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XI. Alá é Deus: o mundo islâmico

Publicado por Jblibanio em 30/10/2009 (175 leituras)
XI. Alá é Deus: o mundo islâmico
J. B. Libanio

Três são as religiões monoteístas: O Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo. Crêem no mesmo e único Deus verdadeiro. Mas não retratam uma mesma imagem de Deus. O Judaísmo ficou preso à figura de Deus do Antigo Testamento. O Cristianismo entende-a a partir de Jesus, o Filho. O Islamismo pauta-se pelos ensinamentos do profeta Maomé, que viveu entre o final do séc. VI e o início do século VII na Arábia. Ele julgou-se agraciado na altura de seus quarenta anos pela intervenção de anjos com mensagens divinas, que mais tarde se consubstanciam no livro “O Corão”. Sente-se chamado à vocação de mensageiro de Deus.
Como a religião muçulmana é a que mais cresce no mundo, vale a pena ver qual é a imagem que ela tem de Deus, tanto na ortodoxia, como na mística. Mesmo no Brasil, onde o número de muçulmanos é relativamente pequeno, somos chamados a dialogar com essa religião, tal é sua força de atração e expansão.
A partir da fé no mesmo Deus, podemos estabelecer com o Islam verdadeiro diálogo inter-religioso. João Paulo II, discursando aos jovens muçulmanos em Marrocos, dizia: “É sobre Deus que desejo falar-lhes, antes de tudo; dEle, porque é nEle que acreditamos, vocês muçulmanos e nós católicos”.

1. A religião muçulmana

A façanha militar e cultural dos muçulmanos, desde sua fundação no século VII até nossos dias, tem sido extraordinária, não desvinculada de sua compreensão de Deus. O cerne dessas revelações são a fé num único Deus, Criador e Juiz, condenando assim toda idolatria. A própria palavra Islam já oferece o tom principal da relação da criatura com Alá: submissão a Deus. O muçulmano – muslim – é aquele que se submete a Deus.
Em Meca, na Arábia, Maomé começou a reunir em torno de si homens e mulheres num movimento religioso de forte cunho monoteísta, encontrando muita oposição a ponto de ter de fugir para Medina, oásis a uns 300 km ao Norte. Mas Meca se transformará mais tarde no centro de oração, no lugar de peregrinação, no famoso santuário islâmico.
“O Corão”, o livro religioso dos muçulmanos, nos permite mergulhar na sua religiosidade. Consideram-no, sem mais, “Palavra de Deus” revelada por um anjo a Maomé. O termo “corão” significa recitar, ler, colocando-nos diante de um tipo de religião voltada para a recitação do texto, com forte tentação fundamentalista. Tanto mais real tal possibilidade quanto “O Corão” é como que a encarnação de Deus no livro. “Deus criou o mundo como um Livro, tendo a sua revelação descido igualmente sob a forma de livro” (F. Schuon). O Livro é para os muçulmanos o grande “sacramento” que perpetua no tempo a relação ontológica entre Deus e o homem. Por isso, recitá-lo é ato ritual altamente santo. Mais que entendê-lo, o importante é a própria recitação, refugiando-se em Deus, sentindo-se sob sua proteção. Como diz o próprio Corão:
“Por ele, arrepiam-se as peles daqueles que temem a seu Senhor; logo suas peles e seus corações se apaziguam ante a recordação de Deus”. Um místico islâmico acrescenta: “O Corão é como uma esposa que não revela o seu rosto, mesmo que tires dela o véu...Deus semeou propositalmente os Livros Santos de inúmeras dificuldades, livros que ele mesmo inspirou, a fim de nos estimular assim a lê-los e sondá-los com tanto maior atenção (e humildade) (Rûmî)”.
Como é um livro escrito mais tardiamente em relação às outras tradições monoteístas judaica e cristã, ele contém muitos elementos delas. A tradição monástica oriental deixou suas marcas.
A tradição islâmica tem uma quantidade enorme de nomes para Deus. Segundo a teologia muçulmana são quatro mil. Mil são conhecidos somente por Deus. Outros mil por Deus e pelos anjos. Outros mil por Deus, pelos anjos e pelos profetas. Outros mil conhecidos por Deus, pelos anjos, pelos profetas e pelos crentes. Destes últimos mil, trezentos são mencionados na Thorá, trezentos nos Salmos, trezentos nos Evangelhos e cem no Corão. Destes cem, noventa e nove são conhecidos aos fiéis comuns, enquanto um é desconhecido, secreto e acessível somente aos místicos mais iluminados. Deus possui os nomes mais belos. Mas os “nomes de Deus” não são Deus. Exprimem unicamente uma maneira de designar a Deus, adequada aos limites humanos.

