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VII Entre a fé e a descrença

Publicado por Jblibanio em 30/10/2009 (236 leituras)
VII Entre a fé e a descrença
J. B. Libanio

Deus marca a existência de todos, quer pela presença, quer pela ausência. No mais profundo do coração do que crê dorme um ateu. Quem diria que Santa Terezinha de Lisieux, que entrou ainda adolescente no austero Carmelo depois de ter vivido numa família extremamente religiosa, pudesse ter escrito no seu diário: “Afligem-me as reflexões dos piores materialistas”! Sente-se angustiada por verdadeira crise de fé, dizendo-se estar na “pele dos pecadores” e pergunta-se se “o céu existe”.
Por sua vez, ateus convictos ouvem bimbalhar de sinos ou toques de anjos. Extasiam-se inexplicavelmente diante da grandeza do universo. Dilaceram-se diante da morte e clamam por uma presença para além dela. Para elucidar esse jogo paradoxal da fé e da não-crença, nada melhor que visitar o testemunho de ateus, convertidos e fiéis. Homens e mulheres resolveram abrir-nos, em momento privilegiado de confidência, a porta de seus corações e patentear-nos os mistérios de certezas e dúvidas, de verdade e ilusões, de bondade e frustrações.

1. A palavra aos ateus
Alfredo Kastler, prêmio nobel de Física (1966), exprime o drama do cientista que, de um lado, rejeita o acaso como explicação do universo, admitindo uma causalidade no processo evolutivo, sem, de outro lado, poder dizer nada sobre tal causalidade. É tão absurdo para ele a hipótese do acaso como a idéia de pensar algo ou alguém como finalidade da evolução. Não vê a menor analogia entre “este algo-alguém” e nós. Aproxima-se dos umbrais da existência de Deus, mas cala-se dizendo que não sabe. Prefere o silêncio à fé e também à negação de Deus.
Acrescenta: “Estou profundamente perturbado porque não posso aceitar a fé de minha infância. Em particular, a idéia, tão bela como falsa, segundo meu modo de ver, expressa por Cristo, de que Deus é Amor. De modo nenhum posso aceitar isso. Se admito que existe um universo, que um Deus onipotente e onisciente o governa, pois bem, Ele não é amor! A observação do mundo obriga-me a constatar que a vida de uns seres está baseada na morte de outros, de alto a baixo na escala”.
A. Kastler vê uma contradição entre a existência de um Deus Amor e a morte, a destruição, o sofrimento. A evolução da natureza baseia-se em que para a vida de uns haja a morte de outros. Um Deus Amor não poderia ter criado um mundo assim. O respeito pela vida, que é base da ética, não existe na natureza. É o homem que deve criá-lo. Algo perturbador para uma fé em Deus. Além disso, continua o cientista, olhando a história da humanidade, vê-se que a religião fez igualmente mal que bem. Tudo isso me leva a silenciar-me diante da existência de Deus.
Esse testemunho ateu, ou, pelo menos, agnóstico, interroga-nos. Obriga-nos a repensar a importância de apresentar o mistério da morte, do sofrimento do Filho de Deus na ótica da ressurreição e da vida. Insistir, portanto, no Deus da vida que se coloca ao lado do que sofre, dos deserdados de tudo para ser-lhes sinal de esperança e de vida. Porque Deus existe é que a morte e o sofrimento não dirão a última palavra sobre a criação, como aparece da observação do cientista.
Indo ao encontro de outro ateu, Jean Rostand, cientista famoso, membro da Academia Francesa, deparamos um tipo de ateísmo diferente. É alguém que se põe continuamente a pergunta da fé, para responder “não à fé, não a Deus”. Ele se confessa obsesso, se não por Deus, pelo menos pelo não-Deus. É um ateísmo nada sereno, nem jubiloso, nem contente, nem satisfeito, nem pacificado, mas em chaga viva.
