fé para o campo da intimidade individual (capitalismo) ou descartando-a como alienação (marxismo). Nesse sentido, ambas re-situam a fé no campo do social, desvelando-lhe o caráter crítico e utópico.
Ambas nascem por causa da necessidade de dar uma reposta de fé aos cristãos engajados no campo social. No final do século XIX, os cristãos sobretudo na Europa preocupados com o social necessitavam de uma palavra séria, autêntica da Igreja. Leão XIII com a Encíclica Rerum Novarum pretende dar-lhes uma primeira resposta, que foi sendo ampliada, corrigida, aprofundada pelos documentos seguintes. Na década de 60 do nosso século, os cristãos latino-americanos encontravam-se em situação semelhante. As exigências sociais de um compromisso sério com a libertação do povo empobrecido pedia uma releitura de sua fé. E a TdL veio então ao encontro desta expectativa e necessidade.
Ambas pretendem também fazer uma leitura dos sinais dos tempos. No interior da DSI foi ressuscitada essa expressão bíblica, por João XXIII. Sem usar o termo, João Paulo II inicia a Encíclica Sollicitudo Rei Socialis referindo-se à "Igreja (que) dispondo da plenitude da Palavra revelada por Cristo Jesus e com a assistência do Espírito Santo (cf. Jo 14, 16.26; 16, 13-15), vai lendo os acontecimentos, enquanto eles se desenrolam no decurso da história" a saber, lendo os sinais dos tempos ( ).
A TdL identifica seu método com uma leitura dos sinais dos tempos. Nesse sentido, coincidem nesse propósito fundamental. Na prática significa que ambas querem interpretar o sentido salvífico das realidades humanas sociais. A TdL tem uma pretensão mais ampla, já que, a partir de uma concepção unitária da história, busca interpretar salvificamente todo ato que envolva a liberdade humana na dupla valência possível de salvação ou condenação. A DSI, ainda que se debruce sobre a leitura dos sinais dos tempos, restringe seu campo antes à dimensão da justiça social. Não trabalha com as mesmas categorias que a TdL, já que sua preocupação não é de uma leitura teológica de todas as realidades humanas, mas de ser uma doutrina social.
A perspectiva do Reino de Deus une também as duas. Ocupa o lugar central na TdL ( ). A DSI visa a mostrar as exigências desse Reino na atividade humana na história. Ela procura ser uma serva do Reino no sentido de oferecer elementos para uma práxis cristã da libertação. A realidade do Reino articula as dimensões sociológica e soteriológica, comuns à TdL e à DSI ( ).
Esta comunhão na intenção profunda as aproxima muito, de modo que o cristão pode valer-se de ambas as ajudas, conforme necessidades diferentes. Ò busca de uma reflexão mais globalizante sobre a sua fé, pode recorrer à TdL. Pretendendo luz para seu agir em determinadas questões sociais, encontrará na DSI princípios e diretrizes de ação.
b. Características do discurso
Ambas trabalham de maneira indutiva. Partem da realidade. Num segundo momento, apelam para princípios e/ou revelação para iluminá-la. Entretanto a TdL aprofundou ainda mais a dimensão indutiva, ao querer purificar até mesmo seus conceitos teológicos, ao serem eles questionados pela realidade ( ).
Além desse aspecto indutivo, ambas trabalham com um discurso antes performativo e normativo que analítico descritivo. O analítico-descritivo é um simples momento intermédio, mas não o término e o específico desse discurso. Ele visa à ação. A DSI e a TdL são um discurso da práxis para a práxis. A hermenêutica do sentido, que caracteriza o discurso da teologia neoliberal, cede lugar em ambas para uma hermenêutica da práxis, isto é, interpreta-se a fé ou a doutrina da Igreja em vista do social, da práxis.