2. Traços fundamentais de Alá

Alá é o Senhor onipresente
“Deus é o criador de todas as coisas, porque é Único”. “Deus! Não há deus, senão Ele”, “o Sempre-Vivo, o Eterno. Nunca dorme, e nunca cochila. A Ele pertence tudo o que está nos céus e tudo o que está na terra”. Expressões que também encontramos semelhantes nos salmos. Ele, na sua imensa majestade, tudo domina. “Deus é a luz dos céus e da terra. Sua luz assemelha-se a um nicho onde está uma lâmpada”.
O místico Rûmî canta a Alá: “O sol, como um escravo, morrerá diante de Ti e a lua, de coração cansado, morrerá diante de Ti; o cipreste e a flor morrerão, também eles. Todo aquele que tenha perdido o próprio coração morre diante de Ti”.
O rosto de Deus é, de sua parte, só olhar; para nós é luz do coração e dos olhos. Esse rosto, da aurora do ser até a eternidade, em nenhum instante sequer, desvia os olhos de nosso rosto. “Quando busco meu coração, encontro-o em Ti. Quando busco a minha alma, encontro-a em teus cabelos. Quando, assentado, me aproximo a uma fonte para beber, também no pequeno espelho da água vejo o Teu rosto refletido (Rûmî)”.
O nosso rosto e todo o mundo se iluminam da luz de Deus. Ele acendeu todas as estrelas no céu. “Se Tu és a maior, és também a que mais queima”. Ele é razão das razões. Toda outra cala-se diante dEle. “Que sol pode rivalizar com teu rosto?”
Deus é absolutamente transcendente. Atribuir a outro ser a condição de “associado”, parceiro de Deus é enorme delito e Ele não perdoa a quem o faz, ensina O Corão. “A Deus”, continua o livro santo, “pertencem o Oriente e o Ocidente e aonde quer que vos dirijais, lá está o rosto de Deus. Deus é imenso e poderoso”.

O Deus da presença e ausência
O muçulmano olha em torno de si em busca de Deus e diz para si: “De um extremo ao outro, entre os cristãos procurei. Ele não estava na cruz. Fui ao templo dos ídolos, à pagoda antiga. Nenhum sinal naquele lugar. Subi as montanhas de Herat e Qandahar, olhei ao redor, percorri vales e colinas. Não o encontrei. Com firme propósito, alcancei o cume de Qaf. Lá apenas se via a morada de Anqa. Virei as rédeas da busca para a Caaba. Ele não estava naquele refúgio de jovens e velhos. Inquiri Avicena por seu paradeiro. Não se encontrava entre seus seguidores. Dirigi-me ao país onde as distâncias se medem pelo cumprir de dois salamaleques. Ele não fazia parte de tal corte refinada. Contemplei enfim meu próprio coração – lá O vi, não era outra sua morada”.
Esse belíssimo poema do místico Rûmî revela a sensibilidade espiritual de quem encontra Deus no seu mais íntimo. “Há um sol-estrela que se eleva além da realidade das formas. Lá me perdi”. Assim é Deus. Olhando para si e para Deus, como dois mundos, o místico vê-se “nessa única visão dissolver-se como o açucar na água”.
“Meu corpo é um bote e eu sou as ondas que se arremessam contra ele. Quando lança suas âncoras, solto-lhe as amarras em meio à tormenta e deixo-o romper-se em pedaços”. É o perder-se em Deus de todo místico. É o deixar-se purificar por ele, como pelo fogo. “Se sinto frio ou preguiça, as chamas do meu oceano me envolvem; feliz me entrego, e como o ouro purifico-me”.
De novo, é o mergulho no oceano de Deus, depois das viagens exteriores. “Cansado das formas cheguei às qualidades. Cada uma diz: “Sou um mar azul-turquesa, mergulha em mim”.
Deus faz-se bem vizinho. Conhece o que está no nosso coração. Coloca-se entre o homem e seu coração, na expressão do Corão. “Estamos mais perto dEle do que a (sua) artéria jugular”. Essa presença é bem no fundo de nosso coração. “Os jardins e os frutos estão no interior, no coração”, dizia Rûmî.
Em outro momento, o mesmo místico canta: “Eu sou nada. Só Deus conhece o que tenho no coração e me faz feliz. Na verdade, o meu coração é um ramo de flor que o vento da primavera faz ondular”.
Em outros momentos, a experiência inverte-se. Deus parece estar no lado oposto de nossas buscas. “Se o retesas como a um arco, ele escapará como flecha. Se o procuras no alto do céu, ele brilha como a lua no lago; entras na água para capturá-lo e de novo ele foge para o céu. Se o procuras no espaço vazio lá está, no lugar de sempre; caminhas para este lugar e de novo ele foge para o vazio. Como a flecha que sai do arco, como o pássaro que voa da tua imaginação, o Absoluto há de fugir sempre do que é incerto”.
Deus está sempre a dizer: “Escapo daqui e dali, para que minha beleza não se prenda a isso ou aquilo. Como o vento, sei voar, e por amor à rosa, sou como a brisa; também a rosa há de escapar ao outono”. E Deus se esconde no mais profundo de seu mistério quando queremos capturá-lo. “Vê como se eclipsa este ser; até seu nome se desfaz ao sentir tua ânsia de pronunciá-lo. Ele te escapará à menor tentativa de fixar sua forma numa imagem: a pintura sumirá da tela, os signos fugirão de teu coração”.

