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IV. O DEUS DO ANTIGO TESTAMENTO

Publicado por Jblibanio em 30/10/2009 (2162 leituras)
IV. O DEUS DO ANTIGO TESTAMENTO

1. unicidade do Deus bíblico

O judeu piedoso repetia freqüentemente o ato de fé, o célebre “shemá”, que Jesus também rezava: “Escuta, Israel! O Senhor, nosso Deus, é o Senhor que é UM. Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todo o teu ser, com todas as tuas forças” (Dt 6, 4).
Sim: o Deus do Antigo e o do Novo Testamento é um e o mesmo Deus. Verdade que pertence ao fundamento de nossa fé. Lá nos primórdios do Cristianismo, surgiu um herege chamado Marcião, que se escandalizou com a enorme diferença da imagem de Deus do Antigo Testamento e a apresentada por Jesus. Lá ele via um Deus demiurgo, criador do mundo visível. Suas intervenções na história pareciam contraditórias com paixões violentas de ciúme, despotismo, crueldade, capricho. Tão diferente do Deus revelado por Jesus. Deus de amor. Concluiu, portanto, que o Deus do Antigo Testamento não é o mesmo do Novo. Diverso e até mesmo oposto. Um nada tinha a ver com o outro.
À primeira vista, tal posição parece uma dessas esquisitices que surgem, de tempos em tempos, na história. Tem, porém, a vantagem de levantar um sério problema. Com efeito, se tomamos a Escritura ao pé da letra, como uma revelação-ditado de Deus, realmente ficamos perplexos diante da diferença de muitos traços de Deus do Antigo Testamento comparados com a imagem que Jesus nos ofereceu de Deus seu Pai.
O fato da afirmação unânime e constante da fé cristã de reconhecer em Javé o Pai de Jesus não resolve as dificuldades que Marcião percebeu,. Ele teve o mérito de expressá-las de maneira contundente, exigindo uma resposta esclarecida por parte da fé.

2. Deus se revela na história

No fundo, subjaz a tal questão uma concepção de revelação de Deus. Sem esclarecê-la, não temos condição de entender a unicidade de Deus. Uma comparação muito simples pode talvez ajudar-nos a compreender melhor o problema. Imaginemos que não conhecemos pessoalmente a determinado indivíduo. Encontramo-nos diante de uma série de fotografias que tiraram dele. Elas foram feitas com máquinas fotográficas e recursos técnicos bem diversos, desde os mais primitivos até os mais sofisticados. O resultado foi que algumas fotos nos oferecem traços bem confusos da pessoa a ponto de apenas percebermos sua figura e outras são de enorme nitidez. Os escritos bíblicos são fotografias de Deus feitas em momentos culturais muito diferentes por pessoas e povos vivendo experiências extremamente diversas. Daí elas variarem muito. Desta sorte, o povo judeu, numa situação de guerra contra inimigos poderosos, fotografou um Deus guerreiro para animar as pessoas nos combates. Em momento de lutas internas religiosas, os hagiógrafos desenharam um Deus exigente no cumprimento de leis para evitar a desordem social. Em Oséias, Deus carrega ternamente em seus braços a Efraim, como a uma criancinha de colo.
Várias perguntas. De onde vem a diferença: de Deus ou das condições humanas, limitadas, diversas dos escritores sagrados? Como interpretar essas imagens: como traços independentes ou como um processo histórico de modo que a figura mais perfeita corrige as imperfeições das anteriores?
Partindo do fato de que a revelação é histórica, progressiva e que chegou em Jesus Cristo a seu ponto mais elevado, devemos interpretar as imagens de Deus a partir da mais perfeita oferecida por Jesus. Nesse caso, não nos escandaliza que o povo judeu tenha pintado um Deus despótico e cruel. Sabemos que é reflexo de sua situação política. Portanto, tal retrato deve ser corrigido e aperfeiçoado por outros que o próprio Antigo Testamento oferece. Em última análise, porém, sabemos que a figura de Deus encontrará sua expressão mais perfeita na revelação de Jesus. “ Ninguém jamais viu a Deus. O Filho único de Deus, que está junto ao Pai, foi quem no-lo deu a conhecer” (Jo 1, 18). Por isso, é muito perigoso tomar citações isoladas da Escritura e dardejá-las sobre as pessoas como se esta fosse a idéia definitiva e eterna de Deus e não reflexo de uma experiência histórica de um povo.

