IX - DEUS E O MAL
Publicado por Jblibanio em 30/10/2009 (232 leituras)
IX - DEUS E O MAL
J. B. Libanio
1. O Mal: libelo contra Deus
O maior libelo contra Deus é a existência do mal. "Por que sofro? Esta é a rocha do ateísmo" (G. Büchner). A dura e terrível realidade concreta do mal foi brandida pela razão moderna, como argumento irrefutável da inexistência de Deus e sobretudo de um Deus Pai. Anunciou-se-lhe a morte. Mas não se soube o que fazer com o seu cadáver (F. Nietzsche). Sem Deus, o ser humano teve de carregar sozinho o peso de todos os males, sem outro sentido que o próprio mal.
O mal afeta-nos a todos. Ninguém escapa dessa realidade sob as suas mais diversas formas, desde o mal físico até aquele que nos atinge o mais recôndito do coração. "A experiência do mal está ligada à existência humana como a sombra à luz" (L. B. Geiger).
O mal ultrapassa as dimensões do problema. É um mistério (G. Marcel) irracional, escandaloso, inexplicável, injustificável. Às vezes, assume formas de "círculos infernais" de pobreza, violência, alienação racista e cultural, destruição da natureza pela poluição de vários tipos e, por fim, do círculo do absurdo à medida que, aparentemente, estamos fazendo do mundo um inferno (J. Moltmann).
O médico Rieux do romance de A. Camus, La Peste, diante da morte de criança inocente, rejeita a resposta do jesuíta Paneloux que lhe sugeria "amar o que não podemos compreender". "Não, Padre", disse ele, "o que penso do amor é bem diferente. E me recusarei até a morte a amar essa criação em que as crianças são torturadas".
2. O mal desafio às ciências humanas
O mal desafia as ciências humanas. Estas tentam encontrar as estruturas que o condicionam, que o consubstanciam, que o favorecem, que o geram na sua visibilidade social. Vão mais longe. Intentam decifrar-lhe o enigma, o mistério. Diante de muitos crimes horrendos, a psiquiatria procura explicar os mecanismos psicóticos que levaram o assassino a perpetrar tão hedionda ação. A criminologia de rasgo biológico vasculha o organismo humano atrás de algum traço genético responsável pela atividade criminosa ou por alguma deformação educativa. Assim muitas ciências detêm-se nos sintomas do mal e nas causas imediatas, cabíveis dentro de seu horizonte de saber. Mas nenhuma delas consegue explicar o sentido do mal. Passam o facho à filosofia e à religião. Estas já vêm desde as mais antigas eras rascunhando suas respostas.
3. O dilema de Epicuro
Já lá na longínqua Antigüidade, o filósofo grego Epicuro (+270aC) formulou com argúcia e rudeza a aporia teológica do mal. Diante do mal existente, ou Deus quer eliminá-lo e não pode. Então não é onipotente. Ou Ele pode, mas não o quer, então não é bom. Ou não pode nem quer, aí não é nem onipotente nem bom. Se pode e quer, então de onde vem o mal?
4. Os dois Princípios últimos do Bem e do Mal
Uma primeira resposta vai na direção de não negar nem a onipotência, nem a bondade de Deus. O ser humano defronta-se inelutavelmente com uma dupla experiência antagônica, expressa de várias maneiras. De um lado, estão a vida, o prazer, a felicidade, o bem, o gozo, a satisfação, o gosto, a realização, a plenitude, a fruição, o desfrute, o proveito, o usufruto - poderíamos ampliar a sinonímia. De outro lado, situam-se a morte, a dor, o sofrimento, o mal, a insatisfação, a frustração, o desgosto, o fracasso, a perda, a falta, a carência, etc.
