LEONARDO BOFF: LAUDATIO IN HONOREN
Publicado por Jblibanio em 31/10/2009 (390 leituras)
LEONARDO BOFF
Laudatio in honorem
J. B. Libanio
Leonardo, meu irmão e companheiro.
No chrónos da nossa pequena história humana você se tornou verdadeiro kairós. O chrónos assinala-nos o tempo da ciência, constante que data os acontecimentos, importantes ou não. Tempo do relógio, dos prazos marcados a devorar-nos e até mesmo a aprisionar-nos em duras cadeias. Tempo sempre a fluir, a rolar inexoravelmente. Tempus fugit et non revertitur. As pessoas comportam-se diante dele de maneiras bem diversas. Algumas se prendem ao passado. Outras só pensam no presente. Algumas morrem por um futuro que ainda não chegou.
É o tempo dos calendários, das agendas, dos despertadores, dos cronômetros de constante e cada vez mais apurada e perfeita marcação. Pede desempenho, organização, produtividade, pontualidade. Sem ele não coincidimos nas atividades.
A mitologia grega personificou-o na figura do deus Chrónos com significativa simbologia. O mito, que você tanto valoriza em suas reflexões, permite-nos acesso privilegiado às realidades profundas do ser humano, sua origem, sua história, suas relações, seu destino. Chrónos devora os filhos após o nascimento por medo de ser espoliado do supremo poder por um deles. “Tempus edax rerum” (Ovídio). O tempo é voraz das coisas. Experimentamos a dura realidade do tempo a devorar tantas obras e coisas nossas. Certa vez entrava numa sala uma senhora já gasta pela idade e que na juventude fora esplendor de beleza e alguém, ao vê-la, sussurrou: “A devastação do tempo!” Ele destrói tanta coisa. “Tempora labuntur, tacitisque senescimus annis/ E fugiunt, freno non remorante, dies” [Ovídio, Fasti 6.771 –“Os tempos desabam, e nos envelhecemos nos anos silenciosos. E os dias fogem, não havendo como freá-los”.
Você, Leonardo, no chrónos inexorável conseguiu ter momentos sublimes de kairós. É tempo da qualidade dos momentos privilegiados. Marcos começa o evangelho dizendo: “Peplhrwtai o kairój” – “impletum est tempus”. Reino de Deus é a plenitude do kairós.
Dessa plenitude você participou com excepcional novidade, singular beleza e densidade existencial. Kairós é o deus das encruzilhadas das bifurcações e você enfrentou tantas com o olhar voltado para o futuro, sua novidade e força utópica.
O kairós em você se manifesta pela enorme capacidade da oportunidade no dizer e no decidir. Implica o senso do momento, a percepção do movimento que anima o chrónos, a lucidez da hora certa em relação ao conjunto dos fatores históricos, a percepção aguda das necessidades das pessoas, dos grupos, da história. Intuir “o melhor no instante presente”, divisar pela janela da oportunidade aberta, em dado contexto, implicam atitude atenta, criativa, estar presente e saber agir. Numa palavra, você revela a sabedoria de quem sabe ‘quando’ e ‘como’ utilizar o momento oportuno ( ).
Você acrescentou ao kairós uma pitada de aion, aevum. O tempo da presença jovial, do jogo, da brincadeira, do lúdico. Retomando a tese central da obra Homo Ludens de Johann Huizinga, que você tanto aprecia, o jogo, a brincadeira pertencem a esse tipo de realidades originárias, primigênias, enraizadas no humano e até mesmo anterior a ele, já que os animais também brincam. Ao lado de todo rigor acadêmico, você cultiva a leveza do jogo. Em alemão três palavras se associam: Spiel, Spitz (gracejo/humor) e Spatz (achar graça/divertimento). Você tem as três.