Teilhard de Chardin diante da morte de um amigo escreve que não é possível que tudo termine no nada; assim não se poderia viver. J. Rostand concorda que é insuportável que tudo termine no nada. Mas é um fato. Não há prova para o horrível. Todos os animais devem morrer e desaparecer. Por que não o homem também? A fé na vida para além da morte é uma imaginação, uma criação do ser humano. O que se vê é a morte. Deus é uma hipótese de que não se tem necessidade e a qual nada abona.
Na aparência fria do ateísmo, muitas vezes esconde-se uma alma atormentada que, no fundo, gostaria de crer mas não consegue. Angustiado, J. Rostand diz que é um problema terrível, mas não vê como dar conteúdo a uma idéia de Deus. E quando entra a Revelação em questão, a dificuldade do cientista cresce.
Tal testemunho deve provocar em nós o feliz espanto de que a Revelação de Deus nos é um fato tão simples e imediato e para outros um empecilho insuperável. Foi-nos dado crer. Nascemos numa família, numa cultura em que a fé se transmite de geração em geração. Se, de um lado, ela é "tradicional", porque se prolonga pela força da tradição, do outro, vem questionada por todos esses testemunhos ateus.
O ser humano maravilhou-se diante do fato de que "existe o existe", "existe antes o ser que o nada", "existe antes a música que o ruído" e começou a filosofar. A filosofia nasce da maravilha diante de o ser existir e não nada existir. Assim também nós nos admiramos diante do fato de que antes cremos que não cremos. Que surpresa maravilhosa! A dor e angústia do ateu provoca em alguns jovens a tentação de abandonar a fé em vez de confirmá-los nessa graça. É a difícil aventura humana da existência!
Isabelle Meslin é um testemunho de uma mulher, mãe de família, engajada socialmente na organização de cantinas escolares em padrões dietéticos em vista dum melhor desenvolvimento das crianças. Manifesta em suas ações uma preocupação em servir os demais. Maravilha-nos que ela tenha os olhos abertos para o problema humano, sem recorrer a nenhuma fé para equacioná-lo e tantos que dizem crer se mostram fechados a tais problemas. É o famoso escândalo da caridade. Aqueles que acolhem os famintos, sedentos, estrangeiros, desnudos, enfermos, encarcerados, é ao próprio Cristo que o fazem, mesmo que não o saibam (Mt 25). É o evangelho do cristão anônimo, como Isabelle que diz não ter fé em Deus, mas simplesmente uma sensibilidade religiosa. Sentimento muito pós-moderno.
Ao confrontar-se com pessoas também elas comprometidas e animadas pela fé, Isabelle confessa que talvez se tivesse fé faria ainda mais. É impressionante como a fé ronda o coração de tantos ateus confessos. À luz de nossa fé, reconhecemos que é o próprio Espírito Santo agindo nessas pessoas.
Em nosso país, conhecemos essa maravilhosa figura que foi Betinho. Cristão militante na juventude, afastou-se totalmente do mundo da fé. Confessou-se ateu. E, ao mesmo tempo, viveu até o fim de sua vida fortemente comprometido com as causas sociais mais lindas do país. Comoveu a todos nós pela coragem, criatividade, luta incessante contra a fome. Repetia: “A fome é imoral”. Foi sinal expressivo de solidariedade, de compromisso com os deserdados da história em vista de construir um Brasil justo, solidário, fraterno onde todos pudessem viver dignamente.

