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VI. DEUS NOS SANTOS PADRES

Publicado por Jblibanio em 30/10/2009 (211 leituras)
VI. DEUS NOS SANTOS PADRES
J. B. Libanio

A tradição bíblica traçou para a fé cristã o quadro fundamental para a compreensão de Deus. Esta é a revelação fundante, primordial. Tudo o que virá depois é um esforço de interpretação para cada momento da história desse dado original. Os Santos Padres foram os primeiros a fazer esforço hercúleo para explicitar a revelação de Deus para o pensamento grego dominante. Foi a primeira e mais bem sucedida inculturação da fé cristã.
Não imaginemos que tenha sido trabalho fácil, deslizando sobre trilhos retilíneos. Houve curvas perigosas. Momentos de tensão. Idas e vindas. Erros e acertos. Disputas ardentes. E, aos poucos, a figura de Deus foi ficando cada vez mais clara em oposição interna, intratrinitária ao Filho e ao Espírito Santo. Os Padres da Igreja foram gigantes especulativos e piedosos que uniram a fina e perspicaz reflexão teológica com a pregação, a oração.

1. Deus, fonte do movimento

Os Padres da Igreja recolheram da tradição bíblica e filosófica grega elementos para desenvolver sua idéia de Deus. “Ele é Deus porque dispõe de todas as coisas” (Téofilo). Tem a grande função de criador e regulador do mundo (S. Clemente). Olhando para as estrelas, fascinados pela beleza do céu, tocados também pela astrologia, só podem entender um Deus em movimento que administra, move, atua, alimenta, providencia, governa e dá vida a tudo. É um Deus “presente a todas coisas, que tudo sustenta, que tudo penetra” (S. Gregório Nazianzeno). Há uma idéia positiva do movimento. Por isso, S. Clemente, em dado momento, diz que “as estrelas são boas porque se movem”.,
Já no início, os Padres associam Deus com movimento. Tão diferente de um Deus racional que mais tarde criamos e aprisionamos no céu, deixando o mundo correr e no máximo fazendo intervenções esporádicas. Esse primeiro contato com o começo da reflexão teológica ajuda-nos a recuperar riquezas perdidas.

2. Deus é eternidade

A idéia do tempo atormentou a humanidade de todos os tempos. Lá no início, Taciano se perguntava pela relação entre Deus e o tempo. “Nosso Deus não se constituiu no tempo. Só Ele é sem começo; Ele mesmo constitui a fonte de todo o universo. Deus é espírito. Não se estende pela matéria, mas é o autor dos espíritos materiais e das figuras na matéria. É invisível e intangível”.
Atenágoras, com belas palavras, exprime essa plenitude de eternidade, de infinitude de Deus: “Um Deus, increado, eterno, invisível, impassível, inabarcável, incomensurável, compreendido somente pela mente e razão, vestido de luz e beleza, espírito e poder indescritível, por meio de quem todas as coisas vieram a existir”. Percebemos como os Padres vão tomando distância do Deus bíblico, inserido na história, para uma imagem sublime e transcendente de Deus. Riqueza mas também empobrecimento. Fulgores de reflexão mas perda de toques concretos.
Ninguém como Santo Agostinho aprofundou essa relação entre Deus e o tempo, Deus e a eternidade. Levanta a pergunta que terá ouvido de seus fiéis: “Que fazia Deus antes de criar o céu e a terra?” Num momento de gozação e de ironia, diz que não vai responder como alguém o fez: “preparando o inferno para aqueles que perscrutam esses profundos mistérios!” Levando a sério a pergunta, responde que ela não tem sentido. Antes do tempo, Deus não podia “fazer nada”, mas simplesmente existia. Como poderia fazer alguma coisa antes de toda criatura? “Se antes da criação do céu e da terra, não havia tempo, para que perguntar o que fazíeis então? Não podia haver então, onde não havia tempo. Não é no tempo que Vós precedeis o tempo, pois, de outro modo, não seríeis anterior a todos os tempos”. Continua a reflexão, concluindo com essas belíssimas palavras, em forma de oração: “Precedeis, porém, todo o passado, alteando-Vos sobre o tempo com a Vossa eternidade sempre presente. Dominais todo o futuro porque está ainda para vir. Quando ele chegar, já será pretérito. Vós, pelo contrário, permaneceis sempre o mesmo e os Vossos anos não morrem. Os Vossos anos não vão nem vêm...Os Vossos anos são como um só dia, e o Vosso dia não se repete de modo que possa chamar-se cotidiano, mas é um perpétuo hoje, porque este Vosso hoje não se afasta do amanhã, nem sucede ao ontem. O vosso hoje é a eternidade. Por isso gerastes coeterno Vosso Filho a quem dissestes: “Eu hoje te gerei’ (Sl 2,7l Hb 5,5)!” Numa palavra, Deus é eternidade. E eternidade só é Deus.
Essa maravilhosa ponderação de Santo Agostinho leva-nos a corrigir uma compreensão de eternidade. Freqüentemente dizemos que depois da morte iremos para a vida eterna como se entrássemos num “espaço” de eternidade e nos tornássemos, por conseguinte, eternos. Só Deus é eterno. O termo “eterno” não suporta conjugação de tempo. Não tem passado nem futuro. Quem teve passado, já não pode ser eterno, mesmo que já não tenha futuro. Seremos sempre temporais, mesmo depois da morte. A qualidade de nosso tempo vai modificar. Aqui temos a temporalidade medida pelo movimento dos astros. Depois da morte, será a temporalidade glorificada, presente sim à Eternidade de Deus. Numa palavra, ir para a vida eterna depois dessa vida significa que participaremos, de modo pleno, da eternidade de Deus, sem nunca nos tornarmos eternos. Pois, nunca seremos Deus.