2. Pedra de escândalo
Leonardo você é uma pedra de escândalo. Não cabe nos elogios. Sobra-lhe espaço para os ataques, sobretudo da parte dos bem assentados na mediocridade, na legalidade canônica, na estabilidade institucional. Você joga na difícil posição do lado profético que se choca facilmente com o jurídico. Os profetas do Antigo Testamento e Jesus Cristo viveram fortemente essa tensão. No jurídico muitos tropeçaram porque eles não rezaram pela cartilha exata das leis, das normas, das prescrições, válidas nelas e por elas mesmas. Eles viram outro lado da realidade. Perceberam para além da harmonia aparente da sociedade, o conflito existente, especialmente quando ele afetava os desprotegidos do povo.
Você transita de maneira paradoxal no interior da lógica da harmonia e do conflito. Quando olha para as relações do ser humano com a natureza, tornou-se paladino de atitudes harmônicas, fraternas e cavalheiras. Prolonga para a vida entre os seres humanos a virtude da hospitalidade, da comensalidade. Mas quando se depara com a injustiça, a exploração dos direitos humanos, a violação da dignidade da pessoa, brota-lhe o grito profético e disseca o conflito. Mais uma vez se faz pedra de escândalo.
Persegue-lhe o pensamento outra dialética que choca. De um lado, fascina-o o cosmos enquanto ordem. Os gregos se encantaram dele. Os místicos e o espírito franciscano o cantam e rezam. E você com eles. No entanto, você não teme o caos. Tem trabalhado a idéia do caos generativo. Não vê nele somente o lado negativo da desordem. Mas desvenda-lhe o lado de novas possibilidades no espírito do Fórum Social Mundial: “um outro mundo é possível”. Até mesmo ousa provocá-lo quando paira nalgum corpo social a placidez da estabilidade à custa de vetos e censura às liberdades criativas. Você experimentou na pele os efeitos de tal rebeldia.
O seu id oceânico choca-se com os superegos certinhos. Rompe-lhes a rotina da observância, a regularidade dos ritos, a normatividade repetitiva e segura. Você arrisca-se pelos caminhos imprevisíveis dos ímpetos criativos, das intuições inovadoras.
3. Ponta de seta e o vigia da aurora
Imergindo ainda mais no mundo das metáforas, vejo-o como ponta de seta. O cabo se prende ao passado. Dá-lhe lastro. Mas você não se detém a estudá-lo e a esmiúçá-lo. Agarra-o como ponto de partida e de embasamento, para afinar a ponta da seta. Essa se volta para o futuro. Perscruta-o com os olhos cravados no que está a acontecer.
Assim foi na teologia da libertação. O Êxodo, a práxis de Jesus, a grande Tradição dos Padres e dos teólogos permitiram-no arrojar-se pelos caminhos da libertação. Aí estão muitos escritos seus sobre essa temática. Submeteu-se ao primeiro teste de partir da teologia clássica tradicional e moderna européia para voar para os céus novos da teologia latino-americana. Nesse rincão libertador, você transitou pela cristologia com a paradigmática obra de Jesus Cristo Libertador, pela eclesiologia com o polêmico livro: Igreja, carisma e poder, sem falar daquele primeiro trabalho sobre a eclesiogênese por ocasião do 2º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base. Em momento de vertiginosa altura, mergulhou na Trindade. E forjou uma das frases mais lindas de seu linguajar teológico: “No princípio está a comunhão dos Três e não a solidão do Um”.
E na análise de vários dos estudiosos de sua obra, você se tornou
verdadeiro ícone da teologia da libertação. Eles não economizam expressões para exprimir tal papel fundamental exercido por você. Eis alguns epítetos: inspirador, principal expoente, constante animador, o mais prolífico da segunda geração da teologia da libertação, o melhor da nova geração brasileira, o pai da teologia da libertação do Brasil, elo entre gerações e finalmente um itinerário pessoal e teológico apaixonante, criativo, influente do atual panorama teológico e do mundo dos empobrecidos.
No momento atual, sem abandonar a rota da libertação, você se lança com coragem, originalidade e superabundância consistente pelos novos ares da ecologia em sintonia com os avanços da ciência quântica, cosmologia e biologia modernas. Mais uma vez a seta aponta para temas novos.
