Por que faço o que faço?
Publicado por Jblibanio em 06/6/2011 (532 leituras)
Por que faço o que faço?
J. B. Libanio
Agosto de 2010
VIII Seminário Pró-Conselho
Belo Horizonte
Texto
INTRODUÇÃO
Pergunta intrigante. O agir humano implica diversos registros que nem sempre percebemos. Pensamos, sentimos e agimos. Cada dimensão goza de autonomia, embora se articulem as três na unidade da pessoa. Parar e pensar humanizam-nos e fazem-nos conscientes de nós mesmos no existir. A vida lança-nos tal desafio. Reflitamos sobre ele.
A articulação não raro padece de fissuras ou uma dimensão sobrepõe-se exageradamente sobre a outra. No final, o ser humano claudica por falta de harmonia.
A filosofia grega deixou-nos a herança do pensar. Quando ele nos embala e seduz, arriscamos minguar a afetividade. A cabeça cresce e o lado emocional se encurta. Usamos com freqüência a sinédoque de cabeça pela pessoa humana inteira, mas valorizada no aspecto da inteligência. E a metonímia termina reduzindo o ser humano à dimensão intelectual.
Não falta o contrário. A sinédoque recorre ao coração. Fulano pensa com o coração. A afetividade, as emoções deslocam a racionalidade e ocupam o espaço da compreensão da realidade.
Na linguagem corriqueira jogamos com outra tensão. A ruptura se faz entre o agir e pensar. Temos muita teoria e pouca prática. Quem não ouviu tal observação? A teoria põe-se do lado do conhecimento e enquanto a prática do lado do transformar a realidade. Ou achaca-se alguém de ativismo, de pragmatismo para denunciar-lhe a incapacidade reflexiva, intelectual.
Uma terceira tensão surge entre o sentir e o agir. O elo se dá pela motivação. Que nos move a agir? O frio cálculo racional, a pilha de argumentos, as razões teóricas elaboradas? Ou o afeto, a emoção, a sensibilidade?
Se os departamentos do existir se comportassem disciplinada e distintamente, o agir transparecer-nos-ia com facilidade. No entanto, lá no nosso interior procedem como vasos comunicantes. Pedem atenção e acribia de juízo.
Essa reflexão inicial põe-nos a seguinte pergunta central: que é a liberdade, como a entendemos e que fazemos com ela? Oferecemos três respostas, recorrendo a três atitudes antropológicas fundamentais.
I. FAÇO PORQUE SOU DETERMINADO A FAZER
Em diferentes espaços culturais, soa uma mesma resposta. O ser humano debateu-se teórica, prática e existencialmente com a liberdade. Temeu-a desde os inícios. Não por ela, mas pela responsabilidade inerente a seu exercício. Então: melhor empurrar a responsabilidade para alguém ou algo incontrolável. Vejamos alguns casos prototípicos.
A tragédia grega soa paradigmática. Sófocles (V séc. aC), para tomar um exemplo, na tragédia Édipo Rei, desenha-nos a figura de Édipo. Antes mesmo que nascera, o pai sabia que teria um filho que o mataria. Já estava decretado. O adivinho Tirésias desvela a verdade desde o início. Édipo cegamente a executa. Mata a Laio, seu pai, como o oráculo predissera. Une-se maritalmente com Jocasta, a mãe. A força poderosa, cega, fatalizada do destino conduz a vontade humana impotente a submeter-se a ela. E quando se revela tal fatalidade, Jocasta se enforca e Édipo se cega com o broche da mãe.
No mundo religioso, sob formas diferentes, aparece clara ou veladamente semelhante predeterminação. O agente principal tem nome: Deus, divina providência. Ele conhece tudo de antemão e o ser humano só aparentemente procede livremente. Os teólogos buscam com sofisticações teológicas conjugar a predestinação com a liberdade humana. No entanto, predomina no meio popular certo determinismo que se manifesta em expressões: Deus sabe o que faz, Deus providenciará, etc.
S. Paulo alude a uma experiência pessoal do jogo entre a liberdade e o que ele chama de pecado que habita nele: categoria que tinha para interpretar o jogo interno contraditório. “Sabemos que a Lei é espiritual; eu, porém, sou carnal, vendido ao pecado como escravo. De fato, não entendo o que faço, pois não faço o que quero, mas o que detesto” (Rm 7, 14s). “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero. Ora, se faço aquilo que não quero, então já não sou eu que estou agindo, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7, 19s).
O mundo moderno científico conhece também tendência semelhante que exerce fascínio sobre mentes esclarecidas. Certo positivismo reduz a realidade ao cientificamente constatável e regido por leis inexoráveis. O Clube de Viena já apequenava os mistérios, ao fazer deles simples enigmas a serem solucionados mais dia menos dia pelas ciências. O neodarwinismo de R. Dawkins interpreta comportamentos humanos até mesmo no referente aos valores éticos, religiosos como fruto da genética e de configurações neuronais particulares. Reconhece neles o valor seletivo superior de vantagem hereditária conservada pela evolução. A liberdade e a história perdem relevância.
Certa tendência da neobiologia caminha na mesma direção, não no sentido de um projeto evolucionista, mas num jogo oximoro de acaso e necessidade. No começo está o acaso e ele se transforma em necessidade. Assim se destrói de uma vez só a existência de uma Inteligência divina que preside ao processo evolutivo segundo seu projeto e a liberdade humana a quem Deus confia o seu prosseguimento. J. Monod, prêmio Nobel (1965), assenta o pensamento nessa perspectiva na famosa obra Acaso e Necessidade [O acaso e a necessidade: ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna. Petrópolis: Vozes, 1971, 2. ed.]. Não existe um plano anterior na perspectiva do clássico finalismo, mas a natureza simplesmente evolui, não sem determinismos internos, reagindo ao meio ambiente e pela mutação dos genes.