3. Deus da experiência

O encontro com o Deus do Antigo Testamento pode-nos ser benéfico precisamente pela maneira como o Povo de Israel o vivenciou. Por muitas razões históricas, criamos uma catequese sobre Deus que inverteu o processo bíblico. Partíamos de uma definição de Deus, elaborada de maneira teórica e abstrata, e depois procurávamos vivê-la. Como os termos da definição permaneciam fechados à compreensão das pessoas, eles simplesmente povoaram a memória dos catequizandos sem nenhuma incidência sobre sua vida pessoal. Em seu lugar, giravam concepções populares de Deus com diferentes tonalidades.
Uma primeira abordagem do Deus do Antigo Testamento nos revela a maneira como o povo se foi criando uma compreensão dEle. Não veio através de ensinamentos formulados, mas a partir da experiência.
Deus é um e único. Mas não no sentido filosófico do monoteísmo nem como critério para excluir, como falsas, as religiões que cultuassem muitos deuses. Israel não iniciou por esse caminho sua longa viagem teológica. Antes mesmo de Moisés, um Faraó do Egito tentou impor uma revolução monoteísta em seu país. Fracassou pela oposição dos sacerdotes e do povo.
Israel, porém, vai viver o monoteísmo, não dessa maneira, pela imposição teórica de um personagem, nem por uma revelação do próprio Deus em forma de verdade dogmática a ser aceita. Foi processo lento de vida e de história. Os patriarcas ainda foram adoradores de muitos deuses. As tradições, porém, que circularam, mais tarde, no meio das tribos, já viam neles homens que experimentaram a um Deus de maneira mais expressiva. Abraão se tornará, por isso, símbolo de homem de fé em Deus. A vocação de Abraão torna-se programática para todas as vocações, ao seguir o apelo do Senhor: “Sai de tua terra, de tua parentela, da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. Farei de ti um grande povo e te abençoarei, engrandecendo teu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Com teu nome serão abençoadas todas as famílias da terra”. A esse Deus, que vai fazendo alianças com seus descendentes, ele ergue um altar (Gên 12, 1-3.7).
Moisés, a partir da experiência da escravidão e libertação do Egito, vinculou a fé a Javé, ao lado do qual não admitiu outros deuses. Para traduzir essa ligação profunda com um único Deus, o povo o experimentou como “ciumento” e qualquer infidelidade era vista como adultério. A imagem matrimonial expressava bem a originalidade e o alcance da vivência do povo em relação a Javé. Não era Javé que era ciumento, mas o povo que o experimentava como seu Deus próprio, único e guia através da longa caminhada para Canaã. Identificaram-no com o deus supremo dos cananeus El. Lá encontraram também outros deuses e depois vão defrontar-se com os deuses fenícios, assírios, babilônios. Todos eles serão rejeitados por fidelidade a Javé.
A confissão de fé do povo em Javé, como Deus, encontra expressão dramática no fato narrado no livro dos Reis. O profeta Elias questiona o povo na sua ambigüidade na vivência da fé e formula-lhe o dilema: “ Se o Senhor é o verdadeiro Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a ele!” Depois arma o altar cheio de vítimas e desafia os profetas de Baal a que invoquem seus deuses e ele invocará a Javé. As orações dos profetas de Baal permanecem inatendidas enquanto à oração de Elias a Javé baixa o fogo do céu e devora as vítimas do sacrifício. Diante dessa maravilha, o povo exclama: “O Senhor é Deus, o Senhor é que é Deus!” (1 Rs 18, 39). A cena da degola de todos os profetas por parte de Elias, a qual se segue a esse ato de confissão, revela o caráter patético do processo de fé do povo.
Desta sorte, por meio de longo caminho e a partir de sua experiência histórica, Israel professou o monoteísmo, primeiro de maneira prática, para depois formulá-lo doutrinalmente. Nos tardios livros do Deutero-Isaías, o povo confessa que o mesmo Javé, que o salvou e livrou da escravidão do Egito, o Deus da Aliança, é também o Deus criador de todas as coisas. “Um Deus eterno é o Senhor , o criador dos confins da terra” (Is 40, 28).Termina-se assim esse longo processo numa confissão ampla de fé.