Diante dessas experiências do mal, que acompanham o ser humano a cada momento de sua vida e diante da impossibilidade de remetê-las a um Principio do bem, por causa de sua radical contraditoriedade, o espírito humano pensou a solução mais simples de atribui-las a um princípio último do mal, que viveria ao lado do Princípio do bem. É o dualismo maniqueu. Na sua sutileza ele penetrou também mentes modernas, tecnocratas. Tal visão atua até hoje sob todas aquelas formas em que, em dado momento, uma pessoa, um grupo, um partido, uma proposta política se consideram toda a verdade, todo o bem e o adversário encarna, por sua vez, o mal. O próprio neoliberalismo não esconde traços remanescentes desse dualismo, ao arrogar-se ser o fim da história, do último homem moderno (F. Fukuyama) e ao demonizar os últimos resquícios da tradição socialista.
5. O mal não existe
No lado oposto, situa-se outra solução extrema: o monismo religioso ou filosófico. O mal não existe na sua realidade objetiva. É mera aparência. Tal posição lança suas raízes no genial pensador neoplatônico Plotino [204/205-270 dC] e expressa-se mais tarde e mais estruturadamente na doutrina monista panteísta de Espinosa [1632-1677], sem falar de correntes do pensamento hindu.
Hoje volta à baila na vertente espiritualista da "Nova Era". O mal não passa de deficiências de meu estado anímico que, uma vez controlado pelas inúmeras terapias à disposição, entra em estado alfa, se imerge nos fluidos positivos, bebe da energia primordial, espiritual envolvente. O mal resulta do estado de consciência, que não controlou positivamente suas energias e potencialidades, da ignorância do nosso potencial espiritual e da nossa incapacidade de expansão da consciência. Pois, ela consegue ultrapassar a pequenez de nosso eu e alcançar comunhão profunda com todo o cosmos, quando o mal então é totalmente superado.
6. Crítica a essas posições extremas
O maniqueísmo é uma solução fácil e simplista. Devemos desconfiar de respostas demasiado singelas em problemas sérios. Pode haver uma preguiça mental de procurar aprofundar a verdadeira natureza de Deus. Corre-se o risco de ir logo imaginando dois “deuses”, um do bem e outro do mal. Se pomos um minuto a pensar, vemos a enorme incoerência e a abissal impossibilidade da existência de dois infinitos.
Considerar a inexistência do mal é de tal ilusão que contradiz à dura experiência humana. Nenhuma atitude anímica consegue anulá-lo. Poderá no máximo diminuir seu impacto sobre nós. No entanto, não é nenhuma solução que responda ao mínimo de exigência intelectual.
7. Atitudes existenciais diante do mal inevitável
Aceita-se o mal como fato inelutável, sem explicação. Absurdo mesmo. Que fazer? Minimizemos seus efeitos sobre nós, já que não sabemos encontrar nenhuma inteligibilidade para ele. Não prolonguemos sua natureza de absurdo até Deus, questionando-o. Deixemos Deus ser Deus. Enfrentemos o mal como uma coisa nossa, sem recorrer em nada a Deus. Renunciemos, portanto, a uma resposta realmente teológica a partir da fé ou da religião.
Nessa linha, situam-se o hinduísmo, o budismo, de um lado, e, de outro, o estoicismo. Os primeiros resolvem o mal e o sofrimento, ao considerá-lo causado pelos nossos desejos. Desta sorte, esvaziando o desejo, elimina-se a raiz do sofrimento, do mal. A felicidade final, o nirvana, se obterá no momento em que a individualidade, fonte dos desejos e do sofrimento, se perder dentro duma consciência universal.
Os gregos estóicos viam na "apatia" a vitória sobre o sofrimento, sobre o mal. Resistiam aos impulsos cegos até à insensibilidade através do domínio da razão sobre o mundo exterior, sobre os afetos numa aspiração profunda à liberdade interior do homem "sábio" nas pegadas de Sócrates. Não se perguntaram pela "racionalidade" do mal, seu sentido, mas buscaram anulá-lo pela prática.