3. A transcendência de Deus

O Povo de Israel experimentou a Transcendência de Deus na sua gesta de libertação, na fidelidade infrangível de Deus em acompanhá-lo em todas as vicissitudes. Os sinais externos da Transcendência foram relâmpagos, raios, nuvens de luz, nuvens de fumaça, tremores de terra, sons de trompa. A Transcendência no agir. Os Padres deslocam a reflexão para a natureza, o ser de Deus.
Numa homilia, S. Clemente de Alexandria diz: “Quem quiser adorar a Deus devia, antes de tudo, saber o que é peculiar e exclusivo da natureza de Deus, o que não pode pertencer a nenhum outro. Então, atendendo a sua peculiaridade e não a encontrando em nenhum outro, pode, dessa maneira, não ser seduzido a atribuir a divindade a outro. Isto é peculiar de Deus, que só Ele é quem faz tudo e, dessa sorte, portanto, é o melhor de tudo. Assim como, na verdade, o que faz é superior em poder ao que é feito; assim como o que não tem limite, é superior em grandeza ao que é limitado; assim também quanto à beleza, aquele que é o mais gracioso; quanto à felicidade, aquele que é mais abençoado; quanto à inteligência, aquele que é mais perfeito. Da mesma maneira nos outros aspectos, Ele possui incomparavelmente transcendência. Desde então, como disse, esta qualidade de ser o melhor de tudo é peculiar a Deus, e tudo o que existe no mundo foi feito por Ele, nenhuma das coisas feitas por Ele pode ser igualada a Ele”.
Evidentemente a compreensão da Transcendência pode levar a pensar um Deus distante do mundo e desinteressado dele. Não é esse o pensamento de muitos Padres da Igreja, embora tenham que enfrentar a dificuldade de relacionar Deus e mundo. E o problema surgiu por causa do mal. Problema, aliás, penoso até hoje. Sentiam-se presos no dilema. Se Deus é autor de todas as coisas, também o é do mal. Ou o mal reside na matéria, que tem uma realidade própria independente, livrando Deus da responsabilidade de sua existência. Dilema desastroso. No primeiro caso, Deus não seria moralmente perfeito. No segundo, não seria o ser supremo. Os Padres rejeitam fortemente a segunda idéia de que houvesse dois princípios eternos: Deus, fonte do bem, e a matéria, fonte do mal. Por isso, têm que enfrentar a relação entre Deus e matéria sem cair no panteísmo.
A resposta dos Padres é sumamente importante para nossos dias. A decisão de não aceitar uma matéria, como fonte do mal, obriga-nos a superar a desconfiança que reina até hoje a respeito dela. Tal desprezo pela matéria veste-se de capa ideológica. Não é raro ouvir-se que o trabalho “intelectual”, isto é, mais distante da matéria, vale mais, e assim é remunerado, do que o trabalho manual do operário, mais envolvido com a matéria.
Por sua vez, uma relação muito próxima de Deus com a matéria favorece a nova onda espiritualista, endossada pela Nova Era. Cai-se no panteísmo de maneira que a matéria se faz divina. Os Padres, de um lado, negam que Deus se estenda por todo o universo num sentido material ou quase material, como se ele fosse uma matéria sutil, uma energia. E isso atualmente se torna mais facilmente compreensível depois da equação de Einstein que nos ensina a convertibilidade de matéria e energia.
Nemésio agudamente explica que Deus penetra todas as coisas, mas as coisas não penetram a Deus. Dessa maneira, afasta-se do panteísmo, sem perder-se numa visão da matéria afastada de Deus. “Deus contém tudo, mas é o único não contido” (Ps.Atanásio). “Não é o mundo que contém uma ‘infusão de Deus’, como um corpo poroso contém a água, mas Deus cuja sustentação enquadra o mundo”. Portanto, não é uma relação entre continente e conteúdo, água e vaso, mas como Alguém cuja onipresença eterna penetra o universo, sustentando-o. Luz importante para enfrentarmos o panteísmo em voga.