Quanto mais força se atribui ao acaso advindo da reação ao meio e ao determinismo interno nas mutações genéticas, menor fica o espaço para a liberdade do agir humano.
A partir do ângulo da psicologia, a teoria comportamentista, inspirada por B. Skinner(1904-1990), tende a identificar o agir humano a reflexo produzido por estímulos vindos do ambiente, tanto do passado como do presente. À medida que controlarmos tais condicionamentos, preveremos a ação do ser humano. No extremo de tal reflexão, a liberdade desaparece. O título de obra importante de B. Skinner, na tradução brasileira, O mito da liberdade [Rio de Janeiro: Bloch, 1977. 3. ed.], anuncia já tal perspectiva, embora o título inglês soe bem diferente: “Além da liberdade e da dignidade”.
A psicanálise freudiana, também ela, sobretudo na forma vulgarizada e simplificada, permite compreensão tal das forças inconscientes a ponto de elas determinarem totalmente a ação do ser humano, tirando-lhe a liberdade. Precisamente porque o inconsciente não cai sob o regime do percebido reflexa e livremente, empurramos facilmente os nossos atos para esse mundo, isentando-os de responsabilidade. Brotam determinados de dentro.
K. Marx estende às relações econômicas, à ideologia muito dessa força determinante do agir humano. E. Fromm não teme escrever um livro sobre o Medo da liberdade [Rio de Janeiro: Zahar, 1964, 3. ed.], onde analisa as estruturas de dominação, de autoritarismo e de subserviência que anulam a si mesmo, por não suportarem a liberdade do outro.
Esse conjunto de reflexões aponta para a profunda experiência humana de medo da liberdade. Escondemo-nos atrás do destino ou de um Deus que tudo determina ou de condicionamentos determinantes de caráter inconsciente, do ambiente ou das relações sociais e econômicas. Assim a primeira resposta à pergunta fundamental soa: faço o que faço porque alguém ou algo me determinou fazê-lo.
Essa resposta não satisfaz a todo mundo. Então, que outra resposta existe? Passemos ao ponto seguinte.
II. FAÇO PORQUE QUERO
A segunda resposta soa: faço porque quero. Na raiz do querer está a liberdade, dom recebido e fonte de responsabilidade. Faremos alguns percursos históricos e reflexivos para entender tal resposta.
No Antigo Testamento deparamos com belíssima passagem na história do povo de Israel. Moisés faz o último discurso ao povo na estepe de Moab antes de subir ao monte Nebo, onde morre. Às portas da entrada na Terra Prometida, antes de terminar uma existência vivida na condução do povo pelo deserto, ele lhe propõe, à escolha, a alternativa: “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça” (Dt 30, 15-20). Ato de liberdade do povo. Ele implica ou amar a Deus guardando os mandamentos ou adorar e prestar culto a outros deuses, afastando-se de Deus. Belíssima cena em que Moisés confia à livre eleição do povo o seu futuro.
Paulo consagra-se como o teólogo maior da liberdade. Perseguidor de Cristo, converte-se a partir de experiência profunda do Cristo glorificado, cuja natureza nos escapa. Vivia qual escravo da lei mosaica. Doravante proclama dupla liberdade. O cristão, possuído pela experiência cristã, faz-se livre de toda e qualquer lei. “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1). Mas para quê? A liberdade para se define pelo amor e não por nenhum egoísmo. Equilibra o potencial desprendido pela liberdade de que poderia terminar na anomia, na libertinagem. Paulo alude claramente para tal risco. “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gl 5, 13). Portanto, liberdade para o amor.
A tradição cristã reconheceu a imensa dignidade humana por força do mistério da Encarnação. A humanidade se fez participante da própria vida divina de maneira única pelo fato de o Verbo assumi-la. A consciência, a liberdade e a transcendência definem o sublime em nós.
A Carta a Diogneto, documento cristão do segundo século, salienta a vida cristã pelo diferencial do amor, vivido com enorme liberdade. Os cristãos se relacionam com o mundo como a alma com o corpo. A cultura pagã não prezava a mulher nem a criança. E o autor do Carta afirma dos cristãos: “Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito” (Carta a Diogneto, n. 5). Por essa razão, as mulheres predominam na conversão ao Cristianismo.
Os imperadores Constantino (313) e Teodósio (380) estabelecem a liberdade da religião cristã e a decretam religião oficial do Império. A simbiose com o poder modifica a postura inicial do cristianismo em face da liberdade. Perde muito dela. A instituição eclesiástica sobrepõe-se a ela. Doravante os surtos libertários virão das periferias ou de vozes proféticas. A longa história de Igreja exibe-nos diante dos olhos série inumerável de homens e mulheres que lutaram e até morreram pela defesa da liberdade.
Na modernidade cultural explodiu a subjetividade. As pessoas cresceram livres em face das tradições, em nível de consciência, de determinação. Aqui está ponto importante. As tradições passam pelo crivo seletivo da interioridade das pessoas e não se impõem de fora. O “penso, logo existo” de Descartes torna-se um modo de pensar. Vale a tautologia: sou logo sou livre. Esse grito do existir pessoal marca a cultura.