Deus é o Amado, Deus é luz
O Antigo Testamento, em muitos de seus textos, pode deixar-nos uma imagem de Deus juiz severo. No entanto, outras passagens contrabalançam e até mesmo corrigem essa figura pesada de Deus, vestindo-a de ternura. O mesmo acontece com os místicos islâmicos. Eles desenham com cores ternas outro retrato de Alá, diferente do guerreiro e açulador da guerra santa.
“Nada me é mais próximo que o Amado, Ele é mais próximo de mim que minha própria alma. Nem mesmo eu nunca me recordo dEle, porque a lembrança é para quem não está”. “Quando morrer, entregai o meu corpo a meu Amado. Se Ele beijar os meus lábios ressequidos e sem mais vida, não vos admireis, se eu ressuscitar, não vos maravilheis” (Rûmî).
O místico continua experimentando a fusão íntima do amor: “É tempo de amor: o Amado, como o sangue nas veias e na pele, circula em mim. De mim nada resta que um nome, tudo o resto é Ele”. Há uma percepção profunda da exclusividade do amor a Deus. Amor indivisível. “Este coração, que julgava meu, não abandonarei nem mesmo entre pessoas amigas. Este coração me deixará somente para estar contigo, meu Amado. Tem cuidado dele, pois que o amei ternamente”.
Essa presença do Amado enche o fiel de felicidade, de alegria. “A tua doçura me ensinou o que é o amor. A tua beleza me inspirou poesias. A tua imagem dança sobre o véu do meu coração. A tua imagem me ensinou a dançar”. “O Amado resplende como o sol e o enamorado dança como um átomo. Quando sopra a brisa primaveril do amor, todo ramo, que não esteja seco, põe-se a dançar”.
A presença do Amado transforma tudo. “Quando estás comigo, o amor não me faz dormir. Quando não estás, as lágrimas não me fazem dormir”. Presença que é onipresença. “Em toda parte de mim se encontra o meu Amado, em toda parte de mim fala o meu Amado. Sou como a arpa que soa ao toque do músico: o meu pranto é causado pelos seus dedos”.
Deus é luz na nossa vida. A mística da luz atravessa a espiritualidade islâmica. Atribui-se a Maomé a seguinte oração: “Ó Deus, põe luz no meu coração, luz na minha alma, luz na minha língua, luz em meus olhos e luz nos meus ouvidos; põe luz na minha direita e luz na minha esquerda, luz embaixo de mim e luz sobre mim; põe luz em meus nervos e luz na minha carne, luz em meu sangue, luz em meu cabelo, e luz na minha pele! Dá-me luz. Fortalece minha luz, faze-me luz!“
Na noite escura da vida, Deus é essa luz. “Faze que eu possa levantar os meus olhos até o teu semblante, será uma tochazinha na noite escura. Quando me assento junto de Ti e te acaricio, todo meu erro é uma prece; quando Tu não estás, toda minha prece é um erro”.

