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COMUNIDADE ECLESIAL DE BASE

Publicado por Jblibanio em 28/10/2009 (1713 leituras)
COMUNIDADE ECLESIAL DE BASE

Pe. J.B.Libanio, SJ
Belo Horizonte, MG

Através da experiência e da observação constata-se que as Comunidades Eclesiais de Base se formam de diferentes modos. Não há um modelo único de gestação. Mas a CEB supõe sempre reza e mutirão; evangelho e realidade social; fé e luta do povo.

"Aquilo que não sabemos (podemos teorizar, devemos narrar". Ainda parece cedo poder teorizar sobre as CEBs (comunidades eclesiais de base). Por isso, esse trabalho ainda permanece muito mais no nível da narração, com os primeiros esforços de teorização.

As CEBs são experiência eclesial muito complexa e diversificada. Existem nos países da América Latina com características próprias, mas mesmo assim bem diversificadas. Florecem em outros países do 3º mundo. Nos paíises ricos, fala-se também de comunidade de base.

A nossa reflexão situa-se no contexto latino-americano, mas com atenção especial às do Brasil, não para privilegiá-las, mas porque são as que conheço de alguma maneira. Mesmo assim, procurarei situá-las num contexto mais amplo sócio-cultural e eclesial, para além de nossas fronteiras.

Toda reflexão tende a universalizar-se. As CEBs têm características tão diversificadas que nos fica o alerta do filósofo: "de individuo non fit scientia". Um simples narrar cada vida de cada comunidade nos dificultaria o trabalho. Universalizar, teorizar atropelar a verdade. Vivemos esse difícil dilema.

Para entender um fenômeno, tal como o das CEBs, devemos sempre perceber-lhe as causas históricas, estruturais e conjunturais. Levamos em consideração tal observação metodológica. Evidentemente cada comunidade de base tem história própria, pequena e sua. Mas aqui só podemos indicar elementos comuns de uma história maior, que abraça nossos países. A análise conjuntural será fundamentalmente do Brasil, a ser confrontada com a de outros, onde também surgiram CEBs.

No interior das CEBs surgem novos problemas teológicos e pastorais. Os problemas teológicos dizem respeito sobretudo às questões eclesiológicas, com amplas repercussões em outros setores da dogmática. Os problemas pastorais se relacionam à questão da articulação entre fé e política, entre CEBs e as instâncias populares de luta. Procuremos aludir a tais questões de modo incoativo, já que por si só mereceriam todo um estudo especial, aliás já iniciado por vários de nossos teólogos.

I. CONTEXTO SÓCIO-ECLESIAL DAS CEBs

1- Momento do nascimento

As CEBs são como uma planta que necessita do húmus da terra para nascer. Esse terreno preparado foi a dupla abertura política e eclesial, que em providencial articulação popular de organizar-se em nível político e eclesial.

a. Abertura política

Vários fatores propiciaram tal abertura política. A derrota do nazismo e fascismo na Europa permitiu que as forças democrático-liberais de nosso país derrubassem a ditadura getulista e implantassem um regime liberal burguês que durou o período de 1945 a 1964. Nesse período houve uma rápida modernização do capitalismo com uma substancial presença das corporações transnacinais. A democracia liberal burguesa foi assumindo cada vez mais a feição do populismo, permitindo assim um crescimento da consciência popular, uma politização maior dos sindicatos rurais e urbanos, uma crescente mobilização popular. Papel de relevância exerceram nesse processo a pedagogia de Paulo Freire e iniciativas sociais da Igreja.

Tal processo de conscientização e politização com conseqüente mobilização popular pode desenvolver-se com aparente rapidez e força por causa da crescente disponibilidade de massas pupulares geradas pelo processo de urbanização rápido. Conseqüência, por sua vez, do avanço da industrialização em íntima conexão com o êxodo rural.

Enquanto tal processo estava em andamento no mundo popular, as classes letradas também se agitavam. Crescia a oposição intelectual e estudantil ao sistema capitalista implantado e em expansão com a transnacionalização crescente do capital. Dois cientistas sociais da CEPAL, atuando no Chile, - F.H.Cardoso e E. Falleto - desenvolvem a teoria da dependência e da libertação em oposição crítica à até então dominante teoria do desenvolvimento.