Quer para a leitura e intelecção da realidade social, quer para orientar a ação do cristão, ambas usam de elementos analíticos das ciências sociais. Convergem nessa mesma tarefa. Divergem na maneira como se posicionam diante dos elementos concretos. Nesse sentido, prestam-se mútua ajuda. A TdL é mais pródiga em assumir elementos da análise marxista, enquanto a DSI mostra-se bem mais reticente e crítica. Corrige certas reflexões ideologizadas de algumas TdLs. Doutro lado, a DSI não é normalmente entendida na mesma linha de criticidade em relação à ideologia liberal. Contra os danos de tal ideologia à fé, a TdL cumpre tarefa importante, desmascarando as pseudo-neutralidades e as alianças ambíguas e coniventes com tal ideologia na intelecção da fé e na prática pastoral. A TdL é muito sensível à percepção da influência do lugar social sobre a gestação e interpretações dos ensinamentos sociais do magistério, desde sua ótica da opção pelos pobres.
c. Dimensão crítica
Ambas desempenham um papel crítico diante da realidade social. As ideologias arvoram-se em absolutos. A DSI, partindo de um personalismo radicalmente cristão, cujo modelo último é o mistério da Encarnação, encontra um princípio não-ideológico para criticar as ideologias. A TdL, também ela, não é ideologia e confronta-se criticamente com as ideologias, a partir da opção radical pelos pobres. Tal opção nasce de uma exigência da revelação. De dentro dela pensa a totalidade da fé, liberando assim inúmeros elementos da tradição cristã para uma posição crítica frente à realidade social.
Ambas trabalham com uma antropologia cujas raiz última e matriz são o mesmo mistério da Encarnação. O homem é um ser transcendente, porque criado em Cristo e destinado à comunhão com a Trindade. Nesse horizonte antropológico passeiam essas duas reflexões e possibilita-se assim uma distância frente a qualquer absolutização ideológico-política.
Em outros termos, a DSI e a TdL situam-se numa postura fundamental de superação do historicismo, do positivismo jurídico, já que aceitam uma normatividade radical vinda do fato Jesus Cristo ( ). Ele é, ao mesmo tempo, fato e norma. Enquanto fato, está sujeito à história. Enquanto norma, transcende a história e torna-se critério último para julgar toda outra realidade.
III. Articulações
As relações entre a DSI e a TdL não foram historicamente nem sempre fáceis e transparentes. Além disso, há problemas teóricos que necessitam ser pensados.
a. Momentos históricos na mútua relação
Há um primeiro momento em que o desenvolvimento de ambas corre por sendas paralelas. A DSI desenvolve-se e é comentada por autores principalmente europeus. A Democracia Cristã, de um lado, parece querer realizar os ideais traçados pela DSI e de outro lhe influencia as ulteriores elaborações. Por sua vez, na América Latina a TdL começou a desenvolver-se num momento, em que as situações sociais se agravaram enormemente e, em alguns países, a DC, que se implantara desde a década de 30, revelava sua falência.
Num segundo momento, A TdL começou a tomar distância de certas formulações da DSI e a conflitar mesmo com ela. Com efeito, em alguns casos, isso aconteceu até de modo dramático. Pois a DC, que se autoproclamava como aplicação concreta da DSI, não conseguiu barrar uma evolução política para regimes militares, totalitários, alimentados pela ideologia da segurança nacional ( ). A dominação das classes burguesas se reforçara com recurso à mão militar de maneira violenta ( ). Nesse momento a TdL assume virulenta crítica contra tais regimes militares de segurança nacional e contra certo tipo de DSI que, através da legitimação da DC, terminou também perdendo sua força crítica diante deles ( ).
Surge um terceiro momento, em que a DSI e a TdL se encontram e entabolam sadio diálogo. Já havia começado um real deslocamento da DSI no pontificado de João XXIII, mas que se acentuou no atual. Busca-se aprofundar as raízes dos problemas e das atuais deformações, conflitos, desvelando mais claramente as estruturas e mecanismos da injustiça, opressão, discriminação, dominação que pesam, de modo especial, sobre as relações de classes e sobre os povos do 3o Mundo. Valoriza-se também o sujeito da ação social: pessoa, grupos intermédios, setores e povos que devem ser os primeiros interessados e responsáveis mais ativos na sua promoção ( ).