O individualismo constitui-se na ideologia da modernidade e tende só a crescer na pós-modernidade. Na política, a democracia fortalece-se. Na economia, o liberalismo se firma cada vez com maior força. O próprio socialismo pretendeu criar sociedade igualitária em nome da dignidade de cada indivíduo, embora tenha usado da coerção. Em termos de Brasil, a pedagogia de Paulo Freire trabalhou, em tempos de repressão, com coragem, a conscientização e libertação.
Desenhando esse quadro interminável, J. P. Sartre na peça As Moscas [Lisboa: Presença, 1965. 2. ed..] descreve, de maneira poética e dramática, a experiência de autonomia da liberdade. “Quando uma vez a liberdade explodiu numa alma de homem, os deuses nada mais podem fazer contra esse homem". Diante de Orestes, símbolo da autonomia humana, Egisto se dirige a Júpiter: "Sabe que é livre. Então não basta pô-lo a ferros. Um homem livre numa cidade é como uma ovelha tinhosa num rebanho. Vai contaminar todo o meu reino e arruinar a minha obra. Deus todo-poderoso, que esperas para o fulminar?" A peça apologiza a liberdade. Noutro momento, Orestes dirige-se a Electra, que não suporta o assassínio de Egisto e da mãe Clitemnestra e se entrega a Júpiter, e exclama: "Sou livre, Electra; a liberdade abateu-se sobre mim como um raio". E em face de Júpiter: -"Não sou senhor nem escravo, Júpiter. Sou a minha liberdade! Mal me criaste, deixei de te pertencer".
Portanto, faço porque quero. Quero porque sou livre. A liberdade nela mesma não responde a tudo. Que realidade alimenta, em última análise, a liberdade? O amor. Passemos ao passo seguinte.
III. FAÇO PORQUE QUERO, QUERO POR AMO
Vasto campo de reflexão.A herança grega e a cristã desvelam-nos três dimensões do amor.
Amor-eros
O amor se chama Eros. Implica carência. A maneira de trabalhá-la configura formas diferentes de expressão de amor. De que sentimos falta?
Há quem só sente falta de si. Não ama ninguém a não ser a si mesmo. Carece da base primeira para amar a alguém. Esta assenta-se na incompletude do ser humano. E se essa procura se completar só consigo mesmo, a resposta à pergunta soa: faço porque quero, quero porque sinto falta de mim mesmo. Todo outro não passa de uma prolongação do próprio eu. Terrível solidão até o desespero.
A falta pede uma pessoa. Nascem as relações. Lá na origem estão dois mitos belíssimos. Estórias nascidas da alma coletiva da humanidade. Revelam-lhe a profundidade. Tornam-se arquétipos do existir humano. Experiência primigênia do humanum que existe em nós.
Na Bíblia, Adão, ao encontrar-se com Eva, exclama: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada ‘humana’ porque do homem foi tirada”. Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne. O homem e sua mulher estavam nus, mas não se envergonhavam (Gn 2, 23-25).
Do lado grego, está o mito do andrógino. Andrógino, o ser humano completo, com pretensões divinas. Quem é completo não carece de nada de humano. Zeus o divide. Aí estão as metades a se desejarem mutuamente.
A teoria evolucionista da colaboração, a psicologia de Winnicott, a sociologia do conhecimento, a filosofia personalista e a teologia trinitária mergulham fundo no ser humano para desvendar esse mistério de reciprocidade intersubjetiva.
Superam-se o darwinismo e o neodarwinismo por outra concepção da evolução. Resiste ao tempo e ao espaço aquele ser que mais colabora, mais associa, mais coopera.
O ser humano necessita radicalmente do outro para construir-se na sua humanidade desde o nascimento até o final de sua existência. Sem cuidado, a criança fisicamente morre. Se lhe oferecem um mínimo para viver, mas se lhe negam o cuidado do carinho, atrofia-se-lhe a dimensão afetiva. O ambiente prossegue o processo de desenvolver-lhe ou de minguar-lhe a capacidade de relacionar-se com o outro.
A filosofia tematiza a natureza intersubjetiva do ser humano. E por fim, a teologia aponta-lhe a criação por um Deus trino que é comunhão. A raiz do ser humano suga na comunhão a seiva do ser.
Essa falta amplia-se para a comunidade. O ser humano comunitário deseja mais. Ultrapassa o individualismo. Sente falta de estar com outros/as, além da cara-metade. Expande-se para viver em comunidade familiar, étnica, religiosa ou outra.
No início do Cristianismo, os pagãos ficaram tocados pelo exemplo de amor entre os cristãos. Eles se diziam: vejam como eles se amam [Tertuliano, Apol. 39]. Esbarramos numa estrutura básica do ser humano como ser de relações. No princípio estão as relações comunitárias para além de um simples outro. Rompemos então o esquema dual para abrir-nos aos humanos que nos vão chegando ao longo da vida.
A carência vai mais longe. O outro aparece como projeto maior, como um ideal a ser defendido no campo social, político. Manifesta-se aí a natureza política do ser humano. Aristóteles define-o com “ser vivo político”. Existe para viver na polis, na cidade, na república, onde ele se realiza como cidadão. Não se trata do simples fato de viver em sociedade, mas de participar da organização política, construindo-a como forma superior de convívio humano além da família e de comunidades. No espaço desse seminário, tal compreensão do ser humano vem a calhar.
