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V. DEUS, PAI DE JESUS

Publicado por Jblibanio em 30/10/2009 (212 leituras)
V. DEUS, PAI DE JESUS
J. B. Libanio

1. A imagem mais perfeita de Deus

O Novo Testamento oferece-nos a imagem mais perfeita de Deus. Se nossa aproximação de Deus começou com a figura do Antigo Testamento, ela necessita agora ser aperfeiçoada, ser levada a sua forma acabada. Se Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la a sua plenitude (Mt 5, 17), assim também não desacreditou a imagem de Deus, seu Pai, revelada nos Livros Sagrados de Israel, mas deu-lhe o toque final e definitivo.
Para nós, a verdadeira chave de leitura do Antigo Testamento é a revelação de Jesus. Sem desconhecer o contexto em que os livros foram escritos, sem descurar o sentido direto e primeiro para os judeus, o cristão amplia e atualiza esse sentido à luz de Jesus para sua vida hoje. Os Livros Sagrados diferenciam-se de qualquer outro livro porque são escritura e palavra. Enquanto escritura, consignam a experiência religiosa do povo de Israel ou da comunidade primitiva cristã. São passado. Têm interesse histórico enquanto a história é “mestra da vida” (Cícero). Como Palavra de Deus, eles nos interpelam hoje e agora em vista de nossa salvação. Deixam de ser mero escrito, para tornarem-se palavra viva na leitura da comunidade, deixam de ser passado para se fazerem presente.
Lendo, pois, a revelação de Jesus sobre Deus, encontramo-nos com o Deus vivo que nos interpela no nosso momento atual. Lá foi dada a revelação. Agora a sua experiência. Lá se disse como se anunciou a Deus. Agora como se faz vivo entre nós.

2. Reafirmação da unicidade de Deus

Jesus, ao ser interpelado sobre a sua fé básica, como filho de Israel, não titubeou em responder com o “shemá”: “O primeiro de todos os mandamentos é este: Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor, e amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, com toda a alma, com toda a mente e com todas as forças (Mc 12, 29-30)”. Desse dado fundamental, a fé cristã nunca se afastou (Jo 17,3; 1 Cor 8,4). Rejeitou desde o iniciou a heresia de Marcião que defendia um Deus do Novo Testamento totalmente diferente e até oposto ao do Antigo. Há tonalidades diferentes, mas se referem ao mesmo e único Deus, Javé, Pai de Jesus.
A fé do Novo Testamento reafirma a verdade de Deus criador e fundamento de todas as coisas (1 Cor 8,6; Ef 4,6). Paulo, no famoso discurso no areópago de Atenas, confronta, pela primeira vez, o anúncio cristão com o pensamento grego mais sofisticado. Parte da concepção bíblica de Deus criador do universo, da humanidade a partir de um só homem e de tudo o que existe. Não teme, porém, incluir nessa visão elementos da cultura grega, citando livremente o poeta Epimênides (séc. VI aC): “É nele que vivemos, nos movemos e existimos” e continua mencionando outro pensamento estóico: “Porque somos também de sua raça” (At 17, 16-34). Dessa maneira mostra a unicidade do Deus bíblico e de certa compreensão do pensamento grego.
Introduz, no entanto, a diferença quando anuncia que esse mesmo Deus ressuscitou a Jesus, apesar de não nomeá-lo explicitamente. A originalidade única e máxima, portanto, do Novo Testamento a respeito de Deus, é anunciá-lo manifestado na pessoa de Jesus. A epístola aos hebreus resume bem esse último, definitivo e mais importante traço de Javé: “Muitas vezes e de modos diversos, falou Deus outrora a nossos pais pelos profetas. Nos últimos dias nos falou pelo Filho, que constituiu herdeiro de tudo, por quem criou também o mundo” (He 1,1-2). Desta sorte, “o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó é, na verdade, o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm 15,6). Aparece como saudação e bênção no ínicio de epístolas: “Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo que dos céus nos abençoou com toda a bênção espiritual em Cristo” (Ef 1, 3).