8. Em busca de uma resposta cristã
Os males são para nosso bem no Desígnio de Deus
Já dentro da fé cristã têm-se apresentado muitas respostas. Recorre-se à providência divina que permite os males por um bem maior que bastas vezes desconhecemos. Tornou-se até provérbio: "há males que vêm para bem". Cita-se a esse propósito a afirmação de São Paulo: "tudo concorre para o bem dos que amam a Deus" (Rom 8,28). Invoca-se a virtude da esperança uma vez que "não há noite tão longa que não termine na aurora" (Ch. Peguy). Além do mais, elencam-se razões que desdemonizam o mal: ele pode ser ocasião para a prática do bem, tentação que forja as vontades heróicas e santas como aparece no caso prototípico de Abraão disposto a matar seu próprio filho, o mal de um terremoto como em Kobe pode transformar-se em escola de humanidade e solidariedade, os horrores perversos dos campos de concentração nazistas permitiram surgir a esplendorosa e corajosa inocência de Anne Frank, Edith Stein, etc. Mas, às vezes, de maneira cínica, vê-se no mal da pobreza o bem da caridade assistencialista, nos vícios privados benefícios públicos, nas doenças fortuna para a indústria farmacêutica, na luta violenta pela vida a seleção purificadora do mais forte, etc.
A imagem de Deus, que se desprende dessa visão, não condiz com a experiência de Jesus de um Deus Pai. Nenhum pai sensato escalona males em vista de um bem maior para seu filho. Pensar males para bem soaria como se o fim justificasse os meios. Nada disso convém ao nosso Deus. Este caminho de apontar traços de bem advindos do mal, usado por uma apologética prática, tem amainado as inquietações de muitos corações. Mas deixa de lado a questão teológica mais profunda: Quem é esse Deus?
O mal na criação natural: condição do ser finito
A origem última do mal é o fato de as coisas serem finitas, criadas e, portanto, de não serem Deus. Deus não poderia criar um mundo absolutamente perfeito, infinito, porque seria criar a si mesmo. E isso seria um absurdo total. O problema radica, muitas vezes, na nossa linguagem que é muito imperfeita para tratar de certos assuntos. Fazemos perguntas mal elaboradas que condicionam a resposta. Assim, p. ex., se alguém perguntar se Deus pode fazer um círculo quadrado, tem de responder que não. Então, conclui-se que Deus não pode tudo. A pergunta está mal colocada, por isso a resposta necessariamente será ambígua.
Com efeito, há um aspecto de verdade e outro de engano. Deus não pode fazer tudo, porque ele não é onipotente: isso estaria errado. Deus não pode fazer tudo, porque um círculo quadrado é uma contradição. No fundo, é nada. E evidentemente Deus não pode fazer o nada. Seria uma total falta de lógica.
Assim Deus não pode fazer uma criatura infinita. Porque ela não seria criatura, seria o próprio Deus. Ao criar, Deus só pode fazer seres imperfeitos. Por isso, as duas afirmações não se contradizem. Deus visa sempre ao nosso bem. Mas Ele não consegue em tudo realizá-lo pelas condições mesmas de as coisas serem criadas.
Vai um exemplo bem simples. Existe a lei da gravidade. Que maravilha! Sem ela não poderíamos estar bem assentados, conversando, trabalhando. Imaginem todos nós flutuando imponderavelmente pelo espaço. Que coisa horrorosa! Essa lei existe para o nosso bem. No entanto, se alguém se aventura a sair pela janela do 10º andar de um edifício, estatela-se lá em baixo, espatifando-se. A mesma lei feita para a vida e o bem humano, causa a morte de tantos. Essa é a condição da criação.
Por isso, olhando o mal físico, Teilhard escrevia que a finitude na natureza é a raiz deste mal. Pensa-o numa perspectiva evolutiva como "mal de crescimento", "mal de desordem e fracasso". Vale desse mal físico, a afirmação apodíctica de J. Monod: "O preço da vida é a morte". O "bem da vida" com o surgir da primeira molécula viva implica necessariamente o mal da morte. É a própria condição de vida que pede a morte, para que a vida possa continuar existindo.
