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VIII - DEUS NO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

Publicado por Jblibanio em 30/10/2009 (174 leituras)
VIII - DEUS NO DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO
J. B. Libanio

A Igreja Católica até recentemente era a principal e quase única religião que norteava as sociedades em nosso Continente. As últimas décadas trouxeram modificação significativa nesse quadro. Em grande parte, tal mudança decorre do fenômeno de secularização. Este está corroendo o poder das religiões, entre elas o da Igreja Católica, como uma Instituição que dava normas para toda a sociedade. Com isso, a religião passou a ser uma questão pessoal. E, desta forma, multiplicaram-se suas expressões. É como se tirássemos de um colégio o uniforme, então veríamos os alunos virem cada um vestido a seu modo. O uniforme religioso católico está sendo substituído pelas inúmeras vestes das denominações religiosas. E o sistema capitalista aproveita inclusive para comercializar tal surto religioso.
Além disso, o novo fenômeno cultural da globalização tornou possível que expressões religiosas, até então rinconadas em regiões longínquas, fossem trazidas para dentro de cada casa. A pluralidade religiosa assumiu dimensões incomensuráveis.
Mais ainda. Abriu-se, dessa maneira, em nossos países da América Latina, amplo espaço, quer para as religiões africanas e ameríndias, quer para a entrada de tradições religiosas ancestrais do Oriente. Numa palavra, a fé cristã sente-se interpelada a um diálogo com as outras tradições religiosas.
Todo diálogo supõe duas atitudes fundamentais. Uma clareza de consciência da própria identidade e uma abertura ao diferente. Quem não sabe quem ele é, não pode dialogar. Quem está plenamente satisfeito consigo e se julga perfeito e completo, também não dialoga. Ora, isso que vale do diálogo interpessoal, aplica-se também ao diálogo inter-religioso.
O Cristianismo é a única religião cujo Deus é tripessoal. O Judaísmo e o Islamismo professam a fé num único Deus pessoal. Outras religiões, sobretudo orientais, trabalham com outra compreensão de Deus em que o lado pessoal ou é desconhecido ou menos explicitado. O Budismo, segundo alguns, chega a prescindir de Deus, para valorizar a experiência humana como fonte da religião.
Ao querer estabelecer um diálogo inter-religioso, o Cristianismo necessita manter a dupla atitude fundamental de clareza sobre sua identidade e de abertura às outras religiões. Pensar Deus no diálogo inter-religioso a partir da identidade cristã é pensá-lo como Pai. Aí está a nossa originalidade. É uma face do diálogo. A outra exigência do diálogo é o confrontar-se com o diferente das outras religiões. Dessa sorte, a compreensão de Deus Pai pode ser ampliada, enriquecida com a contribuição de outras tradições religiosas.