4. Deus da vida

Ao lado da unicidade, a relação com a vida define em profundidade o Deus do Antigo Testamento. É um Deus da vida. É uma característica que atravessa todo o Antigo Testamento. Nas primeiras páginas do Gênesis, Javé aparece como Senhor da vida. Pela palavra, cria todas as coisas (Gên 1, 1-31) e mais diretamente em relação ao ser humano, insufla-lhe o sopro da vida (Gên 2, 7).
Na ordem da experiência, os hebreus reconhecem a Javé como Deus da vida por obra e graça da libertação da escravidão e da morte no Egito. Aí há duas cenas paradigmáticas da experiência de vida.
Javé livra todos os primogênitos hebreus da espada do Anjo exterminador. Ele é um Deus de vida para os hebreus e de morte para os egípcios. A outra cena é toda a epopéia do êxodo. Ela é uma contínua luta contra a morte por causa do ataque dos egípcios, da fome, da sede, das serpentes e de todas as agruras de uma longa travessia pelo deserto. Em todos os momentos críticos, Javé aparece como o Deus que lhes defende e conserva a vida. Para Israel, a vida traduziu-se na experiência da libertação e da conquista da terra. Foi Javé que libertou o povo e que lhe deu a terra em que corre leite e mel.
O povo de Israel sedentariza-se. No início, as estruturas da sociedade organizam-se ainda de uma maneira mais justa. A diferença entre ricos e pobres não era tão grande. As autoridades eram do próprio povo, permaneciam próximas. O inimigo estava fora. Javé se manifesta como o Deus da vida, despertando homens dotados para defenderem o povo. São os juízes. Lendária ficou a figura de Sansão.
Com o correr do tempo, mesmo na época dos juízes e mais fortemente depois na monarquia, a injustiça social começa a crescer. A brecha entre pobres e ricos aumenta. Israelita oprime e escraviza israelita. Com a decadência da monarquia, a prática da injustiça foi crescendo. Javé, mais uma vez, aparece como o defensor da vida. Agora na forma do pobre, da viúva, do órfão. Os profetas se fazem o porta-voz da luta pela vida dos desprotegidos.
Assim, p. ex., no reinado de Jeroboão II, imperava a injustiça. Os ricos levavam uma vida de luxo e opulência. Para tanto, carregava-se o povo com impostos, oprimiam-se os pastores e lavradores. Surgiu então o profeta Amós. Com expressões fortes, ele descreve a situação de injustiça. “Vende-se o justo por prata e o pobre por um par de sandálias. Esmaga-se sobre o pó da terra a cabeça dos fracos e torna-se torto o caminho dos humildes” (Am 2, 6-7). Sobre essa situação de injustiça pesa o juízo de Deus. As ameaças são terríveis. A visão do profeta é espantosa: “Vi o Senhor que estava de pé sobre o altar e ele disse: “Bate no capitel para que tremam os umbrais!” E segue-se uma série de malefícios: cortar a cabeça de todos sem exceção, não retirar nenhum do xeol, prender os que se esconderam em qualquer altura ou profundidade que seja, passando-os em seguida ao fio da espada (Am 9 1-4). Mas no final, abre-se uma réstea de esperança e de vida. Javé promete levantar a tenda de Davi que está caindo, reparar-lhe as brechas, levantar-lhe as ruínas e reconstrui-la como nos dias antigos” (Am 9, 11). Assim é o oráculo, a Palavra de vida de Javé.
Javé é Deus de vida para o povo conduzido ao exílio da Babilônia. Quando tudo eram trevas, tudo eram sofrimentos, tudo era morte, a Palavra de Javé soa como luz e futuro. Temos os cânticos utópicos e esperançosos mais lindos da Escritura. É o livro da consolação. Inicia-se com a belíssima exclamação: “Confortai, confortai meu povo!” Terminou o tempo da provação, foi saldado o débito da culpa. E então uma voz clama: “Abri no deserto um caminho para o Senhor, nivelai na estepe uma estrada para nosso Deus! Todo vale seja entulhado e todo monte e colina sejam abaixados. O espinhaço se torne planície e as escarpas se transformem em amplo vale! Então a glória do Senhor se manifestará, e todos os homens juntos a verão” (Is 40, 1-5). É o mesmo texto que o Novo Testamento aplica a João Batista, precursor do Senhor.
Numa imagem vigorosa, o profeta Ezequiel descreve a libertação do povo do exílio da Babilônia como uma dantesca cena de ressurreição das ossadas. Assim diz o Senhor Deus às ossadas: “Vou infundir-vos, eu mesmo, um espírito para que revivais. Dar-vos-ei nervos, farei crescer carne e estenderei por cima a pele. Incutirei um espírito para que revivais. Então sabereis que eu sou o Senhor ”. As ossadas são todas as casas de Israel. Então se assiste à cena do levantar-se dos ossos como um exército numeroso (Ez 37, 1-14).
E finalmente, Javé é Deus da vida eterna, retirando os mortos do xeol, ressuscitando-os. Este é o ponto alto da revelação veterotestamentária. A fé na ressurreição dos mortos deriva diretamente da compreensão de que Javé é um Deus dos vivos e não dos mortos. Deus triunfa sobre o último inimigo, a morte. O profeta Daniel anuncia um tempo de angústia, escatológico, final. Então “muitos dos que dormem na terra poeirenta, despertarão; uns para a vida eterna, outros para vergonha, para abominação eterna. Então os sábios brilharão como o firmamento resplandecente, e os que tiverem conduzido a muitos para a justiça brilharão como estrelas para sempre”(Dn 12, 2-3).