2. Ouvindo os convertidos
Outras pessoas andavam pelos caminhos do ateísmo e, em dado momento, mudaram radicalmente sua maneira de entender e interpretar a vida. Converteram-se. Reconheceram-se crendo. Um dos nossos literatos, Paulo Setúbal, narra-nos sua conversão. Na juventude freqüentara com sofreguidão uma literatura em que não entrava Deus. Na idade madura, converte-se. O ponto crucial de sua volta para Deus foi selado com o gesto de queimar, a pedido de sua filhinha, os originais de um romance de 300 páginas. Escrevendo a um amigo, diz textualmente que “uma pequenina fogueira os devorou em brevíssimos instantes. O meu labor de todo um ano (labor bem duro e bem suado, confesso-o) reduziu-se assim a uma pouca de cinza que o lixeiro carregou...Aquelas páginas cruas tiveram o destino que convinha a páginas sem Deus. Estou contente”.
Paulo Setúbal associa à sua conversão os sentimentos de beleza, de felicidade, de alegria, de contentamento. Pássaros cantam dentro dele, os sinos repicam fora, a manhã faz festa na sua vida, sente-se iluminado. E mais surpreendente nesse testemunho de conversão é o traçado oposto do ateu A. Kastler. Este não podia acreditar num Deus criador dum universo em que rege a lei do sofrimento, da morte. Setúbal, por sua vez, após sua conversão, escreve: “A felicidade veio, com as suas leves azas de seda, tecer silenciosamente o seu ninho fofo sob o meu teto renovado, mas humilde. E aí vive...É uma felicidade estranha...Felicidade que é feliz na ventura, mas muito mais feliz na desventura. Felicidade que é feliz na alegria, mas muito mais na tristeza. Felicidade que é feliz nas horas de doçura, mas muito mais feliz, infinitamente mais feliz, nas horas de sofrimento. Porque o sofrimento, meu pobre irmão da cadeira de lona, o sofrimento é dádiva do céu”. Que diferença de percepção! A uns o sofrimento afasta de Deus, a outros aproxima-o.
Ernesto Psichari, neto do anticleral E. Renan, vai encontrar Deus no deserto. E dezoito meses depois de convertido, uma bala certeira, durante a Primeira Guerra Mundial, leva-o para a casa do Pai. A conversão o fez sentir “livre, mais ligeiro, mais ousado, mais jovem” na altura de seus trinta anos de idade. “Aos vinte anos”, escreve, “errava sem convicção nos jardins envenenados de vício, mas como doente, perseguido pelos obscuros remorsos, perturbado diante da maldade da mentira, carregado do terrível engano de uma vida mergulhada na desordem dos pensamentos e sentimentos”. Descobre que tem uma “alma feita à imagem de Deus, capaz de discernir o verdadeiro do falso, o bem do mal”, de não aceitar que a “Verdade e a Pureza” sejam palavras vãs, sem consistência.
Entediado, mas ignorando a causa do tédio, a vida leva-o ao deserto. Palavra mágica com que sonhara e pela qual vagou em devaneios. Fechada, atrás de si, a porta cálida do deserto, percebe despertarem-se em si suas forças melhores. Em dado momento, clama: “Ó vós todos que sofreis de mal desconhecido, fugi da mentira das cidades, ide para essas terras incultas que parecem apenas sair fumegantes das mãos do Criador, voltai a vossa fonte, e, acampando solidamente no seio dos elementos, procurai encontrar aí a Verdade imutável e tranqüila!” Literato, culto, experimenta, num primeiro momento, a Deus como Verdade presente na beleza do deserto. Para Setúbal, Deus é felicidade, mesmo no sofrimento. Para Psichari, Deus é Verdade na sua busca desesperada, alimentada pela parte nobre de sua alma.
Nos encantos maravilhosos de uma manhã de deserto, cercado por muçulmanos, ouve um deles que exclama:- “Deus é grande!” “Ó! como essa palavra me fez bem! Eu sabia enfim que minha alegria não era a criação de um turista em busca de sensações, nem a ilusão de um civilizado!”
E. Psichari, soldado, deitado no deserto, imagina o que passa lá no céu e ouve Deus falando: “Fui encontrado por aqueles que não me procuravam. Mostrei-me aos que não pensavam em mim. Sou eu, ó jovem soldado, que darei o primeiro passo. Essa humilde submissão, esse gosto de fidelidade me são suficientes. Não peço mais. Far-te-ei vir de longe e te amarei de meu amor eterno. Marcar-te-ei com o sinal de minha escolha. Não me é necessário mais - de fato, esse imperceptível movimento do coração me basta. Não sou eu o Pai, e quem pode medir a ternura do Pai? Um pai, quando escuta o balbucio de seu filho, ele se surpreende de sua inteligência, e a menor ação, ele a direciona ao louvor de seu filho. Eu sou esse Pai, e todas essas almas, que são honestas e pobres, que estão solitárias e miseráveis, eu sou seu Pai e elas são minhas preferidas”. Assim foi. Lá nas imensidões dos desertos africanos, Deus encontra o coração desse jovem francês, perdido, mas em busca. Numa página inteira de seu diário, à guisa de recapitulação de sua vida, escreve: “Deus: eis tudo!” Noutro momento, diz: “Sinto que darei a Deus tudo o que ele me pedir”.