Surgiram além disso por todo o Continente latino-americano focos, movimentos revolucionários armados, tais como ERP, Tupamaros, MIR, com a intenção explícita de derrocar o sistema capitalista e implantar o socialismo marxista. Figuras como Che Guevara, P. Camilo Torres, sobretudo depois de suas mortes (1966), tornam-se mitos de um processo revolucionário em curso. O exemplo de Cuba exercia sua atração e mostrava a possibilidade real de uma transformação radical na A. Latina.

O socialismo era portanto objeto de debates teóricos pelos intelectuais e estudantes, e meta concreta a ser alcançada a curto prazo por meio de movimentos revolucionários.

Esse clima geral de mobilização popular e de movimentos revolucionários permita esperar que o trabalho da organização pupular com o apoio e cobertura teórica dos intelectuais teria futuro na A. Latina e merecia o empenho das forças vivas. Assim, grande contingente de pessoas idealistas entregam-se ardentemente ao trabalho popular e revolucionário nesse período de abertura política.

Pouco a pouco, as forças conservadoras, apoiadas sobretudo pela política e financiamentos americanos, começam a organizar-se e planejar a contra-reação e os sucessivos golpes militares. Mas até 1964 predominava esse clima de abertura, ainda que com nuvens negras no horizonte, ameaçando continuamente com próximo fechamento.

b. Abertura da Igreja católica

Coincidentemente com a abertura política, desenvolvia-se no interior da Igreja Católica um amplo movimento de liberdade, de novas experiências, de tentativas de renovação e "aggiornamento".

Tema muito estudado pelos teólogos. Indicarei brevemente as causas de tal abertura, em nível mundial e em nível continental.

Em nível universal, o fator pricipal foi o clima criado pelo Concílio Vaticano II. Já mesmo com a simples convocação por João XXIII, criou-se um clima geral de abertura, de autocrítica no interior da Igreja. Assim os movimentos que trabalhavam já há tempo o interior da Igreja começavam a ganhar ampla legitimidade, tais como o movimento bíblico, litúrgico, missionário, leigo, teológico, além de acelerado desenvolvimento da doutrina social numa linha mais crítica à sociedade capialista. Numa palavra, o Concílio Vaticano II criou uma dupla abertura na Igreja Católica: em relação às outras igrejas e religiões e ideologias (ecumenismo no sentido amplo) e em relação à problemática do mundo moderno - econômica, política, social, ideológica.

No embalo de tal abertura universal, a Igreja Católica na A. Latina dá enorme passo avante. Convoca a Assembléia de bispos latino-americanos em Medellín - 1968 - e assume um compromisso exprsso com o mundo dos pobres e dá sólido apoio às primeiras experiências de comunidade de base. Para a conjuntura especificamente brasileira, podem ver meu pequeno trabalho: Experiences with the Base Ecclesial Communities in Brasil, in: Missiology: An international Review 8(1980, 3) 319-338.

2- Momento de crescimento

O crescimento rápido das CEBs vai dar-se em outro contexto. No campo político acontece violento fechamento com a instalação de regimes militares especialmente no cone sul da A. Latina. Por sua vez, a Igreja Católica continua afirmando-se como espaço interno de liberdade e defensora da liberdade conculcada pelo regime militar.

a. Fechamento político

O fechamento político foi exigência do modelo econômico a ser reforçado. O populismo em curso impedia um maior e mais radical atrelamento da economia ao capital internacional. Assim, a crescente presença dos interesses econômicos internacionais, sobretudo financeiros, vai produzir maior dependência dos países latino-americanos em relação aos países centrais. A expressão significativa de tal dependência é a dívida externa sempre em aumento e a sempre maior ingerência do FMI nos assuntos internos dos países.

O preço político de tal transformação econômica por via do capital internacional foi a implantação de regimes militares ditatoriais em vários países, começando pelo Brasil em 1964.