Um passo à frente. O ser humano sente falta do Transcendente. Para quem crê, ele se chama Deus. Outros veem nele uma energia. Mesmo ateus, como A. Comte-Sponville, defendem uma espiritualidade sem Deus [O espírito do ateismo: introdução a uma espiritualidade sem Deus. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007]. O ser humano carece de algo que ultrapassa os pequenos sentidos do cotidiano e o lance para o alto. L. Ferry usa a expressão transcendência na imanência para traduzir algo dessa carência humana radical, embora se confesse, também ele, ateu [L. Ferry: L’homme-Dieu ou le Sens de la vie. Essai. Paris, Grasset, 1996].
Amor-phylia
Amor deixa o campo da carência e espraia-se pela amizade, pela alegria da presença de outro. Os gregos falam de phylia que está na etimologia de muitas palavras conhecidas. Já não se restringe à mera falta. Avança para o gozo, o regozijo. Mas de quem? De novo, as quatro direções do amor se revelam.
Alguém se alegra unicamente consigo. O eu lhe oferece fonte de gozo, de alegria. A fonte de prazer vem-lhe do espelho. Narcisamente se sente feliz de ver-se retratado em tudo que contempla. O seu eu se infiltra em todas as realidades e nelas somente lhe aprazem os traços do eu. No fundo, a amizade já não merece tal nome, pois não sai para fora do eu.
Ela se realiza de outra forma. A fonte de gozo vem da presença de outra pessoa que não eu. Vai além da falta. O simples encontro gratifica. O outro se põe diante na gratuidade do estar-aí. Sem mais. Não vem cobrir nenhuma falta, como tal, mas simplesmente lubrificar de festa a vida. Merece o nome realmente de amizade. E sobre ela multiplicam-se os discursos, abundam as experiências e exemplos. Guardemos simplesmente a gratuidade da presença.
Mais um passo. Esse outro chama-se comunidade. Ultrapassa-se a singularidade do amigo. Abrimo-nos a muitos, a inúmeros, a todos os que nos trazem o bálsamo da presença ou que, ao menos, nos possibilitam alargar o horizonte da complacência, da benevolência em direção a eles.
Há aqueles que se alegram na luta por uma causa, por um projeto. Estabelecem vínculo de amizade com o ideal a ser conquistado. Cada passo obtido merece festa, celebração. Unem-se em torno dos mesmos objetivos que implicam pessoas, políticas, estratégias, táticas. O mundo social e político representa para eles o espaço da alegria. Fazem-se capazes de realizar o que Che Guevara formulara de maneira tão simples: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás". A causa não se porta como madrasta, nem como fonte de dureza, de rigidez, de violência, mas de alegria e dança.
Só assim se entende, especialmente no mundo dos jovens, como eles mesclam saudavelmente compromisso social e político com coleguismo, companheirismo, comemorações jubilosas. Maio de 1968 e manifestações semelhantes tiveram traços dessa alegria – phylia – em relação à causa maior da liberdade. O conhecido slogan “É probido proibir” traduz bem esse sentimento de liberdade, de leveza. Esse amor permite superar a decepção com a política por causa do baixo nível de muitos políticos. Alegra-se com os verdadeiros defensores da cidadania, da democracia, dos interesses do povo.
Avancemos ainda mais. Alegrar-se com a presença da Transcendência. De novo, sob vários nomes. J. Hick publica livro provocante com o título: Deus tem muitos nomes [Philadelphia: The Westminster Press, 1980]. As experiências de tal amizade enchem uma enciclopédia de místicos, de pessoas devotadas à Transcendência até os ateus acima mencionados que nos falam da sua necessidade. Santo Agostinho imortalizou tal fruição divina, ao definir a felicidade como frui Deo, fruir, gozar de Deus. Santa Tereza, São João da Cruz legaram-nos versos imortais.
Amor-agape
Um último salto do amor. O amor-agape. Nasce da fé biblicocristã. Além de tudo o que se disse, existe o amor da pura gratuidade. A carência e amizade implicam a resposta do outro. Aqui não. Esta pode vir. E trará muita alegria e gozo. Mas não se faz necessária.
Os dois grandes paradigmas, por assim dizer, desse amor se chamam: Deus a criar o ser humano e Jesus a perdoar os inimigos. Do nosso lado, com o pincel do conhecimento, do amor e da práxis desenhamos esses modelos em nossas vidas. A célebre oração de São Francisco pontua-nos com clareza: “Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado”. Está definição concreta desse amor.
Por que a criação o manifesta? Deus nos cria livres, entrega-nos a responsabilidade da liberdade e continua sustentando-nos no existir, amemo-lo ou não o amemos. E teologia no-lo define simplesmente como Amor. E Jesus visibiliza tal amor no perdão aos inimigos.
Na raiz de tal amor estão a disponibilidade, a entrega total de si, a capacidade de perdoar. Infelizmente o ser humano consegue perverter o amor-agape, ao concretizar tal orientação unicamente para si. Consome as energias, dedica-se de corpo e alma, perdoa, mas somente a si mesmo. Claro que já não se faz jus ao amor-agape da tradição cristã. Corrompeu-o na raiz.
Outros vivem tal dimensão na relação interpessoal. As mães, em geral, mostram-se capazes de tal amor aos filhos. Comove-nos ver a cena de mães a agitarem o lenço com lágrimas nos olhos para filhos presos detrás da grade, sabe Deus lá, por que crimes. Lá estão elas fieis ao amor ao filho sem perguntar nem sondar a culpabilidade. Puro perdão.