1. Um Deus exclusivista

Muitos cristãos acostumaram-se a uma visão de Deus quase como propriedade particular. Temos o Deus verdadeiro. Todas as outras religiões possuem ídolos, falsos deuses. Transportam literalmente para nossos dias afirmações do Antigo Testamento. Esquecem que o contexto sócio-religioso é muito diferente. Lá, o povo de Israel estava ainda no início da elaboração de sua experiência de Deus. Cercado por muitas religiões poderosas, dificilmente conseguiria aquele povo pequeno e frágil expressar para si mesmo a sua identidade religiosa sem certo grau de radicalidade exclusivista.
Somente nesse contexto podemos entender os dizeres do salmista sobre as outras divindades: “Os ídolos são prata e ouro, obra de mãos humanas: têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não têm olfato, têm mãos e não apalpam, têm pés e não andam; não emitem sons com a garganta. Fiquem iguais a eles os que os fabricam e todos os que neles confiam (Sl 115,4-8)!
Assim pensaram os missionários quando aqui chegaram em relação às religiões indígenas. Da mesma maneira, foram tratadas, até faz pouco tempo, as divindades das religiões afro-americanas. Também diante das tradições religiosas do Oriente, os evangelizadores europeus refletiam essa mentalidade veterotestamentária. Evidentemente, tratar hoje as outras religiões nessa perspectiva seria fechar-se totalmente ao diálogo inter-religioso.
Um primeiro passo é modificar nossa visão de Deus Pai. Ele se deixa adorar, posto imperfeitamente, em outras religiões. É o mesmo e único Deus que tem muitos nomes. Sem a superação de posição intransigente e apologética, não se entendem não só as outras religiões, como também desconhece-se o nosso próprio Deus.
Confundia-se até recentemente a verdade do único Deus com o poder e a verdade da cultura ocidental. As grandes descobertas abalaram essa consciência, mas não suficientemente. A crise cultural do Ocidente, provocada pelas duas grandes guerras mundiais, pela tomada de consciência de suas perversidades, manifestadas na construção dos campos de concentração, no holocausto, no lançamento de bombas atômicas, na voracidade insaciável de um consumismo destruidor da natureza, levou também a questionar se sua visão de Deus não pagou tributo demasiado grande a tal cultura.
O Deus exclusivista do Ocidente serviu de pretexto para justificar as conquistas e dominação de muitos povos, para exterminar etnias e para perpetrar tantos outros crimes. De Pai esse Deus tinha muito pouco. Era mais o vingador de uma religião a serviço de potências invasoras. Chegou-se a escrever nos inícios da Colonização que a sabedoria de Deus tinha “guardado esses reinos durante tantos anos sem legítimos títulos, para que os reis de Espanha tivessem o mais alto e seguro de todos quantos se possuem no mundo”. Invoca-se a própria “sabedoria de Deus” para legitimar a colonização! De modo mais contundente, lê-se num documento da época: “Boas são as minas entre esses bárbaros (índios), pois Deus lhas (aos Reis de Espanha) deu para que fossem levadas a fé e a cristandade e a conservação nela, e para a sua salvação”.
Evidentemente houve vozes discordantes. Mais: vozes proféticas que gritaram contra essa visão de um deus colonialista. Em nosso Continente, Bartolomeu de las Casas foi uma delas. Pregava assim veementemente contra os colonizadores: “Todos vós estais em pecado mortal e nele viveis e morreis, por causa da crueldade e da tirania que usais com essas gentes inocentes. Dizei: Com que direito e com que justiça tendes em tão cruel e horrível servidão esses índios? Com que autoridade fizestes tão detestáveis guerras a essas gentes, mansas e pacíficas, que estavam em suas terras, onde tão infinitas delas, com morte e estragos nunca ouvidos, fizestes desaparecer?”