Basta lembrar aquela historieta dos habitantes de uma ilha que pediram aos deuses a imortalidade. Tendo-lhes sido concedida, entregaram-se, num primeiro momento, às maiores alegrias. Mas, pouco a pouco, a imortalidade tornou-lhes a vida insuportável: todos queriam ir para tal ilha e já não havia lugar. Depois de séculos de vida, não se aguentava mais ouvir as mesmas piadas, os mesmos discursos, os mesmos sermões, conviver com os mesmos esposos/as, etc. Terminam pedindo de novo a morte. Simone Beauvoir, no seu romance "Todos os homens são mortais", mostra o terrível mal da morte como condição de possibilidade do maior bem humano, o amor. E o personagem do romance, Conde Fosca, que tomara um elixir de imortalidade, vive o drama de não poder amar.
E Deus aí? Se nós humanos, frágeis, pecadores, de coração mesquinho, sofremos com os males dos outros e com os nossos, que então pensar de Deus? Ele está ao nosso lado muito mais perto que qualquer outra pessoa. O mínimo que se pode dizer que sofre impotente diante dos males que se abatem sobre os humanos. Ele que criara tudo para nosso bem, vê agora os dinamismos de vida se voltarem contra ela. E isso não é nenhuma consideração romântica. Pois o nosso Deus é o Pai de Jesus. E Jesus experimentou o sofrimento até o extremo da morte na cruz. Sofrimento físico horrível. Sofrimento psíquico devastador. Sofrimento espiritual inimaginável. As sete palavras da cruz levantam um pouco o véu do drama angustiante de Jesus. E o Pai nesse momento? Bem ao lado do Filho na impotência de aceitar que as leis da física, voltadas para a vida, giraram 180 graus contra o próprio Filho, atormentando-o até a morte. E o mal moral da liberdade? Outra reflexão.
O mal moral: fruto da liberdade humana
E o mal moral? Também ele revela a finitude da liberdade humana que na sua imperfeição pratica o mal. "O mal tem sentido como mal precisamente porque é obra da liberdade" (P. Ricoeur). Numa palavra: a necessidade real do mal se explica pelo ser do espírito finito, como seu fundamento de possibilidade (K. Hemmerle).
Aqui se cala o pensamento humano filosófico. As religiões tentam ir mais longe. Muitas respostas, mesmo dadas por cristãos, ao longo da história, não convencem. Fazer o mal moral descender do pecado original, simplesmente desloca para o início o problema. E por que então esse pecado inicial?
De novo, encontramos a Deus criador. Ousou criar um ser humano livre. Nesse momento, não pode impedir que essa liberdade possa voltar-se inclusive contra ele. Liberdade determinada por Deus seria um círculo quadrado. Isto é: nada. Liberdade só é liberdade sem determinação sobretudo do Criador. Deus é o único Pai que não afoga a autonomia de seus filhos. Que não comercia seu amor. Que não impõe sua vontade. Que não obriga a nenhuma resposta. Cria a liberdade humana na sua própria autonomia. Alegra-se quando ela encontra a felicidade. Sofre quando ela se envereda pelos caminhos do mal.
Conclusão
Nessa aventura da liberdade humana, Deus Pai enviou-nos seu Filho para ensinar-nos por meio de seu testemunho, de sua prática, de seu agir, de sua mensagem, de sua força pessoal que a liberdade só se realiza no amor e nunca no mal. O mal moral é a negação escolhida, contraditória da própria liberdade humana. O amor é sua plenitude. “Ama e faze o que queres”, interpreta Agostinho aquilo que Paulo escreveu: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor com que deveis amar-vos uns aos outros. Porque quem ama o próximo, cumpriu a Lei” (Rom 13, 8). Parafraseando, quem ama, realizou a liberdade. Quem pratica o mal, tem a liberdade de destruir, na sua última raiz, a própria liberdade feita para o bem, para a relação de amor com os irmãos, com a natureza, consigo e nesses amores com o próprio Deus Pai.