3. Testemunhos de fé

Diante de Deus, os testemunhos não valem pela importância social de quem os dá, mas pela profundidade e beleza de sua fé. Desta sorte, ao longo de dois mil anos de Cristianismo, bilhões e bilhões de pessoas viveram no silêncio uma fé inquebrantável em Deus Pai. A beleza dessa coroa só nos será conhecida na luz transparente da Vida eterna. Até lá podemos respingar alguns exemplos.
Como é, em geral, no mundo dos cientistas, literatos, artistas, militantes, filósofos e acadêmicos, que se encontram os ateus, pesa mais, como contraponto, o testemunho de fé de pessoas desse universo cultural. Daí os exemplos citados.
A filosofia moderna conta, no seu quadro, os ateus mais virulentos: Feuerbach, Nietzsche, Marx, Sartre, etc. Aí alça sua voz de fé o filósofo Maurice Clavel. Ele comenta. O problema do ser e do bem está no coração da filosofia. Javé dizendo a Moisés no monte Horeb “Eu sou o que sou” e Jesus afirmando que “só Deus é bom” colocam a base de solução. Que é o ser? Que é o bem? Deus. Isso quer dizer que tudo o que os seres humanos chamaram de bondade, de bem, de valor, ao longo de todas as culturas e civilizações, mesmo refractado, difractado, desviado, desvirtuado: tudo vem de Deus. “Eu creio nesse Deus que falou nas sarças ardentes e que só ele Deus é bom, como disse Jesus”. Aí toda filosofia encontra sua regra. Aí está toda minha filosofia, prossegue M. Clavel.
Só Deus fala de Deus. Citando Santo Agostinho, resume seu caminho para Deus: “Deus nos procurou, para que O procurássemos”. Nada mais a dizer. É a experiência de sermos envolvidos primeiro por Deus, possibilitando-nos o acesso a Ele. Experiência de todo místico. Ensinamento fundamental da fé. “Deus nos amou primeiro” (1 Jo 4, 19).
Como filósofo, batalha contra a dogmatização de Deus, para fazer saltar as muralhas que impedem a tantos de aproximarem-se dEle. Entende que seus escritos não convertem ninguém, mas arrancam os obstáculos de acesso a Deus. O Senhor se encarrega do resto. Em caindo as defesas, as pessoas descobrem que já tinham fé e não sabiam. A verdadeira questão não está no conceito de Deus mas nas profundezas psicanalítico-existenciais das pessoas que não conseguem ou não querem enfrentá-las.
Já há quase 20 anos atrás, esse filósofo alertava para uma perda da consistência do Deus bíblico, do Deus de Jesus Cristo numa realidade divina difusa. Ironicamente falava então de um “hitlerismo de água doce”, de um neopaganismo, de um sentimentalismo místico confuso, de uma mistificação, de uma gnose, duma volta vaga do religioso. É o “espiritual” contra Deus! Para ele, tudo ísso é ainda pior que o ateísmo. Palavra forte que mostra a verdade crítica do que está acontecendo sob nossos olhos.
Françoise Dolto, psicanalista, médica, cuja fé religiosa resistiu à prova de sua profissão. Membro da Escola freudiana de Paris, reflete em profundidade sobre a relação entre nós e Deus. O gênio próprio da espécie humana é a palavra que exprime nossos desejos para além das nossas necessidades de sobrevivência. É necessário que exista, lá na origem, uma fonte de todas as palavras, um lugar de todos os desejos potenciais, isto é, Deus.
Concorda com Santa Teresa, ao dizer que nosso desejo é “sem remédio” ao encontro do Outro, que, mesmo não-nomeado nem nomeável, existe fora do desejo que temos dele. Nossa alma tem sede de Deus, como diz o salmista. Essa sede não é vã. Tem-se sede de Deus porque Ele existe. “A partir do momento em que ela é sentida, é justificada por quem dá sentido de vida a esse chamado”. Sede coexistencial ao viver. Nada consegue encher a vida. O que parece preenchê-la, entretém-na.
Em outro momento, ao falar dessa sede de Deus, entende-a orientada ao Sujeito todo inteiro na sua verdade. Os objetos não são senão parcelas do Sujeito. Em outras palavras, buscamos sempre a Deus e as outras realidades são presenças parciais de Deus. Aqui o pensamento de F. Dolto encontra-se com o de Santo Agostinho: “Inquieto está nosso coração até que descanse em Ti, ó Senhor!”
Referindo-se à oração, observa que todo nosso ser reza. Não é só a palavra. Em concreto, ao comentar o Pai Nosso, admira de estar tudo contido nele. Inclusive o “mas livrai-nos de todo mal”. Esse “mas” e não “e” é muito expressivo. “Não nos deixeis cair em tentação”, como boa psicanalista vê aí o “desejo”. E o mal seria “o desejo de não mais desejar”. Enquanto desejarmos Deus, estamos livres do mal. Cair no tédio, no cepticismo, na apatia diante de Deus é o mal.

Conclusão

A lista dos testemunhos é interminável. Escolhemos alguns entre infinitos. Cada um de nós poderá aduzir muitos outros nas três classes dos ateus, dos convertidos e dos fiéis. De todos eles, nós que cremos, podemos aprender e assim fortificar nossa fé. Em todos os casos, afirmando ou negando a Deus, dificilmente as pessoas conseguem estar indiferentes.
O testemunho de F. Dolto foi tanto mais importante quanto ela tocou na tecla fundamental do desejo. Temos uma sede infinita, insaciável. Como Deus não cai sob a nossa percepção imediata, mas somente fazendo-se presente nos mais diversos seres e sobretudo nas pessoas humanas, nosso desejo pode facilmente confundir uma determinada realidade com Ele. Bebe loucamente dela. Mas no final cresce-lhe a sede. Numa palavra, Deus está sempre presente e sempre ausente. Presente em tudo. Ausente quando se absolutiza uma criatura.

Ano 1998

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