4. A Providência de Deus

É verdade que os Padres da Igreja aprofundaram muito a natureza, o ser mesmo de Deus. No entanto, não deixaram de lado sua automanifestação, como aparece nos textos bíblicos. Posto interpretem num sentido espiritual, retêm as formas antropomórficas do Antigo Testamento. Falam da mão, voz, palavra, face de Deus. O termo face merece atenção especial já que ele retrata mais o caráter auto-revelador de Deus. O rosto simboliza a autoexpressão da pessoa, seu caráter.
S. Clemente diz que: “Para onde o rosto de Deus se volta, aí há paz e júbilo” (S. Clemente). “Ele afasta seu rosto, quando, em momentos de dificuldades, ele nos deixa entregues às tentações” (S. Basílio). A face de Deus exprime cuidado, benevolência (Teodoreto). Pelas obras, atividades e providência, Deus se deixa conhecer, já que não o fazemos pelos olhos. (Teófilo). Os Padres usavam, para traduzir o agir de Deus na história, a palavra “economia”. Hoje ela está confinada ao mundo da produção, distribuição de bens. No entanto, a teologia, nas pegadas dos Padres, tem falado de “economia da salvação”. No sentido etimológico, a palavra “economia” traduz primariamente o ato de administrar ou controlar um setor, seja religioso como civil. Serve também para a administração da propriedade. Fala-se também que o corpo “economiza”, controla as funções da vida animal. Usa-se também o termo “economia” para o controle do sistema penitencial que, durante uma época, foi extremamente rigoroso. Dessa maneira, o termo foi ampliando seu sentido. Aproxima-se do sentido de projeto, desígnio, plano. Deus ele mesmo, diz a epístola a Diogneto, “economizou (planejou) consigo e junto com seu Filho as coisas preparadas desde o início”.
Deus é o “ecônomo” infinito, previdente, amoroso que pensou um projeto de vida e salvação para a humanidade. É também um estrategista que escolhe os tempos e lugares para ir realizando seu projeto, sua “economia”. Aquela afirmação de que depois da sua morte, “Jesus desceu à mansão dos mortos”, pode significar simples e enfaticamente que ele morreu de veras. Mas tem também reminiscência de uma idéia antiga de que ele teria descido ao mundo dos mortos para lá administrar, “economizar” o assunto dos mortos (Orígenes) segundo o projeto de Deus.
Com o termo “economia”, os Padres nos traçaram uma imagem de um Deus extremamente preocupado com a humanidade em vista de cuja salvação existe seu plano, seu projeto, sua “economia”. É a palavra que hoje traduziríamos por “providência”. Pois ela cobre tanto os dons que Deus nos envia e de que nos supre providencialmente, quanto os acontecimentos que Ele planeja e ordena. Há um matiz de cuidado, de carinho em todo esse jogo de palavras.
O termo “economia” chegou a seu significado mais rico na Encarnação do Verbo e no envio do Espírito. Apareceu assim de maneira rotunda a “economia salvadora de Deus”. Dessa maneira, o Concílio Vaticano II começa a falar da Revelação. “Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade (cf. Ef 1,9), pelo qual os homens, por intermédio do Cristo, Verbo feito carne, e no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina (Dei Verbum, n. 2). O Concílio escolhe o belíssimo termo “mistério” para o que os Santos Padres chamavam de “economia”. Assim já somos introduzidos na Trindade, dentro da qual Deus é entendido pelos Padres.