Ideologicamente implanta-se o Sistema de Segurança Nacional, que vai viver alimentado pelo binômio: segurança e desenvolvimento. O desenvolvimento, que se medirá no PIB/PIN (produto interno bruto/produto interno nacional), será uma realidade estatística, mas não social. Pequena faixa da sociedade desenvolve-se altamente enquanto se dá um empobrescimento crescente das camadas populares. Para manter tal contradição, o regime recorre a violenta repressão, dirigida especialmente contra as organizações populares e contra a inteligência crítica do país. E como a Igreja Católica, especialmente no Brasil, estava muito próxima a esses dois segmentos, sofreu repressão.

b. Valentia da Igreja

À medida que o regime se fechava, a Igreja mantinha sua abertura interna e assumia papel de relevância, em alguns países da A. Latina - Brasil e El Salvador especialmente - de defensora dos Direitos Humanos, sobretudo dos pobres.

A Igreja Católica aproxima-se do povo perseguido, explorado, marginalizado, num lento trabalho de evangelização. A situação sócio-política levou a Igreja a um tipo de evangelização - que se convencionou chamar de libertadora - que implicava além do aprofundamento da fé, vivência dos sacramentos, um trabalho pastoral de conscientização e organização popular.

Esta concentração da Igreja num trabalho junto às bases permitiu que o número de CEBs crescesse rapidamente. Assim as CEBs que em 1966 apenas estavam iniciando, hoje em 1985 já devem ser mais de 100.000 no Brasil, envolvendo vários milhões de fiéis.

A valentia da Igreja exprimiu-se através da posição corajosa e destemida de alguns bispos, agentes de pastorais, líderes de comunidades, que suportaram calúnias, prisões, torturas e até morte violenta.

Numa palavra, a Igreja foi uma das poucas instituições, senão a única, que pôde trabalhar com o povo, consciêntizá-lo, organizá-lo. As CEBs são uma demonstração de tal atividade pastoral.

3- Momentos atual

No momento, os sinais inverteram-se. Ao fechamento político seguiu-se uma lenta e gradual abertura, consumada com a vitória da oposição para a Presidência da República. A abertura da Igreja, tem seguido um movimento, também lento e gradual, de rrestauração religiosa.

a. Abertura política

A crise e falência do modelo econômico e o desgaste político e ideológico do regime não permitiram um recrudescimento de fechamento, como tantas vezes tentou a linha dura, mas terminaram numa abertura. Esta, além do mais, foi forçada por crescente conscientização, mobilização e pressão populares.

A crise econômica afeta até as classes médias até então bem remuneradas. A dívida externa estrangula a economia do país. O desastre do modelo é completo.

Além disso, vêm à luz todos os escândalos de repressão e corrupção do regime militar, obrigando os militares a uma vergonhosa retirada de cena. Implanta-se a chamada "Nova República", num clima de esperança, liberdade, euforia mesmo. Inicia-se um diálogo nacional num clima de liberdade e possibilidade de expressão das diversas correntes nacionais. A causa da defesa dos Direitos Humanos, até então quase exclusividade da Igreja, torna-se um dado de todos. É o clima geral do país.

b. Hesitação e crise no seio da Igreja

O clima de abertura política contrasta, infelizmente, com certa retomada consistente dos setores conservadores no seio da Igreja Católica.

Os sinais de tal movimento se manifestam numa crescente censura teológica, na tomada de medidas disciplinares, na escolha de funcionários graduados no seio da Instituição. Além disso, cresce o volume de publicação dos conservadores, numa linha naturalmente quase estitamente crítica à Teologia da Libertação e à Igreja das bases, sem nenhuma contribuição positiva de valor.

Há um esforço de enquadrar os movimentos progressistas no campo litúrgico, teológico, pastoral, sócio-político, dentro de moldes definidos por instâncias romanas ou outras afinadas com as mesmas. Há uma insistência na verticalidade clerical, nas estruturas de poder da Igreja, com a diminuição da presença dos órgãos colegiados. Procura-se desfazer a articulação entre Palavra de Deus e lutas populares, tão bem criadas pelas CEBs, com acusações de reducionismo, politização da Palavra de Deus, etc...

No campo político, com a passagem da bandeira da defesa dos direitos humanos, das lutas populares, para inúmeras instituições, a Igreja Católica perdeu seu papel de singularidade em tal defesa. A verdadeira oposição que ela fazia às desumanidades do regime militar passado, agora passou para o conjunto da sociedade através de inúmeras organizações humanitárias e de esquerda.

Apesar dessa situação de crise no interior e de hisitação no campo sócio-político, as CEBs continuam ainda crescendo. Porque muitos desses problemas afetam mais segmentos letrados da Igreja e menos suas próprias bases, até o momento.