3. Deus no desígnio salvífico realizado em Cristo pela força do Espírito

A novidade maior da revelação de Deus no Novo Testamento é sabê-lo envolvido num projeto histórico-salvífico universal, do qual ele é o princípio, a fonte primeira e última. Muito além de um Deus princípio e fim de todo criado, além também de um Deus que escolheu o povo hebreu com quem fez uma Aliança. É um Deus que envia o Filho e o Espírito Santo para realizarem e levarem ao cumprimento o seu desígnio de salvação para toda a humanidade.
A sua ação não se restringe ao âmbito da criação. Chama a toda a humanidade a uma comunhão de amor, de amizade, de intimidade consigo no Filho e pelo Espírito. A epístola aos Efésios inicia-se bendizendo a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo pelo seu maravilhoso desígnio salvífico em Cristo antes mesmo da criação do mundo. A imagem de Deus recebe seu relevo original na relação com Cristo e com o Espírito (Ef 1, 3-14). A ação de Javé desloca-se do espaço da criação para o da salvação. Claro que o Novo Testamento conhece um Deus atuando no mundo criado. Jesus fala da ação benevolente de Deus, que alimenta as aves do céu, que veste a erva dos campos, alertando o seu ouvinte para a atitude espiritual de não se preocupar com as coisas materiais (Mt 6, 25-34).
Não é a criação em si nem a história da humanidade como tal que carregam o sentido último para o Novo Testamento, mas a intervenção de Deus Pai enviando a seu Filho, Jesus Cristo. Na epístola a Tito, encontramos em poucos versículos a consciência da comunidade primitiva a respeito de Deus na sua relação com a obra de Jesus que nos retirou do mundo do pecado, da injustiça. Com efeito, diz a carta: “Nós outrora éramos insensatos, rebeldes, extraviados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo na maldade e na inveja, dignos de ódio e odiando uns aos outros. Mas um dia apareceu a bondade de Deus, nosso Salvador, e seu amor para com os homens. E não por causa das obras de justiça que tivéssemos praticado, mas unicamente em virtude de sua misericórdia, ele nos salvou mediante o batismo de regeneração e renovação do Espírito Santo, que abundantemente derramou sobre nós por Jesus Cristo, nosso Salvador, a fim de que a justificação de sua graça nos torne, segundo a esperança, herdeiros da vida eterna” (Tt 3, 3-7).
Moisés experimentou a Deus no meio aos relâmpagos, fulgores de raios e som fortíssimo de trompa (Êx 19,16). A glória de Deus se manifestava numa coluna de nuvem, numa coluna de fogo (Êx 13,21). No Novo Testamento, a glória de Deus esplende no rosto de Jesus. “Pois Deus, que disse: “das trevas brilhe a luz”, foi quem fez brilhar a luz em nossos corações para darmos a conhecer a ciência da glória de Deus na face de Jesus Cristo” (2 Cor 4,6). Na verdade, Jesus é em relação a Deus o “Esplendor de sua glória e imagem expressa de seu ser” que “sustenta todas as coisas pela palavra de seu poder” (Hb 1,3).

4. O Deus da misericórdia

Levando a imagem de Javé até a sua última perfeição, o Novo Testamento identifica a Deus com a misericórdia salvífica universal em Jesus e pela força do Espírito Santo. E essa consciência e convicção encontra na parábola de Jesus, dita do filho pródigo, o retrato mais expressivo e esplendoroso (Lc 15, 11-32).
Certamente é uma das páginas mais bonitas da história da religião de todos os povos. Todos a conhecemos muito bem. Começa como nossas estórias: “Era uma vez um homem que tinha dois filhos”. E lá se conta a aventura dos dois filhos, símbolos de dois tipos de comportamentos. Um é o filho bem comportado, exato no cumprimento de seus deveres, que sempre permanece ao lado do pai nos trabalhos. Outro é o filho caçula, afoito e estróina, sonhador e aventureiro, irresponsável e esbanjador, que lá se vai pelo mundo a fora a malversar a herança antecipadamente pedida. Todos sabemos o final da história. A casmurrice do irmão mais velho que não aceita participar da festa de acolhida do filho doidivanas. O surpreendente é a atitude do pai. Diante do filho perdido, a alegria de tê-lo encontrado com vida. Diante do filho ressentido, a explicação do sentido da festa. Todos sabemos que esse pai é o retrato de Javé, pintado por Jesus.
Em termos de pintura, Rembrandt imortalizou essa cena com sua genialidade. Um detalhe. O velho pai judeu, com um rosto de infinita ternura, descansa sobre os ombros do filho suas duas mãos. Uma de homem, outra de mulher. O pintor já intuíra que somente a soma dos amores do pai e da mãe pode, ainda que de longe, adumbrar-nos o ilimitado amor acolhedor de Deus. Aliás, no seu brevíssimo pontificado, João Paulo I legou-nos essa formulação tão bonita: Deus, Pai e Mãe. Assim está Deus, simbolizado na pintura de Rembrandt, com as duas mãos diferentes.
Se, em termos de palavra, a parábola do pai misericordioso - este deveria ser seu nome - tocou os píncaros da revelação da figura de Deus, a vida toda de Jesus, terminada na entrega radical na cruz, realizou tal figura. S. João formula de modo bem expressivo ao dizer que “Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”. (Jo 3,17). O sentido da vinda de Jesus é a nossa salvação, fruto do coração misericordioso do Pai.