Em espaço mais amplo, o amor-agape se vive em comunidade. Difícil, mas real. Acolhem-se as pessoas na gratuidade, sem exigir nenhuma retribuição, perdoam-se os atritos e desentendimentos. Sonho de toda comunidade. Só o amor-agape mantém feliz uma comunidade e torna-a lugar de alegria e de beleza.
Ainda mais difícil, vivê-lo no espaço de uma causa, de um programa e projeto social e político. A diversidade das pessoas, a pluralidade de motivações que as reúnem, a natureza mesma da realidade dificultam enormemente essa relação de amor-agape. Esse amor vai tão longe que perdoa os companheiros de luta, aqueles que decepcionam pela traição à própria vocação política. Tem coragem de superar a sensação de impotência em face da monstruosidade do sistema dominante. Sustenta-se, como Jesus na cruz, no meio do fracasso, mantendo a confiança no Transcendente. Assim a derrocada de tantos projetos revolucionários não destrói a esperança. Recorda-se, como Israel, dos momentos de graça do passado para ter força no presente e lutar em vista de futuro melhor. Assim, experiências do passado, tais como, Cuba, a derrota dos EUA na guerra do Vietnam, Maio de 1968, Praga 1967/8, Diretas-já, Médicos sem Fronteiras, Novos movimentos sociais, nova consciência ecológica, surto religioso, o Fórum Social Mundial, etc. permanecem como centelhas de “outro mundo possível”.
Até em relação à Transcendência, que se revela como puro amor-agape, custa-nos alimentá-lo. Não raro, provações, desgraças inexplicáveis, catástrofes, sofrimentos rondam-nos como dúvida e até revolta contra Deus. Por que Deus permitiu isso comigo? Perguntas infinitas vezes levantadas. E quanto mais nos assediam desventuras, fracassos e outras calamidades, tanto mais nos desafia o amor de entrega, de absoluta confiança em Deus.
São João nos resumiu bem tal amor: “E nós temos reconhecido o amor de Deus por nós, e nele acreditamos. Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1 Jo 4,16). Nesse amor não há temor: “Não há temor no amor; mas o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica castigo, e o que teme não é perfeito no amor’’ (1 Jo 4,18). Está a consciência de que amamos, porque, no fundo, o amor primeiro de Deus antecede o nosso amor e o sustenta. “Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4,19). O amor de Deus opera amor.
Paulo cantou esse amor, em belíssimos versículos, com inúmeras qualidades: paciente, benigno, não invejoso, nem orgulhoso, nem soberbo, nem descortês, nem interesseiro, nem irritadiço, nem rancoroso, antes tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera. Enfim, esse amor nunca acabará (1 Cor 13, 1-8).
Conclusão
Por que faço o que faço? Por muitas razões. Expus algumas. Toca-nos refletir e perscrutar a mente, o coração e analisar a práxis. Só assim conheceremos o segredo do agir. Oxalá cheguemos a esse último nível do fazer: na liberdade e por amor.
J. B. Libanio
Agosto de 2010
VIII Seminário Pró-Conselho
Belo Horizonte
Texto
INTRODUÇÃO
Pergunta intrigante. O agir humano implica diversos registros que nem sempre percebemos. Pensamos, sentimos e agimos. Cada dimensão goza de autonomia, embora se articulem as três na unidade da pessoa. Parar e pensar humanizam-nos e fazem-nos conscientes de nós mesmos no existir. A vida lança-nos tal desafio. Reflitamos sobre ele.
A articulação não raro padece de fissuras ou uma dimensão sobrepõe-se exageradamente sobre a outra. No final, o ser humano claudica por falta de harmonia.
A filosofia grega deixou-nos a herança do pensar. Quando ele nos embala e seduz, arriscamos minguar a afetividade. A cabeça cresce e o lado emocional se encurta. Usamos com freqüência a sinédoque de cabeça pela pessoa humana inteira, mas valorizada no aspecto da inteligência. E a metonímia termina reduzindo o ser humano à dimensão intelectual.
Não falta o contrário. A sinédoque recorre ao coração. Fulano pensa com o coração. A afetividade, as emoções deslocam a racionalidade e ocupam o espaço da compreensão da realidade.
Na linguagem corriqueira jogamos com outra tensão. A ruptura se faz entre o agir e pensar. Temos muita teoria e pouca prática. Quem não ouviu tal observação? A teoria põe-se do lado do conhecimento e enquanto a prática do lado do transformar a realidade. Ou achaca-se alguém de ativismo, de pragmatismo para denunciar-lhe a incapacidade reflexiva, intelectual.
Uma terceira tensão surge entre o sentir e o agir. O elo se dá pela motivação. Que nos move a agir? O frio cálculo racional, a pilha de argumentos, as razões teóricas elaboradas? Ou o afeto, a emoção, a sensibilidade?
Se os departamentos do existir se comportassem disciplinada e distintamente, o agir transparecer-nos-ia com facilidade. No entanto, lá no nosso interior procedem como vasos comunicantes. Pedem atenção e acribia de juízo.
Essa reflexão inicial põe-nos a seguinte pergunta central: que é a liberdade, como a entendemos e que fazemos com ela? Oferecemos três respostas, recorrendo a três atitudes antropológicas fundamentais.
I. FAÇO PORQUE SOU DETERMINADO A FAZER
Em diferentes espaços culturais, soa uma mesma resposta. O ser humano debateu-se teórica, prática e existencialmente com a liberdade. Temeu-a desde os inícios. Não por ela, mas pela responsabilidade inerente a seu exercício. Então: melhor empurrar a responsabilidade para alguém ou algo incontrolável. Vejamos alguns casos prototípicos.