II. FORMAÇÃO DUMA COMUNIDADE ECLESIAL DE BASE

Através da experiência e observação, pude constatar que as CEBs se formam de diferentes modos. Não há um modelo único de gestação da CEB.

Algumas nasceram dos círculos bíblicos. Grupos de pessoas se reúnem para ler a S. Escritura. A partir daí descobrem a necessidade de relacionar a Palavra de Deus com a Vida. E dessa ligação surge uma comunidade de base.

Outras fazem o percurso oposto. Grupo de pessoas se reúnem para reivindicar um direito, lutar por uma necessidade básica. No decorrer desse processo precebe-se que todos os membros são eventualmente cristãos ou católicos. Então, começam a reunir-se também para ler a Palavra de Deus e para celebrar.

Outras nasceram quase por decreto dum pároco, que resolveu subdividir sua paróquia em comunidades de base. Mesmo que no início tenha sido algo artificial, algumas encontram verdadeira maneira de tornar-se autêntica comunidade de base. Outras comunidades nesceram de visitas de agentes de pastoral. Algum padre, religiosa ou mesmo leigo que abandonou seu meio social e veio morar com os pobres começa a visitar as pessoas de um quarteirão, bairro ou área rural. Convida as pessoas para uma reunião de oração, de leitura da Bíblia, de discussão dos problemas. E daí, pouco a pouco, vai surgindo uma CEB.

Não faltam casos em que a comunidade de base nasce da ação missionária de outra CEB. Esta envia alguém de sua comunidade para ir "fundar" uma nova comunidade em outro lugar.

Outras vezes pode dar-se o contrário. Um cristão "popular" ao visitar uma CEB volta animado e começa o trabalho de criar uma comunidade de base.

Certas CEBs nasceram de movimentos de Igreja, de organizações religiosas até mesmo tradicionais como Apostolado da Oração, Vicentinos, Congregações Marianas.

Tais associações deixam seu caráter estritamente religioso e tradicional e começam a perticipar numa pastoral mais comprometida e pouco a pouco se transformam em CEBs.

Em outros casos, começou-se com um curso de liderança. Os participantes saem animados, dotados de algumas técnicas de organização e mobilização, ao lado do espírito religioso e eclesial. Pouco a pouco vão construindo comunidades eclesiais.

Há dua vertentes, portanto: a religiosa ou a social como ponto inicial. Mas só surge CEB se a vertente dominante, quer religiosa quer político-social, se acopla com a outra.

Assim, uma luta popular, um mutirão - vertente social - termina em oração, celebração, em descoberta de uma fé católica comum. Pouco a pouco esse encontro esporádico para a luta ou mutirão se consolida numa comunidade eclesial.

Em outros casos, a piedosa reunião numa capelinha, a novena de Natal, a reflexão sobre a Palavra de Deus - vertente religiosa - evolui para uma comunidade engajada com as lutas do povo.

Portanto, CEB supõe - reza e mutirão; evangelho e realidade social; fé e luta do povo.

III. CARACTERÍSTICAS DAS CEBs.

As CEBs, na linguagem oficial da Igreja do Brasil, "tornaram-se um novo modo de ser Igreja" (Documentos da CNBB: Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil, nº 25, ed. Paulinas, São Paulo 1982). Caracterizar essa novidade pode ajudar-nos a entendê-la.

1. Articulação entre fé e vida

As CEBs podem nascer de alguma atividade espiritual, até mesmo tradicional uo de um mutirão ou luta popular. Mas sua característica fundamental é que nunca pára num dos dois aspectos, mas articula-os numa profunda unidade.

As CEBs são Palavra de Deus ligada com a vida, com o trabalho; são Evangelho e realidade social; são fé e luta popular, como vimos no parágrafo anterior, ao narrar-lhe o surgimento.

Teologicamente falando, as CEBs vivem em profundidade a unidade da história, numa percepção intuitiva e certeira do mistério da Encarnação. O grau de consciência e prática nessa articulação varia muito. Desde uma simples percepção do sentido histórico e social da fé manifestada numa solicitude pelos problemas da vida, até um compromisso de natureza mais orgânica com as lutas populares e políticas.