Conclusão

Único e verdadeiro Deus. Deus da vida. Na experiência de sua unicidade e na defesa da vida, Javé aparece freqüentemente um Deus vigoroso, punitivo que castiga as infidelidades do povo, que se ira e se impacienta por causa da dureza de sua cerviz (Êx 32, 9; 33, 3.5) até as raias da cólera, do desejo de exterminá-lo. Mas não se pode concluir a imagem de Deus no Antigo Testamento sem falar de sua infinita ternura.
A severidade, o poder implacável são a fotografia de um Deus no momento inicial da caminhada. Pouco a pouco, Israel vai descobrindo o lado infinitamente terno de Deus. É verdade que não é a imagem dominante do Antigo Testamento. São traços mais raros, por isso mesmo mais expressivos. O gênio religioso de Israel afastou no início qualquer traço que pudesse mostrar um Deus fraco e manipulável pelas criaturas, tolhendo-lhe a infinita liberdade e decisão. Certos gestos de ternura, compaixão, comoção poderiam tisnar essa imagem. Somente depois de ela estar bem assentada, sem perigo de toldá-la, os outros traços vão emergindo até expressões de imensa ternura.
No Êxodo, lê-se com surpresa que “o Senhor falava frente a frente com Moisés, como alguém que fala com seu amigo” (Êx 33, 11). Se se compara com cenas anteriores, em que Ele aparecia no meio de trovões e relâmpagos, esse breve toque revela muito de um retrato de Deus que lentamente se vai construindo. Há uma cena estranha em que o próprio Jave passou diante de Moisés e exclamou: “O Senhor, o Senhor, Deus misericordioso e benevolente, lento para a cólera, cheio de fidelidade e lealdade” (Ex 34,6). Nos profetas essa imagem atinge seu ponto alto. No Segundo Isaías, Deus anima Jerusalém, revelando em relação a ela seu amor esponsal: “Teu esposo é quem te fez: Senhor Todo- poderoso é seu nome!” (Is 54, 5). O Senhor se delicia, se alegra de Israel, como o jovem esposo de sua donzela, o noivo de sua noiva (Is 62,5).
Em Oséias, Javé deixa uma carta de amor a Israel. Amou-o desde quando era um menino, chamou-o de filho, permaneceu amando-o nos seus desvios, tomou-o nos braços e colou-o a seu rosto de tanto carinho, ligou-se com laços de amor, sentiu o coração palpitar-lhe e as entranhas comoverem-se. Apesar de todas as infidelidades de Israel, permanece amando-o. Termina dando a razão decisiva: Porque eu sou Deus e não homem” (Os 11, 1-9). Já está pintado o rosto de Javé, Deus Pai, que chegará ao excesso de amor enviando o seu Filho Jesus!

Ano 1998

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