A tragédia grega soa paradigmática. Sófocles (V séc. aC), para tomar um exemplo, na tragédia Édipo Rei, desenha-nos a figura de Édipo. Antes mesmo que nascera, o pai sabia que teria um filho que o mataria. Já estava decretado. O adivinho Tirésias desvela a verdade desde o início. Édipo cegamente a executa. Mata a Laio, seu pai, como o oráculo predissera. Une-se maritalmente com Jocasta, a mãe. A força poderosa, cega, fatalizada do destino conduz a vontade humana impotente a submeter-se a ela. E quando se revela tal fatalidade, Jocasta se enforca e Édipo se cega com o broche da mãe.
No mundo religioso, sob formas diferentes, aparece clara ou veladamente semelhante predeterminação. O agente principal tem nome: Deus, divina providência. Ele conhece tudo de antemão e o ser humano só aparentemente procede livremente. Os teólogos buscam com sofisticações teológicas conjugar a predestinação com a liberdade humana. No entanto, predomina no meio popular certo determinismo que se manifesta em expressões: Deus sabe o que faz, Deus providenciará, etc.
S. Paulo alude a uma experiência pessoal do jogo entre a liberdade e o que ele chama de pecado que habita nele: categoria que tinha para interpretar o jogo interno contraditório. “Sabemos que a Lei é espiritual; eu, porém, sou carnal, vendido ao pecado como escravo. De fato, não entendo o que faço, pois não faço o que quero, mas o que detesto” (Rm 7, 14s). “Não faço o bem que quero, mas faço o mal que não quero. Ora, se faço aquilo que não quero, então já não sou eu que estou agindo, mas o pecado que habita em mim” (Rm 7, 19s).
O mundo moderno científico conhece também tendência semelhante que exerce fascínio sobre mentes esclarecidas. Certo positivismo reduz a realidade ao cientificamente constatável e regido por leis inexoráveis. O Clube de Viena já apequenava os mistérios, ao fazer deles simples enigmas a serem solucionados mais dia menos dia pelas ciências. O neodarwinismo de R. Dawkins interpreta comportamentos humanos até mesmo no referente aos valores éticos, religiosos como fruto da genética e de configurações neuronais particulares. Reconhece neles o valor seletivo superior de vantagem hereditária conservada pela evolução. A liberdade e a história perdem relevância.
Certa tendência da neobiologia caminha na mesma direção, não no sentido de um projeto evolucionista, mas num jogo oximoro de acaso e necessidade. No começo está o acaso e ele se transforma em necessidade. Assim se destrói de uma vez só a existência de uma Inteligência divina que preside ao processo evolutivo segundo seu projeto e a liberdade humana a quem Deus confia o seu prosseguimento. J. Monod, prêmio Nobel (1965), assenta o pensamento nessa perspectiva na famosa obra Acaso e Necessidade [O acaso e a necessidade: ensaio sobre a filosofia natural da biologia moderna. Petrópolis: Vozes, 1971, 2. ed.]. Não existe um plano anterior na perspectiva do clássico finalismo, mas a natureza simplesmente evolui, não sem determinismos internos, reagindo ao meio ambiente e pela mutação dos genes.
Quanto mais força se atribui ao acaso advindo da reação ao meio e ao determinismo interno nas mutações genéticas, menor fica o espaço para a liberdade do agir humano.
A partir do ângulo da psicologia, a teoria comportamentista, inspirada por B. Skinner(1904-1990), tende a identificar o agir humano a reflexo produzido por estímulos vindos do ambiente, tanto do passado como do presente. À medida que controlarmos tais condicionamentos, preveremos a ação do ser humano. No extremo de tal reflexão, a liberdade desaparece. O título de obra importante de B. Skinner, na tradução brasileira, O mito da liberdade [Rio de Janeiro: Bloch, 1977. 3. ed.], anuncia já tal perspectiva, embora o título inglês soe bem diferente: “Além da liberdade e da dignidade”.
A psicanálise freudiana, também ela, sobretudo na forma vulgarizada e simplificada, permite compreensão tal das forças inconscientes a ponto de elas determinarem totalmente a ação do ser humano, tirando-lhe a liberdade. Precisamente porque o inconsciente não cai sob o regime do percebido reflexa e livremente, empurramos facilmente os nossos atos para esse mundo, isentando-os de responsabilidade. Brotam determinados de dentro.
K. Marx estende às relações econômicas, à ideologia muito dessa força determinante do agir humano. E. Fromm não teme escrever um livro sobre o Medo da liberdade [Rio de Janeiro: Zahar, 1964, 3. ed.], onde analisa as estruturas de dominação, de autoritarismo e de subserviência que anulam a si mesmo, por não suportarem a liberdade do outro.
Esse conjunto de reflexões aponta para a profunda experiência humana de medo da liberdade. Escondemo-nos atrás do destino ou de um Deus que tudo determina ou de condicionamentos determinantes de caráter inconsciente, do ambiente ou das relações sociais e econômicas. Assim a primeira resposta à pergunta fundamental soa: faço o que faço porque alguém ou algo me determinou fazê-lo.
Essa resposta não satisfaz a todo mundo. Então, que outra resposta existe? Passemos ao ponto seguinte.