Cabe-lhe outra metáfora bem bíblica: o vigia da aurora. Como nas cidades antigas, do alto da torre, ele espraia o olhar em volta na dupla missão de detectar os perigos e de vislumbrar o despontar da aurora. Sua teologia desvenda as artimanhas de pensadores encastelados no poder de sua pequena tradição e anuncia os clarões anunciadores do futuro.
No campo civil e político, você manifesta enorme capacidade convocatória junto aos movimentos populares em amplos setores sociais, culturais, políticos. Desempenha o papel de gerador de consciência crítica e alternativa e se tornou referência para a intelectualidade e diversos movimentos eclesiais e políticos concretos, e, em especial, nas hostes do Partido dos Trabalhadores e na relação pessoal de verdadeiro confidente do Presidente Lula.
4. “Hay que endurecer sin perder la ternura”.
A frase de Che Guevara que correu mundo traduz-lhe bem traço biográfico e intelectual. Você o exprimiu no título da obra sobre São Francisco: Ternura e vigor. Ao “colher algumas flores de seu jardim multicor”, você projetou gostos, desejos, sonhos. E escolheu temas significativos para o nosso tempo de alguém que viveu em plena Idade Média. Eles revelam a dupla face de ternura e vigor. Aponta o fim da hegemonia do Logos e o começo da do Eros e do Pathos. Francisco cultiva o eros humanizado: ternura, cuidado, convivialidade, compaixão, confraternização com a natureza. E o vigor se mostra no homem libertado, libertador e livre que enfrentou firmiter et suaviter o poder aristocrático e eclesiástico de esplendor do seu tempo.
Hoje você retomou esse binômio no grito dos pobres e da Terra. O vigor lhe atravessa a vida “de cigano teológico”, ao enfrentar polêmicas pesadas com outros teólogos e homens da instituição, ao peregrinar pelos cinco continentes, ao atravessar as noites nas vigílias de escritor. Enfim, vida incansável de trabalho que desafia a robustez de muitos jovens.
Recentemente, uma longa entrevista sua a jornalistas europeus deu à luz a um opúsculo cujo título lhe atribui a dimensão de ternura, de cuidado. Anwalt der Armen – “Advogado dos pobres”. Só grande ternura e vigor permitem alguém colocar-se constantemente ao lado dos pobres num sistema que os afasta, segrega, marginaliza.
5. Continente em face de ilhas (acadêmicas) de especialização
O mundo acadêmico atual, no Brasil e fora dele, está a gerar um tipo de pesquisador que compararia com pequenas ilhas. Bem plantado no seu interior, ele domina absolutamente os mínimos detalhes. Conhece de nome cada árvore e se torna capaz de defender-se caninamente contra qualquer ataque, objeção. Perfeitamente seguro no próprio saber se desinteressa do alcance social. Vale a própria segurança, para não dizer arrogância e cinismo, na expressão de Jurandir Freire Costa.
Você, Leonardo, renunciou ser teólogo de uma ilha. Optou pela vastidão continental ou se quisermos pela amplidão oceânica. Torna-se naturalmente mais vulnerável já que não passa a vida a estudar o pequeno recinto insular, mas a olhar para as florestas amazônicas ou para a largueza dos mares. Renunciando as obsessivas minúcias, sem perder a profundidade, você se propôs um serviço à humanidade e nela aos desprezados e sobrantes.
Na altura dos 70 anos, você mesmo se sentiu tocado pela virtude maior da sabedoria que olha de cima e com certa tristeza para tanta petulância acadêmica. Momento das grandes sínteses, dos escritos que brotam da vida e não se confinam à arqueologia de textos nem à abundância de citações.
CONCLUSÃO
A conclusão da Laudatio aponta para a etapa que você descreveu como o emergir do homem interior de dentro de carreira existencial e intelectual. Ao longo da vida, você encontrou-se diante de muitas encruzilhadas. Cada caminho que tomava se abria para outros possíveis. Nenhum lhe fechava o passo. Foram os cruzamentos de vias. Você os nomeou: franciscano, sacerdote, leigo, teólogo de muitas faces, filósofo de muitos saberes, professor de muitas cátedras, de autor de inúmeros livros, redator de revistas, homem público eclesiástica e civilmente, conferencistas de continentes. Quantas trilhas!