A união do fiel com Alá
Os místicos não poupam imagens e expressões para traduzirem essa união íntima com Deus. Se não considerássemos as afirmações anteriores da distância, da transcendência de Deus em relação a todo criado, poderíamos imaginar estar diante dum puro monismo, panteísmo. Toda afirmação deve ser lida num contexto maior em que outras foram feitas em direção oposta. Não são contradições. É a pobreza de nossa linguagem que para falar de Deus prefere fazer afirmações contrastantes entre si.
“Estou maravilhado de Ti e de mim, oh alvo do meu desejo! Aproximei-me tanto de ti, que cri que Tu fosses o meu eu. Ao encontrar-Te, escondi-me tanto que em Ti fizeste extinguir-me a mim mesmo. Oh Tu que me és graça enquanto vivo e paz tranqüila quando estarei debaixo da terra! Só em Ti reside o meu dileto, porque Tu és meu temor e minha segurança. Oh, nos jardins dos Teus significados está contida toda minha arte, e se desejo ainda alguma coisa, somente Tu és todo o meu desejo ardente”! assim reza o místico islâmico Al-Hallaj.
A mesma experiência é traduzida numa linda série de imagens pela pena do místico Rûmî. “Eu sou um átomo do raio do sol, Tu és para mim o sol. Estou enfermo de dor, Tu és a minha medicina. Levanto-me em vôo ao céu, sem asas nem penas, para seguir-te. Sou um grão de poeira, Tu és o âmbar que me atrai a si”.
A imagem do fogo, que se alimenta do óleo, sugere ao místico sua união com Deus. “Eu conheço as qualidades e os costumes do Amado. Ele é como o fogo, sou como o óleo. É graças a esta luz penetrante que a alma pode ver. A fumaça que ele espalha em torno de si, isso sou eu”.
Do fogo passa à água. “A água da vida é uma gota da água da tua face, a lua do firmamento é um vestígio do esplendor de teu semblante. À longa noite peço o clarão da lua; a noite é o negro de tuas tranças, o clarão da lua é o teu rosto”.
Há momentos em que o místico apenas se percebe distinto de Deus. “Por teu amor, caminho de cabeça erguida; para buscar-te, caminho sem trégua. Repreenderam-me de girar continuamente em torno a Ti. Na verdade, giro em torno a mim mesmo”. Não se trata de nenhum egoísmo crasso, mas a evidência dessa união profunda com Deus. Com outras imagens expressivas, o crente sente essa união com Deus. “Tu és o mar e eu nado em Ti, como um peixe; Tu és o deserto que eu percorro, como uma gazela. Enche-me do teu respiro. Não posso soar sem ele, porque sou o teu oboé. E sôo.
Esta união pode, às vezes, parecer uma misantropia. Evidentemente nessas afirmações, os místicos não querem afirmar nenhuma verdade a respeito das pessoas humanas, mas simplesmente traduzir, de modo cortante, essa experiência da exclusividade absoluta de Deus. Assim um bandido, convertido com o estudo da tradição do Profeta, entra nos arcanos da mística. “Quando vem a noite, eu fico feliz por estar só, sem separação, com Deus; e quando vem a manhã, eu me aflijo porque detesto ver as pessoas que entram e turvam minha solidão”. Essa intimidade com Deus leva-o a não temer o sofrimento, a morte, pois vê tudo vindo de suas mãos. “Quando Deus ama seu servidor, Ele o aflige, e quando o ama muito, volta suas mãos sobre ele e não lhe deixa nem família, nem riqueza”. Evidentemente são frases que não valem por si mesmas, mas no contexto de uma experiência radical de Deus.

Conclusão

A revelação cristã chegou a seu ponto mais alto quando João afirma: Deus é amor. O amor é o próprio ser de Deus para o Novo Testamento. Ao chamar a Deus de Amado, a mística islâmica já estava afirmando diretamente essa qualidade do ser divino. “O coração não pode amar ninguém a não a ser a Ti, Deus”, assim escrevia a mística islâmica Rabi’a. A oração noturna era para ela uma “doce conversação amorosa entre o amante e o Bem Amado”. Segunda uma lenda, ela fechava as janelas na primavera sem olhar as flores para reservar-se perdidamente na contemplação dAquele que criou as flores e a primavera.
Como em todos os quadrantes, em todos os tempos, em todas as religiões, os místicos se encontram nessa belíssima experiência da sublimidade infinita de Deus, na sua força amorosa, na exclusividade absoluta de seu amor. Com esses rápidos traços de vivências de muçulmanos, podemos entender o que os Padres da Igreja diziam: Existem sementes do Verbo divino espalhadas por todos os rincões.

Ano 1998

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