J. B. Libanio
1. O Mal: libelo contra Deus
O maior libelo contra Deus é a existência do mal. "Por que sofro? Esta é a rocha do ateísmo" (G. Büchner). A dura e terrível realidade concreta do mal foi brandida pela razão moderna, como argumento irrefutável da inexistência de Deus e sobretudo de um Deus Pai. Anunciou-se-lhe a morte. Mas não se soube o que fazer com o seu cadáver (F. Nietzsche). Sem Deus, o ser humano teve de carregar sozinho o peso de todos os males, sem outro sentido que o próprio mal.
O mal afeta-nos a todos. Ninguém escapa dessa realidade sob as suas mais diversas formas, desde o mal físico até aquele que nos atinge o mais recôndito do coração. "A experiência do mal está ligada à existência humana como a sombra à luz" (L. B. Geiger).
O mal ultrapassa as dimensões do problema. É um mistério (G. Marcel) irracional, escandaloso, inexplicável, injustificável. Às vezes, assume formas de "círculos infernais" de pobreza, violência, alienação racista e cultural, destruição da natureza pela poluição de vários tipos e, por fim, do círculo do absurdo à medida que, aparentemente, estamos fazendo do mundo um inferno (J. Moltmann).
O médico Rieux do romance de A. Camus, La Peste, diante da morte de criança inocente, rejeita a resposta do jesuíta Paneloux que lhe sugeria "amar o que não podemos compreender". "Não, Padre", disse ele, "o que penso do amor é bem diferente. E me recusarei até a morte a amar essa criação em que as crianças são torturadas".
2. O mal desafio às ciências humanas
O mal desafia as ciências humanas. Estas tentam encontrar as estruturas que o condicionam, que o consubstanciam, que o favorecem, que o geram na sua visibilidade social. Vão mais longe. Intentam decifrar-lhe o enigma, o mistério. Diante de muitos crimes horrendos, a psiquiatria procura explicar os mecanismos psicóticos que levaram o assassino a perpetrar tão hedionda ação. A criminologia de rasgo biológico vasculha o organismo humano atrás de algum traço genético responsável pela atividade criminosa ou por alguma deformação educativa. Assim muitas ciências detêm-se nos sintomas do mal e nas causas imediatas, cabíveis dentro de seu horizonte de saber. Mas nenhuma delas consegue explicar o sentido do mal. Passam o facho à filosofia e à religião. Estas já vêm desde as mais antigas eras rascunhando suas respostas.
3. O dilema de Epicuro
Já lá na longínqua Antigüidade, o filósofo grego Epicuro (+270aC) formulou com argúcia e rudeza a aporia teológica do mal. Diante do mal existente, ou Deus quer eliminá-lo e não pode. Então não é onipotente. Ou Ele pode, mas não o quer, então não é bom. Ou não pode nem quer, aí não é nem onipotente nem bom. Se pode e quer, então de onde vem o mal?
4. Os dois Princípios últimos do Bem e do Mal
Uma primeira resposta vai na direção de não negar nem a onipotência, nem a bondade de Deus. O ser humano defronta-se inelutavelmente com uma dupla experiência antagônica, expressa de várias maneiras. De um lado, estão a vida, o prazer, a felicidade, o bem, o gozo, a satisfação, o gosto, a realização, a plenitude, a fruição, o desfrute, o proveito, o usufruto - poderíamos ampliar a sinonímia. De outro lado, situam-se a morte, a dor, o sofrimento, o mal, a insatisfação, a frustração, o desgosto, o fracasso, a perda, a falta, a carência, etc.