5. Deus é amor (1 Jo 4,16).

João sublinha no evangelho o caráter de invisibilidade de Deus. “Ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1,18a). Não há nenhum acesso visível a Deus nessa terra. Ninguém pode arrogar-se o direito de dizer-nos quem é Deus a partir de sua visão. João insiste que somente o Filho Único, que também é Deus, está no seio do Pai e portanto pode no-lo revelar (Jo 1, 18b).
Noutro momento, João acrescenta que Deus é Espírito (Jo 4,24). Como bom semita, não está contrapondo espírito a matéria. Expressa-se em outro código. Espírito é visto como fonte de vida, de carismas, de dons. Desta sorte, faz remontar todos os dons a Deus Pai. Aqui encontramos um nexo muito belo entre João e Paulo. Mais: o próprio Espírito Santo, dispensador de todos os dons, procede do Pai.
Com efeito, Paulo, ao falar dos dons e carismas, termina dizendo que o maior dos dons e que valoriza todo outro dom é o amor. Compõe então o maravilhoso hino ao amor (1 Cor 13, 1-13) que conclui com esta frase: “O amor é o maior”.
Na carta de João, encontramos a última e mais profunda intelecção dessa afirmação paulina. O amor é o maior dos dons, porque Deus é amor. Ponto culminante da revelação do ser e do atuar de Deus.
O atuar externo de Deus na história é o único acesso que temos a seu ser. Vale aqui a frase antes citada de João. “Ninguém jamais viu a Deus” (Jo 1,18a). Dizer que Deus é amor significa afirmar que toda sua obra histórica é movida pelo amor e só inteligível à luz do amor. Fora do amor, não se entende nada de Deus. Todos os outros atributos de Deus perdem consistência se não forem expressões de amor. E amor é um gesto de bem. E o bem, diziam os antigos, “é difusivo de si mesmo”. Qualquer realidade que não seja feita de amor, orientada para o amor, explicável pelo amor, não pode ser de Deus. Em Deus não há vingança, não há ira, não há punição por uma honra desrespeitada, não há nem permissão omissa para que o mal se implante.
Para o Novo Testamento, a prova máxima desse amor foi a dádiva de seu Filho à humanidade. De mil formas, essa verdade é afirmada. “Deus prova o seu amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, quando éramos ainda pecadores”. Se Deus já nos amava antes de sermos justificados, imaginem, diz S. Paulo, “como muito mais agora, já reconciliados, seremos salvos por sua vida” (Rm 5, 8-10). Em outro lugar, ele diz: “Aquele que não poupou o próprio Filho mas o entregou por todos nós, como não nos dará também todas as coisas (Rom 8, 32)?
Por que a prova cabal de que Deus é Amor é a dádiva de seu Filho? Ninguém se identifica com um único gesto. E o termo “amor” não está posto para definir algum ato de Deus, mas sua própria natureza, seu próprio ser. Vamos examinar de perto o que significou para o ser de Deus Pai o ato de enviar-nos seu Filho.
Numa primeira consideração, a relação entre Deus e a humanidade poderia ter seguido vários caminhos. O ato criativo foi maravilhoso. O chamado a uma comunhão de amizade com Deus também. Mas, vimos e experimentamos pessoalmente que nossas respostas nem sempre correspondem a esse duplo dom da criação e da amizade. Freqüentemente rejeitamos não só o convite de amor por parte de Deus, mas também o dado de sermos criados. Fazemo-nos autocriadores de nós mesmos e senhores dos outros.
Essa dupla experiência deixa o resultado do jogo da história coletiva e pessoal incerto. Em dado momento, a primeira palavra de Deus criador e salvador foi contrariada por decisões humanas. Deus poderia perfeitamente ter-nos deixado entregues a essas nossas respostas rebeldes, como a tradição afirma a respeito dos anjos maus.