2. Eclesialidade

A eclesialidade das CEBs manifesta-se sobretudo pela principalidade do papel da Escritura no seu seio, pela importância que atribui às celebrações especialmente da Eucaristia e pela consciência explícita de vinculação com as outras comunidades.

No centro das CEBs está a Palavra de Deus. Muitas nasceram precisamente de círculos bíblicos, i.é., da leitura da Pàlavra de Deus em articulação com a vida diária. Nas CEBs vive-se o círculo hermenêutico em que a Palavra de Deus (texto) é lido dentro de uma comunidade de fé (contexto) numa situação concreta histórica (pré-texto). Nesse texto, o ponto central é o projeto de Deus, revelado na história da salvação.

Outro ponto central nas CEBs são as celebrações nas suas mais diversas formas, desde celebrações de pequenos eventos na fé, até a celebração da Eucaristia na sua forma mais solene. Nesse campo da celebração, as CEBs têm mostrado enorme criatividade e originalidade.

O terceiro eixo da eclesialidade é a comunidade (organização) em sua articulação com outras comunidades, em comunhão com a Igreja universal, através de modo especial da pessoa do bispo. Os ministros da Igreja são sempre bem-vindos e exercem função importante nas CEBs, mesmo quando suas presenças fisicamente são mais raras. Pertence ao imaginário religioso dos membros das CEBs sua pertença à Igreja universal. Longe das CEBs está o espírito da seita ou de grupúsculo.

3. Igreja da base, na base, com a base pela base

O termo base será esclarecido em outro breve artigo. Interessa aqui chamar a atenção sobre o caráter popular das CEBs. Elas se constituem de pessoas pobres, vindas do povo simples. Seu espaço de atuação é esse meio pobre. Os membros das CEBs sentem-se comprometidos com seus irmãos pobres, que às vezes ainda são mais pobres do que eles. E por isso, colocam como válida para eles a própria opção pelos pobres.

IV. ALGUNS PROBLEMAS DAS CEBs NO ATUAL MOMENTO

Já aludimos no início do artigo à atual situação das CEBs num contexto de abertura política e de certo fechamento eclesial. Vale a pena deter-nos um pouco mais nalguns problemas que as CEBs estão enfrentando no momento presente.

1. A Religiosidade Popular

Na maneira de trabalhar a religiosidade popular nas CEBs há diversas tendências. Há uma tendência conservadora, restauradora, que defende uma preservação total da religiosidade popular, sobretudo no que ela tem de oposição a qualquer ingerência na esfera do político. A religiosidade popular é um escudo de defesa diante de compromissos sociais. Mantém, portanto, toda a carga alienante de muitas formas religiosas populares sem nenhuma crítica.

Há uma tendência oposta de demolir toda religiosidade popular como se ela não passasse de alienação, formas deturpadas e atrasadas culturalmente. Preconceito elitista, próprio de filhos da "ilustração européia".

Caminha-se entre os teólogos comprometidos com o processo popular para uma vida dialética. De um lado, procura-se captar a dimensão alienante da religiosidade popular para superá-la com uma atitude crítica e de compromisso social. Doutro lado, reconhece-se que nela há muitos germes de liberação, muitos valores tipicamente populares que não só devem ser concervados, mas desenvolvidos. A atitude seria de escuta ao valores da religiosidade popular e também de percepção de seus limites. Num segundo momento crítico, tentar-se-ia uma visão mais libertadora e rica para em seguida devolvê-la ao povo, enriquecendo-o com as contribuições de uma reflexão mais crítica.

2. Relação entre fé e política

Se uma das características fundamentais das CEBs é a articulação que conseguem fazer entre fé e vida, Palavra de Deus e compromisso social, cabe aprofundar tal relação. Pois a tendência conservadora procura continuamente romper tal unidade, acusando-a de reducionismo, horizontalismo, perda da especificidade da fé e do eclesial. Compete, portanto, à teologia mostrar precisamente o contrário: que tal unidade é a maneira cristã, encarnada, de viver a fé. É decorrência de correta compreensão do mistério da Encarnação.

A preocupação pastoral deve procurar evitar os dois extremos prejudiciais para a vida da CEB: uma resistência conservadora ao político, ou uma tendência à politização geral. Esse duplo perigo hoje vem acrescido pela atual conjuntura política e eclesial. Por um lado, há uma retomada conservadora no seio da Igreja, e doutro, há uma invasão política dos novos partidos em busca de militantes e membros, tentando encampar neles as CEBs. Requer-se por conseguinte, a dupla lucidez de não deixar-se tomar de desconfiança ou desprezo pelo compromisso político, nem envolver-se totalmente com o político, perdendo a dimensão elecial religiosa.