Diante dessas experiências do mal, que acompanham o ser humano a cada momento de sua vida e diante da impossibilidade de remetê-las a um Principio do bem, por causa de sua radical contraditoriedade, o espírito humano pensou a solução mais simples de atribui-las a um princípio último do mal, que viveria ao lado do Princípio do bem. É o dualismo maniqueu. Na sua sutileza ele penetrou também mentes modernas, tecnocratas. Tal visão atua até hoje sob todas aquelas formas em que, em dado momento, uma pessoa, um grupo, um partido, uma proposta política se consideram toda a verdade, todo o bem e o adversário encarna, por sua vez, o mal. O próprio neoliberalismo não esconde traços remanescentes desse dualismo, ao arrogar-se ser o fim da história, do último homem moderno (F. Fukuyama) e ao demonizar os últimos resquícios da tradição socialista.
5. O mal não existe
No lado oposto, situa-se outra solução extrema: o monismo religioso ou filosófico. O mal não existe na sua realidade objetiva. É mera aparência. Tal posição lança suas raízes no genial pensador neoplatônico Plotino [204/205-270 dC] e expressa-se mais tarde e mais estruturadamente na doutrina monista panteísta de Espinosa [1632-1677], sem falar de correntes do pensamento hindu.
Hoje volta à baila na vertente espiritualista da "Nova Era". O mal não passa de deficiências de meu estado anímico que, uma vez controlado pelas inúmeras terapias à disposição, entra em estado alfa, se imerge nos fluidos positivos, bebe da energia primordial, espiritual envolvente. O mal resulta do estado de consciência, que não controlou positivamente suas energias e potencialidades, da ignorância do nosso potencial espiritual e da nossa incapacidade de expansão da consciência. Pois, ela consegue ultrapassar a pequenez de nosso eu e alcançar comunhão profunda com todo o cosmos, quando o mal então é totalmente superado.
6. Crítica a essas posições extremas
O maniqueísmo é uma solução fácil e simplista. Devemos desconfiar de respostas demasiado singelas em problemas sérios. Pode haver uma preguiça mental de procurar aprofundar a verdadeira natureza de Deus. Corre-se o risco de ir logo imaginando dois “deuses”, um do bem e outro do mal. Se pomos um minuto a pensar, vemos a enorme incoerência e a abissal impossibilidade da existência de dois infinitos.
Considerar a inexistência do mal é de tal ilusão que contradiz à dura experiência humana. Nenhuma atitude anímica consegue anulá-lo. Poderá no máximo diminuir seu impacto sobre nós. No entanto, não é nenhuma solução que responda ao mínimo de exigência intelectual.
7. Atitudes existenciais diante do mal inevitável
Aceita-se o mal como fato inelutável, sem explicação. Absurdo mesmo. Que fazer? Minimizemos seus efeitos sobre nós, já que não sabemos encontrar nenhuma inteligibilidade para ele. Não prolonguemos sua natureza de absurdo até Deus, questionando-o. Deixemos Deus ser Deus. Enfrentemos o mal como uma coisa nossa, sem recorrer em nada a Deus. Renunciemos, portanto, a uma resposta realmente teológica a partir da fé ou da religião.
Nessa linha, situam-se o hinduísmo, o budismo, de um lado, e, de outro, o estoicismo. Os primeiros resolvem o mal e o sofrimento, ao considerá-lo causado pelos nossos desejos. Desta sorte, esvaziando o desejo, elimina-se a raiz do sofrimento, do mal. A felicidade final, o nirvana, se obterá no momento em que a individualidade, fonte dos desejos e do sofrimento, se perder dentro duma consciência universal.
Os gregos estóicos viam na "apatia" a vitória sobre o sofrimento, sobre o mal. Resistiam aos impulsos cegos até à insensibilidade através do domínio da razão sobre o mundo exterior, sobre os afetos numa aspiração profunda à liberdade interior do homem "sábio" nas pegadas de Sócrates. Não se perguntaram pela "racionalidade" do mal, seu sentido, mas buscaram anulá-lo pela prática.