As duas Encíclicas sociais de João Paulo II Laborem Exercens e Sollicitudo Rei Socialis aprofundam tal aproximação. A importância atribuída ao trabalho, como chave essencial da questão social, quer em âmbito nacional, quer mundial, oferece excelente contribuição para o diálogo entre a DSI e a TdL. Mais. Na conclusão da Encíclica Sollicitudo Rei Socialis, João Paulo II se refere diretamente a uma "nova maneira de enfrentar os problemas da miséria e do subdesenvolvimento, que faz da libertação a categoria fundamental e o primeiro princípio de ação", assumindo assim a categoria central da TdL ( ).
b. Reflexão teórica conclusiva
Ao considerar esses momentos históricos da relação entre a DSI e a TdL pode-se concluir que elas podem articular-se. Veremos primeiro os modelos que não respondem a uma verdadeira articulação entre ambas, já que o desejado é uma mútua fecundação.
Modelo de campos paralelos
Pode-se considerar como um momento superado e que não tem sentido ser defendido teoricamente. Isso significaria na prática definir autonomias internas como separações práticas. De fato, cada um desses saberes tem suas regras internas de conhecimento. Mas daí não se segue que devam ocupar campos paralelos. Como vimos, ambas têm muitos pontos em comum, sobretudo uma mesma intenção e preocupação fundamental.
Com efeito, a DSI e a TdL, cada uma a seu modo, visam ao processo da libertação dos homens, criando uma sociedade humana e fraterna. A TdL acentua a libertação dos empobrecidos do 3o Mundo, enquanto a DSI olha para o conjunto de opressões de toda a humanidade. Como há uma ligação interna e profunda entre as forças de opressão, deve-se também trabalhar para que o processo de libertação articule suas forças. Assim a DSI e a TdL podem contribuir para tal processo.
Modelo da substituição
Pior ainda seria se a DSI ou a TdL quisessem substituir uma a outra. Se a TdL substituísse a DSI, a Igreja perderia um acervo doutrinal importante de alcance autoritativa e geograficamente mais amplo. A DSI tem, de fato, um campo de irradiação e influência que ultrapassa o mundo da TdL e goza de um nível de legitimidade eclesial maior, já que vem sancionado de maneira imediata e direta pelo magistério.
Se a DSI substituísse a TdL, também se perderia uma rica reflexão teológica que tem ajudado bem concretamente as igrejas do 3o Mundo de maneira que a DSI não consegue fazê-lo. Permite ao cristão engajado repensar toda a sua fé e não simplesmente encontrar princípios, critérios ou diretrizes para seu agir pastoral.
Mútua fecundação
A verdadeira postura dos dois saberes é de mútua fecundação. Cada um deles pode oferecer ao outro perspectivas de reflexão e dados objetivos próprios e enriquecedores. A DSI tem trabalhado muito questões sociais fundamentais sobre as quais a TdL não se debruçou. E por sua vez, a TdL possui já uma rica reflexão teológica que pode iluminar a DSI nas suas considerações mais propriamente teológicas.
Conclusão
Vive-se no momento situação privilegiada para um diálogo mais aberto e enriquecedor entre a DSI e a TdL. Os preconceitos de ambas as partes têm condição de serem superados. De um lado, a crise do Leste veio confirmar muitas intuições e críticas elaboradas pela DSI no referente ao socialismo. Freqüentemente essas críticas foram encaradas como posição reformista, ou uma terceira via, ou uma sutil defesa do capitalismo. Hoje se verifica que eram pertinentes, ao defenderem com destemor o primado indiscutível da pessoa humana em relação às ideologias.
Doutro lado, a TdL continua sendo importante. A crise do Leste não significa nenhuma cura do doente grave do capitalismo que são, em grande parte, os países do Terceiro Mundo. Por isso, uma reflexão teórica sobre os ângulos diferentes de abordagem da DSI e da TdL pode ir criando pontes de contacto entre ambas.
Buscou-se, por isso, ver, quer teoricamente, quer em comportamentos históricos, a relação que se estabeleceu ou se pode estabelecer entre esses dois saberes.
Fica aberta uma ulterior reflexão em que se estude mais concretamente a real repercussão em nível de conteúdos concretos de ambos os saberes, um sobre o outro. Trabalhou-se aqui o aspecto mais formal.
Texto para o seminário Ibrades.
Belo Horizonte - maio de 1991
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