5. Deus na Trindade

A corrente principal dos Padres, desde o início, afirmou com clareza que Jesus Cristo era verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Se essa formulação só encontrou a expressão canônica no Concílio de Calcedônia (a. 451), no entanto, era a fé dominante da Igreja havia séculos. O problema central não era afirmar que Jesus era Deus, mas coadunar tal asserção com a fé num único Deus verdadeiro, herdada do judaísmo e atestada nas Escrituras de ambos os testamentos. Portanto, tinha-se que evitar deslizar para um dideísmo ou triteísmo quando se firmou a mesma crença a respeito do Espírito Santo no quarto século.
As afirmações peremptórias de que Jesus Cristo era verdadeiramente Deus encontramos já em S. João e S. Paulo, sem falar de passagens redacionais dos sinóticos. Na patrística, Santo Inácio de Antioquia na virada do 1º século (+107) deixa-nos um testemunho ineludível. “O nosso Deus, Jesus o Cristo, foi concebido por Maria”, “pela vontade do Pai e de Jesus Cristo nosso Deus”. Escreve aos romanos: “Permiti-me ser um imitador da paixão de meu Deus”. “Crede ó homem”, acrescenta Clemente de Alexandria, “no Homem e no Deus; crede, ó homem, no Deus vivo que sofreu e é adorado”. As citações multiplicam-se ao infinito a respeito da divindade de Jesus Cristo já desde bem do início. Isso nos conforta porque nos situa numa longa fileira de testemunhas de fé. Nas horas de provação e crise, no meio dessa pós-modernidade que dilui a divindade de Jesus, vale recordar essa rica tradição dos Padres.
Mas a pergunta crucial é outra para eles. Como conciliar essa fé em Jesus Cristo Deus e no Espírito Santo Deus e no Senhor Deus de que fala a fé judaica, herdada também pelos cristãos? Dois fatos correram, de certa maneira, paralelos. A absoluta unicidade de Deus e a tríade divina. O gênio especulativo dos Padres da Igreja debruçou-se sobre essas duas afirmações da fé cristã, aparentemente contraditórias.
A primeira resposta encaminha-se na direção da plano salvífico. Assim Tertuliano diz: ”A Unidade não se destrói quando ela faz originar de si a Trindade que realiza o desígnio de salvação”. A Trindade realiza na história nossa salvação que não pode vir senão de uma última Unidade. Portanto, os Três Divinos, que atuam salvificamente, são uma Unidade. Em termos mais especulativos, a Unidade receberá o nome de “substância, natureza, essência”. Nesse nível há uma radical unidade. Para exprimir os Três divinos, a teologia patrística forjou a palavra Pessoa. Evidentemente não tem o mesmo sentido que as psicologia e filosofia modernas dão a esse termo. Os Três divinos, Pai, Filho e Espírito Santo são pessoas num modo único e original.

Conclusão

Foram os Santos Padres que consolidaram a teologia trinitária, esboçada no Novo Testamento. Procuraram entender a figura de Deus na relação com os outros dois Divinos, Jesus, o Filho e o Espírito Santo, sem romper a fé no único e verdadeiro Deus. Portanto, o termo Deus doravante vai ter dois sentidos diferentes. Isso é muito importante para nossa piedade.
Quando a Escritura e a Liturgia usam a palavra Deus, referem-se à pessoa de Deus Pai, de Javé: fé comum entre cristãos, judeus, muçulmanos. Quando nós freqüentemente usamos a palavra Deus sem explicitar a pessoa divina, referimo-nos à natureza divina, comum ao Pai, ao Filho e ao Espírito. Por isso, poderíamos ir lentamente diferenciando e purificando nossa linguagem. Todas as vezes que queremos referir-nos à pessoa divina de Deus, acrescentemos o seu mais belo nome: Pai. Essa deveria ser a maneira mais normal de falar. E quando falarmos de Cristo e do Espírito Santos conservemos seus próprios nomes, sabendo, naturalmente, que eles são Deus como o Pai, isto é, possuem a mesma natureza divina. Não são, porém, a pessoa de Deus (Pai).

Ano 1998

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