8. Em busca de uma resposta cristã
Os males são para nosso bem no Desígnio de Deus
Já dentro da fé cristã têm-se apresentado muitas respostas. Recorre-se à providência divina que permite os males por um bem maior que bastas vezes desconhecemos. Tornou-se até provérbio: "há males que vêm para bem". Cita-se a esse propósito a afirmação de São Paulo: "tudo concorre para o bem dos que amam a Deus" (Rom 8,28). Invoca-se a virtude da esperança uma vez que "não há noite tão longa que não termine na aurora" (Ch. Peguy). Além do mais, elencam-se razões que desdemonizam o mal: ele pode ser ocasião para a prática do bem, tentação que forja as vontades heróicas e santas como aparece no caso prototípico de Abraão disposto a matar seu próprio filho, o mal de um terremoto como em Kobe pode transformar-se em escola de humanidade e solidariedade, os horrores perversos dos campos de concentração nazistas permitiram surgir a esplendorosa e corajosa inocência de Anne Frank, Edith Stein, etc. Mas, às vezes, de maneira cínica, vê-se no mal da pobreza o bem da caridade assistencialista, nos vícios privados benefícios públicos, nas doenças fortuna para a indústria farmacêutica, na luta violenta pela vida a seleção purificadora do mais forte, etc.
A imagem de Deus, que se desprende dessa visão, não condiz com a experiência de Jesus de um Deus Pai. Nenhum pai sensato escalona males em vista de um bem maior para seu filho. Pensar males para bem soaria como se o fim justificasse os meios. Nada disso convém ao nosso Deus. Este caminho de apontar traços de bem advindos do mal, usado por uma apologética prática, tem amainado as inquietações de muitos corações. Mas deixa de lado a questão teológica mais profunda: Quem é esse Deus?
O mal na criação natural: condição do ser finito
A origem última do mal é o fato de as coisas serem finitas, criadas e, portanto, de não serem Deus. Deus não poderia criar um mundo absolutamente perfeito, infinito, porque seria criar a si mesmo. E isso seria um absurdo total. O problema radica, muitas vezes, na nossa linguagem que é muito imperfeita para tratar de certos assuntos. Fazemos perguntas mal elaboradas que condicionam a resposta. Assim, p. ex., se alguém perguntar se Deus pode fazer um círculo quadrado, tem de responder que não. Então, conclui-se que Deus não pode tudo. A pergunta está mal colocada, por isso a resposta necessariamente será ambígua.
Com efeito, há um aspecto de verdade e outro de engano. Deus não pode fazer tudo, porque ele não é onipotente: isso estaria errado. Deus não pode fazer tudo, porque um círculo quadrado é uma contradição. No fundo, é nada. E evidentemente Deus não pode fazer o nada. Seria uma total falta de lógica.
Assim Deus não pode fazer uma criatura infinita. Porque ela não seria criatura, seria o próprio Deus. Ao criar, Deus só pode fazer seres imperfeitos. Por isso, as duas afirmações não se contradizem. Deus visa sempre ao nosso bem. Mas Ele não consegue em tudo realizá-lo pelas condições mesmas de as coisas serem criadas.
Vai um exemplo bem simples. Existe a lei da gravidade. Que maravilha! Sem ela não poderíamos estar bem assentados, conversando, trabalhando. Imaginem todos nós flutuando imponderavelmente pelo espaço. Que coisa horrorosa! Essa lei existe para o nosso bem. No entanto, se alguém se aventura a sair pela janela do 10º andar de um edifício, estatela-se lá em baixo, espatifando-se. A mesma lei feita para a vida e o bem humano, causa a morte de tantos. Essa é a condição da criação.
Por isso, olhando o mal físico, Teilhard escrevia que a finitude na natureza é a raiz deste mal. Pensa-o numa perspectiva evolutiva como "mal de crescimento", "mal de desordem e fracasso". Vale desse mal físico, a afirmação apodíctica de J. Monod: "O preço da vida é a morte". O "bem da vida" com o surgir da primeira molécula viva implica necessariamente o mal da morte. É a própria condição de vida que pede a morte, para que a vida possa continuar existindo.