II. FAÇO PORQUE QUERO
A segunda resposta soa: faço porque quero. Na raiz do querer está a liberdade, dom recebido e fonte de responsabilidade. Faremos alguns percursos históricos e reflexivos para entender tal resposta.
No Antigo Testamento deparamos com belíssima passagem na história do povo de Israel. Moisés faz o último discurso ao povo na estepe de Moab antes de subir ao monte Nebo, onde morre. Às portas da entrada na Terra Prometida, antes de terminar uma existência vivida na condução do povo pelo deserto, ele lhe propõe, à escolha, a alternativa: “Vê que eu hoje te proponho a vida e a felicidade, a morte e a desgraça” (Dt 30, 15-20). Ato de liberdade do povo. Ele implica ou amar a Deus guardando os mandamentos ou adorar e prestar culto a outros deuses, afastando-se de Deus. Belíssima cena em que Moisés confia à livre eleição do povo o seu futuro.
Paulo consagra-se como o teólogo maior da liberdade. Perseguidor de Cristo, converte-se a partir de experiência profunda do Cristo glorificado, cuja natureza nos escapa. Vivia qual escravo da lei mosaica. Doravante proclama dupla liberdade. O cristão, possuído pela experiência cristã, faz-se livre de toda e qualquer lei. “É para a liberdade que Cristo nos libertou. Ficai firmes e não vos deixeis amarrar de novo ao jugo da escravidão” (Gl 5, 1). Mas para quê? A liberdade para se define pelo amor e não por nenhum egoísmo. Equilibra o potencial desprendido pela liberdade de que poderia terminar na anomia, na libertinagem. Paulo alude claramente para tal risco. “Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor” (Gl 5, 13). Portanto, liberdade para o amor.
A tradição cristã reconheceu a imensa dignidade humana por força do mistério da Encarnação. A humanidade se fez participante da própria vida divina de maneira única pelo fato de o Verbo assumi-la. A consciência, a liberdade e a transcendência definem o sublime em nós.
A Carta a Diogneto, documento cristão do segundo século, salienta a vida cristã pelo diferencial do amor, vivido com enorme liberdade. Os cristãos se relacionam com o mundo como a alma com o corpo. A cultura pagã não prezava a mulher nem a criança. E o autor do Carta afirma dos cristãos: “Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito” (Carta a Diogneto, n. 5). Por essa razão, as mulheres predominam na conversão ao Cristianismo.
Os imperadores Constantino (313) e Teodósio (380) estabelecem a liberdade da religião cristã e a decretam religião oficial do Império. A simbiose com o poder modifica a postura inicial do cristianismo em face da liberdade. Perde muito dela. A instituição eclesiástica sobrepõe-se a ela. Doravante os surtos libertários virão das periferias ou de vozes proféticas. A longa história de Igreja exibe-nos diante dos olhos série inumerável de homens e mulheres que lutaram e até morreram pela defesa da liberdade.
Na modernidade cultural explodiu a subjetividade. As pessoas cresceram livres em face das tradições, em nível de consciência, de determinação. Aqui está ponto importante. As tradições passam pelo crivo seletivo da interioridade das pessoas e não se impõem de fora. O “penso, logo existo” de Descartes torna-se um modo de pensar. Vale a tautologia: sou logo sou livre. Esse grito do existir pessoal marca a cultura.
O individualismo constitui-se na ideologia da modernidade e tende só a crescer na pós-modernidade. Na política, a democracia fortalece-se. Na economia, o liberalismo se firma cada vez com maior força. O próprio socialismo pretendeu criar sociedade igualitária em nome da dignidade de cada indivíduo, embora tenha usado da coerção. Em termos de Brasil, a pedagogia de Paulo Freire trabalhou, em tempos de repressão, com coragem, a conscientização e libertação.
Desenhando esse quadro interminável, J. P. Sartre na peça As Moscas [Lisboa: Presença, 1965. 2. ed..] descreve, de maneira poética e dramática, a experiência de autonomia da liberdade. “Quando uma vez a liberdade explodiu numa alma de homem, os deuses nada mais podem fazer contra esse homem". Diante de Orestes, símbolo da autonomia humana, Egisto se dirige a Júpiter: "Sabe que é livre. Então não basta pô-lo a ferros. Um homem livre numa cidade é como uma ovelha tinhosa num rebanho. Vai contaminar todo o meu reino e arruinar a minha obra. Deus todo-poderoso, que esperas para o fulminar?" A peça apologiza a liberdade. Noutro momento, Orestes dirige-se a Electra, que não suporta o assassínio de Egisto e da mãe Clitemnestra e se entrega a Júpiter, e exclama: "Sou livre, Electra; a liberdade abateu-se sobre mim como um raio". E em face de Júpiter: -"Não sou senhor nem escravo, Júpiter. Sou a minha liberdade! Mal me criaste, deixei de te pertencer".
Portanto, faço porque quero. Quero porque sou livre. A liberdade nela mesma não responde a tudo. Que realidade alimenta, em última análise, a liberdade? O amor. Passemos ao passo seguinte.
III. FAÇO PORQUE QUERO, QUERO POR AMO
Vasto campo de reflexão.A herança grega e a cristã desvelam-nos três dimensões do amor.
Amor-eros
O amor se chama Eros. Implica carência. A maneira de trabalhá-la configura formas diferentes de expressão de amor. De que sentimos falta?
Há quem só sente falta de si. Não ama ninguém a não ser a si mesmo. Carece da base primeira para amar a alguém. Esta assenta-se na incompletude do ser humano. E se essa procura se completar só consigo mesmo, a resposta à pergunta soa: faço porque quero, quero porque sinto falta de mim mesmo. Todo outro não passa de uma prolongação do próprio eu. Terrível solidão até o desespero.