Você anuncia, depois dessas andanças, encontrar-se diante, já não mais de trevos de muitas estradas, mas do grande bívio. Só dois caminhos se fazem possíveis. Momento único, solene e de extrema gravidade. Não é questão do chrónos. É o kairós maior da existência. Olhá-lo na lucidez e sabedoria, mesmo que os anos ainda se prolonguem
De um lado, há o caminho para o luto sem consolo, para a morte última, para o silêncio do nada. Hoje mais uma vez apregoado pelos neoateus. Só existe o presente, este mundo. Depois, o nada. A escuridão fria do não existir. Mergulho no abismo sem fundo e sem retorno do vazio total.
A fé não lhe deixa amedrontar-se por tal trilha escura. Espera-o, quando o chrónos chegar, oxalá que ainda demore para alegria de muitos, o kairós divino. Você o chamou de “O Grande Encontro” com a Última Realidade, a Trindade do amor de onde viemos e onde repousaremos eternamente. Depois que todas as gloríolas e vaidades da terra se desfizerem como “pura palha”, tudo for relativizado e as máscaras de nossa existência caírem, nos sentiremos abraçados no que realmente somos pelo Deus que nos criou e nos ama.
No primeiro batismo, o ministro perguntou aos pais o nome da criança – Genésio – e o que pediam à Igreja – o sacramento do batismo. Nesse segundo e último batismo, o nome deixa de ser “denominação extrínseca” para traduzir toda a realidade de Genésio e de Leonardo.
Que a última palavra da Laudatio termine na eternidade, que não é um depois, mas o já presente e definitivo hoje e sempre. E que Boécio nos ilumine com sua belíssima definição: aeternitas est interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio: “a posse inteiramente simultânea e perfeita de uma vida interminável”. Nessa vida interminável, você mostrará a mão marcada pelo trabalho e abrirá o coração repleto de nomes, desde as mais altas autoridades deste mundo até os habitantes do lixão.
Tenho dito.
Publicado na Revista REB 69 (2009), n. 274, p. 446-451.
Laudatio in honorem
J. B. Libanio
Leonardo, meu irmão e companheiro.
No chrónos da nossa pequena história humana você se tornou verdadeiro kairós. O chrónos assinala-nos o tempo da ciência, constante que data os acontecimentos, importantes ou não. Tempo do relógio, dos prazos marcados a devorar-nos e até mesmo a aprisionar-nos em duras cadeias. Tempo sempre a fluir, a rolar inexoravelmente. Tempus fugit et non revertitur. As pessoas comportam-se diante dele de maneiras bem diversas. Algumas se prendem ao passado. Outras só pensam no presente. Algumas morrem por um futuro que ainda não chegou.
É o tempo dos calendários, das agendas, dos despertadores, dos cronômetros de constante e cada vez mais apurada e perfeita marcação. Pede desempenho, organização, produtividade, pontualidade. Sem ele não coincidimos nas atividades.
A mitologia grega personificou-o na figura do deus Chrónos com significativa simbologia. O mito, que você tanto valoriza em suas reflexões, permite-nos acesso privilegiado às realidades profundas do ser humano, sua origem, sua história, suas relações, seu destino. Chrónos devora os filhos após o nascimento por medo de ser espoliado do supremo poder por um deles. “Tempus edax rerum” (Ovídio). O tempo é voraz das coisas. Experimentamos a dura realidade do tempo a devorar tantas obras e coisas nossas. Certa vez entrava numa sala uma senhora já gasta pela idade e que na juventude fora esplendor de beleza e alguém, ao vê-la, sussurrou: “A devastação do tempo!” Ele destrói tanta coisa. “Tempora labuntur, tacitisque senescimus annis/ E fugiunt, freno non remorante, dies” [Ovídio, Fasti 6.771 –“Os tempos desabam, e nos envelhecemos nos anos silenciosos. E os dias fogem, não havendo como freá-los”.