3. Relação entre a dinâmica das bases e a Instituição eclesiás-tica

A Igreja das bases está adquirindo dinâmica própria: avanço irreversível. Até agora está articulada harmonicamente com a hierarquia: aberta a ela e sendo apoiada por ela. Esse apoio se dá no nível institucional e no nível teológico. A dinâmica original das CEBs tem-se mostrado pela criação de microinstituições eclesiásticas, de novos ministérios, de ensaios litúrgicos próprios, de produção catequética e teológica popular. A expressão máxima de tal dinâmica é a "Assembléia do Povo de Deus", onde toda a diocese se reúne para avaliação de sua caminhada e para planejamento pastoral. Em tal Assembléia a presença das CEBs é cada dia mais significativa, decisiva e predominante, dando à Assembléia a orientação própria do espírito e caráter das CEBs.

Há setores da Igreja, porém, que se estão sentido ameaçados por tal presença das CEBs com seu espírito de criatividade, e começam a acionar os freios, além de buscar fora, em Roma, apoio para tais receios e atitudes coercitivas. Eles têm prococado no interior da grande Igreja de nossos países, certa tensão e suspeitas, quase sempre infundadas.

Para complicar mais a situação, forças externas à Igreja, de caráter político, nacional uo transnacional - política da "Reagans administration" -, tem interferido, apoiando as forças conservadoras intra-eclesiais em oposição à dinâmica criativa das CEBs. Facilmente recorre-se a ataques ideológicos, alimentados por anticomunismo doentio.

No campo teológico-pastoral, a razão da tensão entre as duas tendências encontra-se no próprio texto do Conc. Vaticano II, que permite uma dupla eclesilogia, conforme se salienta mais uma vertente que a outra. No fundo, as duas eclesiologias subjacentes ainda não encontram uma verdadeira superação dialética. Estão ainda na fase de conflito.

4. Articulação da caminhada Igreja da A.Latina e a do 1º Mundo.

Interessa muito para nós, em diálogo com os do Primeiro Mundo, descobrir os pontos de convergência, e discutir as diferenças, a fim de avançar num trabalho de colaboração e cooperação.

As CEBs empenham-se num projeto de libertação. O 1º Mundo é muito sensível à problemática da liberdade. Ora, entre libertação e liberdade há uma raiz comum: o respeito pela dignidade da pessoa humana, oprimida por Estados absolutistas - experiência européia do séc. XVIII -, ou aviltada pelas condições humanas, sociais, econômicas em nosso Continente.

A divergência vem do fato de que as democracias burguesas administradoras do sistema neocapitalista do 1º Mundo são as mesmas que garantem os europeus sua liberdade, geram e sustentam o 3º Mundo estruturas de dominação econômica, política e cultural. Que mudanças são necessárias no 1º Mundo para que essas estruturas políticas se transformem em "missionárias da liberdade e libertação" para além de suas fronteiras, e não o contrário?

Além disso, as CEBs esperam do 1º Mundo um apoio no seu processo libertador, sobretudo no momento atual em que, no mundo político e eclesiástico, configuram-se movimentos conservadores, restauradores, opostos às aspirações de libertação de nossos povos.

As CEBs estão trabalhando numa linha de microestruturas de libertação, mas seu alcance ainda é restrito no concernente às macroestyruturas. Nesse nível, as Igrejas do 1º Mundo parecem ter mais possibilidades, por meio de um uso evangélico do poder que detêm.

Conclusão

Este breve quadro sobre as CEBs não é modelo a ser transplantado. Tenta retratar um pouco da vida que brota em nossas igrejas pobres. São pergunta, desafio às igrejas dos países ricos. Mas são também sinal de esperança e de conversão. A abertura das igrejas do 1º Mundo já é sinal da presença do Espírito que dispõe os corações para ouvir os pobres e deixar-se questionar por eles.

(1) Texto de uma palestra apresentada no: Summer School on Current Issues in Mission, Oxford, Inglaterra, 05 a 15 de agosto de 1985.

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