2. Dimensão pessoal de Deus

A visão cristã oferece no diálogo inter-religioso a originalidade de um Deus tripessoal. As outras religiões podem enriquecer-se, ao confrontarem-se com um Deus que é pessoa e comunidade. Como pessoa, não se perde em nenhum anonimato, nem se dissolve numa força cósmica ou psíquica, mas, posto diferente de nossas pessoas humanas, está diante de nós como um Sujeito. Na nossa maneira antropomórfica de falar de Deus, vemo-lO como quem fala, chama, interpela, ouve, sofre, ama, promete, realiza suas promessas. Essa dimensão de pessoa faz que também nós nos percebamos como sujeito, como pessoa diante dele. Se Deus fala, podemos ouvi-lo. Se interpela, podemos responder-lhe. Se ouve, podemos falar-lhe. Se ama, podemos amá-lo. Se promete, podemos confiar nele. Se realiza, podemos agradecer-lhe.
Essa relação pessoal permite à fé cristã traduzir-se em muitos ritos, símbolos, orações, cultos, práticas religiosas. Tudo, porém, só pode ser interpretado como expressão de diálogo entre pessoas, entre sujeitos, nunca como manipulação que traduz o desejo de tratar o outro como objeto. Em muitas expressões religiosas, somos tentados a tratar a Deus como objeto ou deixar-nos tratar por ele dessa maneira. De ambos riscos a concepção pessoal de Deus nos livra. E ela serve, por isso mesmo, de pedra de toque para as outras tradições religiosas também elas purificarem-se dessa mesma tentação. As magias e outros ritos semelhantes transformam a Deus em objeto. E a concepção da história como destino divino reduz-nos a objetos. Um Deus pessoal reconduz-nos à verdadeira trilha religiosa.
A visão cristã vai mais longe. Fala-nos que esse Deus é Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo e enviador do Espírito Santo. Ele é tripessoal, é Trindade, é comunidade. Não está perdido na solidão de um monoteísmo fechado, nem no anonimato de uma força infinita. Ao entendermos a Deus como Trindade, nós nos compreendemos também diferentemente, a saber, como um ser comunitário. A religião, que nasce dessa experiência, não pode ser feita de ritos de isolamento, mas visa à vida comunitária. A sua solidão mística deixa-se povoar pela abertura à comunidade, tanto na oração como na caridade.
O outro lado do diálogo é abrir-se ao diferente, às outras expressões religiosas. Não pode naturalmente ser à custa da própria identidade. O Cristianismo não pode evidentemente abrir mão da Trindade para dialogar. Simplesmente porque deixaria de ser Cristianismo. Mas a visão tripessoal de Deus pode enriquecer-se com a contribuição das outras tradições religiosas.
Evidentemente não se pode entender essa reflexão como se tratasse de “deuses” diferentes. Existe um só Deus, e é dele que todos falam. Entretanto, nem todos o compreendem igualmente nem dispõem dos mesmos elementos, das mesmas experiências religiosas, das mesmas tradições culturais, das mesmas revelações, das mesmas capacidades de penetração reflexiva. Há um único Ser divino e muitas apreensões. Por isso, vale a pena perseguir as tratativas de Deus no interior de outras religiões.
Há um adágio védico que diz: “O Ser é um só - os sábios o chamam com vários nomes”. Afirmação profunda que pode ajudar a não absolutizar nossas projeções culturais de Deus. Os conceitos Pai, Pessoa, Natureza que são para nós decisivos na compreensão de Deus, da Trindade, não podem ser talmente radicalizados a ponto de a filosofia ocidental fechar as portas a um diálogo com outras culturas em que pai, pessoa, natureza exprimam conotações outras. Os nossos sábios - desde os profetas do Antigo Testamento até o Sábio maior Jesus Cristo - nomearam a Deus com muitos nomes. Para nós, o nome mais lindo, sublime é o de Pai. Retivemo-lo na oração, no credo, nas expressões litúrgicas. Mas ele não esgota a totalidade da compreensão de Deus. O papa João Paulo I quis acrescentar-lhe o nome de mãe, para não prendê-lo nas malhas masculinas da paternidade.
As tradições religiosas orientais cultivam muito a dimensão de Deus “Mistério”. Mistério divino de muitas faces. Ele possibilita genuínas experiências religiosas. E nessas experiências, salienta-se, por exemplo, na tradição hindu, a Transcendência. Podemos correr o risco na nossa cultura ocidental de construir um Deus tão próximo de nós, que termine diminuído na sua natureza de Mistério Absoluto. Lêem-se na tradição Upanixade esses belíssimos versículos, que se dirigem a Brahman que é, ao mesmo tempo, transpessoal e pessoal. Referem-se a um Ser que está para além de todo conhecimento humano, que “não é assim nem assim” e “diverso do que é conhecido e também para além do que é desconhecido”.
“O olho não vos alcança
não vos alcança a palavra e nem mesmo o pensamento.
Não sabemos, não conhecemos
de que modo possa ser ensinado.
Ele é diverso do que é conhecido
e também para além do que é desconhecido.
Assim ouvimos dos antigos
que nô-lo hão explicado.
O que não pode ser expresso com a palavra
o que por meio do qual a palavra vem expressa
isto, saiba, que é o Brahman (...)
O que não pode ser pensado com o pensamento
o que por meio do qual, dizem, o pensamento vem pensado
isto, saiba, que é o Brahman (...)”
Temos, é claro, na tradição cristã também esse rosto de Deus, mas muito menos acentuado. Por isso, o diálogo inter-religioso acorda em nós tais sentimentos e experiências de Deus.