Você, Leonardo, no chrónos inexorável conseguiu ter momentos sublimes de kairós. É tempo da qualidade dos momentos privilegiados. Marcos começa o evangelho dizendo: “Peplhrwtai o kairój” – “impletum est tempus”. Reino de Deus é a plenitude do kairós.
Dessa plenitude você participou com excepcional novidade, singular beleza e densidade existencial. Kairós é o deus das encruzilhadas das bifurcações e você enfrentou tantas com o olhar voltado para o futuro, sua novidade e força utópica.
O kairós em você se manifesta pela enorme capacidade da oportunidade no dizer e no decidir. Implica o senso do momento, a percepção do movimento que anima o chrónos, a lucidez da hora certa em relação ao conjunto dos fatores históricos, a percepção aguda das necessidades das pessoas, dos grupos, da história. Intuir “o melhor no instante presente”, divisar pela janela da oportunidade aberta, em dado contexto, implicam atitude atenta, criativa, estar presente e saber agir. Numa palavra, você revela a sabedoria de quem sabe ‘quando’ e ‘como’ utilizar o momento oportuno ( ).
Você acrescentou ao kairós uma pitada de aion, aevum. O tempo da presença jovial, do jogo, da brincadeira, do lúdico. Retomando a tese central da obra Homo Ludens de Johann Huizinga, que você tanto aprecia, o jogo, a brincadeira pertencem a esse tipo de realidades originárias, primigênias, enraizadas no humano e até mesmo anterior a ele, já que os animais também brincam. Ao lado de todo rigor acadêmico, você cultiva a leveza do jogo. Em alemão três palavras se associam: Spiel, Spitz (gracejo/humor) e Spatz (achar graça/divertimento). Você tem as três.
2. Pedra de escândalo
Leonardo você é uma pedra de escândalo. Não cabe nos elogios. Sobra-lhe espaço para os ataques, sobretudo da parte dos bem assentados na mediocridade, na legalidade canônica, na estabilidade institucional. Você joga na difícil posição do lado profético que se choca facilmente com o jurídico. Os profetas do Antigo Testamento e Jesus Cristo viveram fortemente essa tensão. No jurídico muitos tropeçaram porque eles não rezaram pela cartilha exata das leis, das normas, das prescrições, válidas nelas e por elas mesmas. Eles viram outro lado da realidade. Perceberam para além da harmonia aparente da sociedade, o conflito existente, especialmente quando ele afetava os desprotegidos do povo.
Você transita de maneira paradoxal no interior da lógica da harmonia e do conflito. Quando olha para as relações do ser humano com a natureza, tornou-se paladino de atitudes harmônicas, fraternas e cavalheiras. Prolonga para a vida entre os seres humanos a virtude da hospitalidade, da comensalidade. Mas quando se depara com a injustiça, a exploração dos direitos humanos, a violação da dignidade da pessoa, brota-lhe o grito profético e disseca o conflito. Mais uma vez se faz pedra de escândalo.
Persegue-lhe o pensamento outra dialética que choca. De um lado, fascina-o o cosmos enquanto ordem. Os gregos se encantaram dele. Os místicos e o espírito franciscano o cantam e rezam. E você com eles. No entanto, você não teme o caos. Tem trabalhado a idéia do caos generativo. Não vê nele somente o lado negativo da desordem. Mas desvenda-lhe o lado de novas possibilidades no espírito do Fórum Social Mundial: “um outro mundo é possível”. Até mesmo ousa provocá-lo quando paira nalgum corpo social a placidez da estabilidade à custa de vetos e censura às liberdades criativas. Você experimentou na pele os efeitos de tal rebeldia.
O seu id oceânico choca-se com os superegos certinhos. Rompe-lhes a rotina da observância, a regularidade dos ritos, a normatividade repetitiva e segura. Você arrisca-se pelos caminhos imprevisíveis dos ímpetos criativos, das intuições inovadoras.