No entanto, aí está a maravilha de Deus que quis dizer, além da primeira palavra da criação e do primeiro chamado, numa misteriosa unidade, a última palavra. Esta não foi falada. Foi o próprio filho. E deu-lhe um nome que exprimisse a totalidade de sua realidade, de seu plano: Jesus - Javé salva. Ora, como além do Filho, não existe outra palavra, falar essa palavra à humanidade é revelar a natureza última e definitiva de seu desígnio: nossa salvação. Ser amor para a humanidade é ser-lhe salvação. Deus é pura salvação, portanto, puro amor.
Enquanto Deus falava as palavras dos profetas, por mais sérias e empenhativas que fossem, não eram últimas e definitivas. Ainda lá estava junto dEle o Verbo eterno. Mas no momento em que o Verbo, a Palavra unigênita, absoluta, perfeita, total de si mesmo é-nos dada na Encarnação, tudo nos foi dado. Dar tudo é amar. Deus é amor.
Tanto mais surpreendente que é um diálogo, de certa maneira, unilateral. Não enquanto não seja provocativo de nossa resposta. Mas enquanto Deus já decidiu pela atitude irrevogável de oferecer a todos seu Filho como salvação antes que pudéssemos responder e independente de nossa resposta. É a mais absoluta gratuidade. Mais: nossa resposta não é, como uma catequese deturpada tem vendido, da parte de Deus um desejo de ser glorificado por nós. Deus quer simplesmente nossa felicidade, nossa própria glória, nossa própria vida. A maior glória que lhe damos não é independente de nossa própria felicidade e bem.
Deus é amor. Estabelece conosco uma relação que escapa a todo comércio, a toda exigência de retribuição, a toda obrigação coercitiva e incondicional. Muitas vezes, a imagem de Deus, que se prega, aproxima-se mais de quem está continuamente a cobrar nossas respostas do que de quem se alegra com elas. Deus sendo amor, amar o amor é imensamente realizante. Somos nós que nos tornamos felizes amando a Deus, porque experimentamos o que seja amar aquele que nos ama apaixonadamente.
Um psicanalista escrevia: “o amor ama ser amado por aqueles a quem ama”. Tal experiência só acontece com absoluta certeza em relação a Deus. É o único de quem temos inequívoca garantia de que nos ama. Em amando-o, temos certeza de ser amados por ele. Platão já dizia que o “amor é o desejo de possuir sempre o que é bom”. Completando o pensamento, basta recordar a frase de Jesus: “” Ninguém é bom a não ser Deus”(Lc 18, 19).
Deus é amor. Essa é a nossa grande felicidade. Por isso, a pregação de Jesus chama-se “Evangelho”, “Boa Nova”. Existe melhor notícia do que saber que Aquele de quem viemos, por quem fomos criados, para quem somos radicalmente orientados é AMOR? Quando a figura de Deus chega em Jesus a sua última e mais perfeita expressão, o evangelho a sintetizou com a palavra “amor”. Escolheu um termo grego “agape” e não “eros” nem “philia”, que se usavam para exprimir o amor humano de carência e mesmo de alegria. “Agape” é o amor em grau mais elevado. É amor-dom, amor-gratuidade.

Conclusão

Uma vez que Deus se manifestou em sua maior clareza e esplendor na face de Jesus, toca-nos agora ao longo da história ir assimilando essa imagem e corrigindo nossas projeções. Um filósofo alemão dizia que Deus não passava de projeção de nossos desejos profundos. Em muitos casos, não estava totalmente errado. Nós, cristãos, poderemos corrigir essas falsas figuras de Deus, criadas por nossos desejos e medos, pela revelação de Deus Pai em Jesus e ir vivenciando-a em nossa vida pessoal e anunciando-a aos outros nossos irmãos. Conhecendo notícia tão maravilhosa de que Deus é Pai, de que Deus é amor, como nos calar? Vale aquilo de S. Paulo: “Porque evangelizar não é glória para mim, senão necessidade. Ai de mim se não evangelizar!” (1 Cor 9, 16).

Ano 1998

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