3. Dimensão histórica de Deus

Avancemos nosso encontro inter-religioso. A tradição bíblico-cristã apresenta a maravilhosa face de um Deus imerso e comprometido com a história humana. Nesse compromisso, Ele se põe sempre ao lado da vida e das lutas dos seres humanos que a buscam. Não os criou e deixou-os abandonados, como um grande arquiteto, que depois de construir a casa, afasta-se definitivamente dela, para que os seus habitantes façam aí o que quiserem. Vela, assiste, compromete-se até o extremo de enviar seu Filho unigênito a participar fisicamente dessa história.
Mais: nesse compromisso, Ele dá especial atenção àquelas pessoas e seres que estão sofrendo por causa da injustiça e opressão. Dessa maneira, faz descortinar para os fracassados da história horizonte de esperança de construção de mundo melhor. E para todos os outros seres humanos, enquanto mortais, anuncia a vitória definitiva sobre a morte pela ressurreição. Quantas tradições religiosas não conhecem um rosto de Deus assim! Essa nossa contribuição é insubstituível, maravilhosa.
Da nossa parte, descuidamos muito a natureza. A história nos fascinou tanto que dessacralizamos o cosmos, destruímos a casa dos homens, o Planeta Terra. Esquecemos que a Terra é também morada de Deus. As tradições religiosas orientais prezam muito essa dimensão e vêm-nos corrigir uma teologia ecocida, fundada numa leitura deturpada do mandato divino inicial de dominar e de submeter a Terra: “Sede fecundos e multiplicai-vos, enchei e subjugai a terra! Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre tudo que vive e se move sobre a terra!” (Gên 1,28).
Naturalmente um diálogo sério com outras tradições nos leva a conhecê-las a fundo. Mesmo que a maioria das pessoas não tenha condição de fazê-lo, no entanto difunde-se um clima, uma sensibilidade religiosa, vindo de tradições hinduístas, budistas e de outras tantas. Elas têm despertado nova percepção da relação do divino com a natureza. Reconstroem uma sacralidade perdida. Atendem para um Absoluto, sob vários nomes, que se oculta nas “aparências” da multiplicidade dos fenômenos. Remetem-nos a uma experiência de presença do Mistério em todas as coisas. Ajudam-nos a encontrar o equilíbrio entre a dupla experiência de Deus, fundamental na vida de todos nós, a saber em todo criado e nos acontecimentos históricos, própria da tradição bíblico-cristã

Conclusão

O ponto crucial do diálogo inter-religioso é a concepção de Deus. Todas as religiões, de certa maneira, referem-se, em última instância, a Deus. Elas exprimem os caminhos dos seres humanos para Deus e de Deus para os seres humanos. O Cristianismo contribui de maneira excelente, anunciando um Deus Pai que manifesta seu infinito amor à humanidade, enviando o Filho e o Espírito Santo. Essa face amorosa de Deus Pai resgata a humanidade de seus medos profundos. Há ainda religiões povoadas de carrancas, de “deuses” terríveis, mediadas por sacerdotes não menos despóticos e opressores. A imagem final de Deus, transmitida por seu Filho Jesus, é de infinita ternura e compaixão. Por isso, Jesus bateu-se fortemente contra o mundo sacerdotal de seu tempo, que ainda estava preso a uma imagem rígida e dura de Deus. Numa palavra, o Cristianismo mostra a face extremamente libertadora de Deus e anuncia-nos a todos a Boa Nova de seu infinito amor salvador.

Ano 1998

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