3. Ponta de seta e o vigia da aurora
Imergindo ainda mais no mundo das metáforas, vejo-o como ponta de seta. O cabo se prende ao passado. Dá-lhe lastro. Mas você não se detém a estudá-lo e a esmiúçá-lo. Agarra-o como ponto de partida e de embasamento, para afinar a ponta da seta. Essa se volta para o futuro. Perscruta-o com os olhos cravados no que está a acontecer.
Assim foi na teologia da libertação. O Êxodo, a práxis de Jesus, a grande Tradição dos Padres e dos teólogos permitiram-no arrojar-se pelos caminhos da libertação. Aí estão muitos escritos seus sobre essa temática. Submeteu-se ao primeiro teste de partir da teologia clássica tradicional e moderna européia para voar para os céus novos da teologia latino-americana. Nesse rincão libertador, você transitou pela cristologia com a paradigmática obra de Jesus Cristo Libertador, pela eclesiologia com o polêmico livro: Igreja, carisma e poder, sem falar daquele primeiro trabalho sobre a eclesiogênese por ocasião do 2º Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base. Em momento de vertiginosa altura, mergulhou na Trindade. E forjou uma das frases mais lindas de seu linguajar teológico: “No princípio está a comunhão dos Três e não a solidão do Um”.
E na análise de vários dos estudiosos de sua obra, você se tornou
verdadeiro ícone da teologia da libertação. Eles não economizam expressões para exprimir tal papel fundamental exercido por você. Eis alguns epítetos: inspirador, principal expoente, constante animador, o mais prolífico da segunda geração da teologia da libertação, o melhor da nova geração brasileira, o pai da teologia da libertação do Brasil, elo entre gerações e finalmente um itinerário pessoal e teológico apaixonante, criativo, influente do atual panorama teológico e do mundo dos empobrecidos.
No momento atual, sem abandonar a rota da libertação, você se lança com coragem, originalidade e superabundância consistente pelos novos ares da ecologia em sintonia com os avanços da ciência quântica, cosmologia e biologia modernas. Mais uma vez a seta aponta para temas novos.
Cabe-lhe outra metáfora bem bíblica: o vigia da aurora. Como nas cidades antigas, do alto da torre, ele espraia o olhar em volta na dupla missão de detectar os perigos e de vislumbrar o despontar da aurora. Sua teologia desvenda as artimanhas de pensadores encastelados no poder de sua pequena tradição e anuncia os clarões anunciadores do futuro.
No campo civil e político, você manifesta enorme capacidade convocatória junto aos movimentos populares em amplos setores sociais, culturais, políticos. Desempenha o papel de gerador de consciência crítica e alternativa e se tornou referência para a intelectualidade e diversos movimentos eclesiais e políticos concretos, e, em especial, nas hostes do Partido dos Trabalhadores e na relação pessoal de verdadeiro confidente do Presidente Lula.
4. “Hay que endurecer sin perder la ternura”.
A frase de Che Guevara que correu mundo traduz-lhe bem traço biográfico e intelectual. Você o exprimiu no título da obra sobre São Francisco: Ternura e vigor. Ao “colher algumas flores de seu jardim multicor”, você projetou gostos, desejos, sonhos. E escolheu temas significativos para o nosso tempo de alguém que viveu em plena Idade Média. Eles revelam a dupla face de ternura e vigor. Aponta o fim da hegemonia do Logos e o começo da do Eros e do Pathos. Francisco cultiva o eros humanizado: ternura, cuidado, convivialidade, compaixão, confraternização com a natureza. E o vigor se mostra no homem libertado, libertador e livre que enfrentou firmiter et suaviter o poder aristocrático e eclesiástico de esplendor do seu tempo.
Hoje você retomou esse binômio no grito dos pobres e da Terra. O vigor lhe atravessa a vida “de cigano teológico”, ao enfrentar polêmicas pesadas com outros teólogos e homens da instituição, ao peregrinar pelos cinco continentes, ao atravessar as noites nas vigílias de escritor. Enfim, vida incansável de trabalho que desafia a robustez de muitos jovens.
Recentemente, uma longa entrevista sua a jornalistas europeus deu à luz a um opúsculo cujo título lhe atribui a dimensão de ternura, de cuidado. Anwalt der Armen – “Advogado dos pobres”. Só grande ternura e vigor permitem alguém colocar-se constantemente ao lado dos pobres num sistema que os afasta, segrega, marginaliza.