Basta lembrar aquela historieta dos habitantes de uma ilha que pediram aos deuses a imortalidade. Tendo-lhes sido concedida, entregaram-se, num primeiro momento, às maiores alegrias. Mas, pouco a pouco, a imortalidade tornou-lhes a vida insuportável: todos queriam ir para tal ilha e já não havia lugar. Depois de séculos de vida, não se aguentava mais ouvir as mesmas piadas, os mesmos discursos, os mesmos sermões, conviver com os mesmos esposos/as, etc. Terminam pedindo de novo a morte. Simone Beauvoir, no seu romance "Todos os homens são mortais", mostra o terrível mal da morte como condição de possibilidade do maior bem humano, o amor. E o personagem do romance, Conde Fosca, que tomara um elixir de imortalidade, vive o drama de não poder amar.
E Deus aí? Se nós humanos, frágeis, pecadores, de coração mesquinho, sofremos com os males dos outros e com os nossos, que então pensar de Deus? Ele está ao nosso lado muito mais perto que qualquer outra pessoa. O mínimo que se pode dizer que sofre impotente diante dos males que se abatem sobre os humanos. Ele que criara tudo para nosso bem, vê agora os dinamismos de vida se voltarem contra ela. E isso não é nenhuma consideração romântica. Pois o nosso Deus é o Pai de Jesus. E Jesus experimentou o sofrimento até o extremo da morte na cruz. Sofrimento físico horrível. Sofrimento psíquico devastador. Sofrimento espiritual inimaginável. As sete palavras da cruz levantam um pouco o véu do drama angustiante de Jesus. E o Pai nesse momento? Bem ao lado do Filho na impotência de aceitar que as leis da física, voltadas para a vida, giraram 180 graus contra o próprio Filho, atormentando-o até a morte. E o mal moral da liberdade? Outra reflexão.
O mal moral: fruto da liberdade humana
E o mal moral? Também ele revela a finitude da liberdade humana que na sua imperfeição pratica o mal. "O mal tem sentido como mal precisamente porque é obra da liberdade" (P. Ricoeur). Numa palavra: a necessidade real do mal se explica pelo ser do espírito finito, como seu fundamento de possibilidade (K. Hemmerle).
Aqui se cala o pensamento humano filosófico. As religiões tentam ir mais longe. Muitas respostas, mesmo dadas por cristãos, ao longo da história, não convencem. Fazer o mal moral descender do pecado original, simplesmente desloca para o início o problema. E por que então esse pecado inicial?
De novo, encontramos a Deus criador. Ousou criar um ser humano livre. Nesse momento, não pode impedir que essa liberdade possa voltar-se inclusive contra ele. Liberdade determinada por Deus seria um círculo quadrado. Isto é: nada. Liberdade só é liberdade sem determinação sobretudo do Criador. Deus é o único Pai que não afoga a autonomia de seus filhos. Que não comercia seu amor. Que não impõe sua vontade. Que não obriga a nenhuma resposta. Cria a liberdade humana na sua própria autonomia. Alegra-se quando ela encontra a felicidade. Sofre quando ela se envereda pelos caminhos do mal.
Conclusão
Nessa aventura da liberdade humana, Deus Pai enviou-nos seu Filho para ensinar-nos por meio de seu testemunho, de sua prática, de seu agir, de sua mensagem, de sua força pessoal que a liberdade só se realiza no amor e nunca no mal. O mal moral é a negação escolhida, contraditória da própria liberdade humana. O amor é sua plenitude. “Ama e faze o que queres”, interpreta Agostinho aquilo que Paulo escreveu: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, a não ser o amor com que deveis amar-vos uns aos outros. Porque quem ama o próximo, cumpriu a Lei” (Rom 13, 8). Parafraseando, quem ama, realizou a liberdade. Quem pratica o mal, tem a liberdade de destruir, na sua última raiz, a própria liberdade feita para o bem, para a relação de amor com os irmãos, com a natureza, consigo e nesses amores com o próprio Deus Pai.
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