5. Continente em face de ilhas (acadêmicas) de especialização
O mundo acadêmico atual, no Brasil e fora dele, está a gerar um tipo de pesquisador que compararia com pequenas ilhas. Bem plantado no seu interior, ele domina absolutamente os mínimos detalhes. Conhece de nome cada árvore e se torna capaz de defender-se caninamente contra qualquer ataque, objeção. Perfeitamente seguro no próprio saber se desinteressa do alcance social. Vale a própria segurança, para não dizer arrogância e cinismo, na expressão de Jurandir Freire Costa.
Você, Leonardo, renunciou ser teólogo de uma ilha. Optou pela vastidão continental ou se quisermos pela amplidão oceânica. Torna-se naturalmente mais vulnerável já que não passa a vida a estudar o pequeno recinto insular, mas a olhar para as florestas amazônicas ou para a largueza dos mares. Renunciando as obsessivas minúcias, sem perder a profundidade, você se propôs um serviço à humanidade e nela aos desprezados e sobrantes.
Na altura dos 70 anos, você mesmo se sentiu tocado pela virtude maior da sabedoria que olha de cima e com certa tristeza para tanta petulância acadêmica. Momento das grandes sínteses, dos escritos que brotam da vida e não se confinam à arqueologia de textos nem à abundância de citações.
CONCLUSÃO
A conclusão da Laudatio aponta para a etapa que você descreveu como o emergir do homem interior de dentro de carreira existencial e intelectual. Ao longo da vida, você encontrou-se diante de muitas encruzilhadas. Cada caminho que tomava se abria para outros possíveis. Nenhum lhe fechava o passo. Foram os cruzamentos de vias. Você os nomeou: franciscano, sacerdote, leigo, teólogo de muitas faces, filósofo de muitos saberes, professor de muitas cátedras, de autor de inúmeros livros, redator de revistas, homem público eclesiástica e civilmente, conferencistas de continentes. Quantas trilhas!
Você anuncia, depois dessas andanças, encontrar-se diante, já não mais de trevos de muitas estradas, mas do grande bívio. Só dois caminhos se fazem possíveis. Momento único, solene e de extrema gravidade. Não é questão do chrónos. É o kairós maior da existência. Olhá-lo na lucidez e sabedoria, mesmo que os anos ainda se prolonguem
De um lado, há o caminho para o luto sem consolo, para a morte última, para o silêncio do nada. Hoje mais uma vez apregoado pelos neoateus. Só existe o presente, este mundo. Depois, o nada. A escuridão fria do não existir. Mergulho no abismo sem fundo e sem retorno do vazio total.
A fé não lhe deixa amedrontar-se por tal trilha escura. Espera-o, quando o chrónos chegar, oxalá que ainda demore para alegria de muitos, o kairós divino. Você o chamou de “O Grande Encontro” com a Última Realidade, a Trindade do amor de onde viemos e onde repousaremos eternamente. Depois que todas as gloríolas e vaidades da terra se desfizerem como “pura palha”, tudo for relativizado e as máscaras de nossa existência caírem, nos sentiremos abraçados no que realmente somos pelo Deus que nos criou e nos ama.
No primeiro batismo, o ministro perguntou aos pais o nome da criança – Genésio – e o que pediam à Igreja – o sacramento do batismo. Nesse segundo e último batismo, o nome deixa de ser “denominação extrínseca” para traduzir toda a realidade de Genésio e de Leonardo.
Que a última palavra da Laudatio termine na eternidade, que não é um depois, mas o já presente e definitivo hoje e sempre. E que Boécio nos ilumine com sua belíssima definição: aeternitas est interminabilis vitae tota simul et perfecta possessio: “a posse inteiramente simultânea e perfeita de uma vida interminável”. Nessa vida interminável, você mostrará a mão marcada pelo trabalho e abrirá o coração repleto de nomes, desde as mais altas autoridades deste mundo até os habitantes do lixão.
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