A falta pede uma pessoa. Nascem as relações. Lá na origem estão dois mitos belíssimos. Estórias nascidas da alma coletiva da humanidade. Revelam-lhe a profundidade. Tornam-se arquétipos do existir humano. Experiência primigênia do humanum que existe em nós.
Na Bíblia, Adão, ao encontrar-se com Eva, exclama: “Desta vez sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada ‘humana’ porque do homem foi tirada”. Por isso deixará o homem o pai e a mãe e se unirá à sua mulher, e eles serão uma só carne. O homem e sua mulher estavam nus, mas não se envergonhavam (Gn 2, 23-25).
Do lado grego, está o mito do andrógino. Andrógino, o ser humano completo, com pretensões divinas. Quem é completo não carece de nada de humano. Zeus o divide. Aí estão as metades a se desejarem mutuamente.
A teoria evolucionista da colaboração, a psicologia de Winnicott, a sociologia do conhecimento, a filosofia personalista e a teologia trinitária mergulham fundo no ser humano para desvendar esse mistério de reciprocidade intersubjetiva.
Superam-se o darwinismo e o neodarwinismo por outra concepção da evolução. Resiste ao tempo e ao espaço aquele ser que mais colabora, mais associa, mais coopera.
O ser humano necessita radicalmente do outro para construir-se na sua humanidade desde o nascimento até o final de sua existência. Sem cuidado, a criança fisicamente morre. Se lhe oferecem um mínimo para viver, mas se lhe negam o cuidado do carinho, atrofia-se-lhe a dimensão afetiva. O ambiente prossegue o processo de desenvolver-lhe ou de minguar-lhe a capacidade de relacionar-se com o outro.
A filosofia tematiza a natureza intersubjetiva do ser humano. E por fim, a teologia aponta-lhe a criação por um Deus trino que é comunhão. A raiz do ser humano suga na comunhão a seiva do ser.
Essa falta amplia-se para a comunidade. O ser humano comunitário deseja mais. Ultrapassa o individualismo. Sente falta de estar com outros/as, além da cara-metade. Expande-se para viver em comunidade familiar, étnica, religiosa ou outra.
No início do Cristianismo, os pagãos ficaram tocados pelo exemplo de amor entre os cristãos. Eles se diziam: vejam como eles se amam [Tertuliano, Apol. 39]. Esbarramos numa estrutura básica do ser humano como ser de relações. No princípio estão as relações comunitárias para além de um simples outro. Rompemos então o esquema dual para abrir-nos aos humanos que nos vão chegando ao longo da vida.
A carência vai mais longe. O outro aparece como projeto maior, como um ideal a ser defendido no campo social, político. Manifesta-se aí a natureza política do ser humano. Aristóteles define-o com “ser vivo político”. Existe para viver na polis, na cidade, na república, onde ele se realiza como cidadão. Não se trata do simples fato de viver em sociedade, mas de participar da organização política, construindo-a como forma superior de convívio humano além da família e de comunidades. No espaço desse seminário, tal compreensão do ser humano vem a calhar.
Um passo à frente. O ser humano sente falta do Transcendente. Para quem crê, ele se chama Deus. Outros veem nele uma energia. Mesmo ateus, como A. Comte-Sponville, defendem uma espiritualidade sem Deus [O espírito do ateismo: introdução a uma espiritualidade sem Deus. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007]. O ser humano carece de algo que ultrapassa os pequenos sentidos do cotidiano e o lance para o alto. L. Ferry usa a expressão transcendência na imanência para traduzir algo dessa carência humana radical, embora se confesse, também ele, ateu [L. Ferry: L’homme-Dieu ou le Sens de la vie. Essai. Paris, Grasset, 1996].
Amor-phylia
Amor deixa o campo da carência e espraia-se pela amizade, pela alegria da presença de outro. Os gregos falam de phylia que está na etimologia de muitas palavras conhecidas. Já não se restringe à mera falta. Avança para o gozo, o regozijo. Mas de quem? De novo, as quatro direções do amor se revelam.
Alguém se alegra unicamente consigo. O eu lhe oferece fonte de gozo, de alegria. A fonte de prazer vem-lhe do espelho. Narcisamente se sente feliz de ver-se retratado em tudo que contempla. O seu eu se infiltra em todas as realidades e nelas somente lhe aprazem os traços do eu. No fundo, a amizade já não merece tal nome, pois não sai para fora do eu.
Ela se realiza de outra forma. A fonte de gozo vem da presença de outra pessoa que não eu. Vai além da falta. O simples encontro gratifica. O outro se põe diante na gratuidade do estar-aí. Sem mais. Não vem cobrir nenhuma falta, como tal, mas simplesmente lubrificar de festa a vida. Merece o nome realmente de amizade. E sobre ela multiplicam-se os discursos, abundam as experiências e exemplos. Guardemos simplesmente a gratuidade da presença.
Mais um passo. Esse outro chama-se comunidade. Ultrapassa-se a singularidade do amigo. Abrimo-nos a muitos, a inúmeros, a todos os que nos trazem o bálsamo da presença ou que, ao menos, nos possibilitam alargar o horizonte da complacência, da benevolência em direção a eles.
Há aqueles que se alegram na luta por uma causa, por um projeto. Estabelecem vínculo de amizade com o ideal a ser conquistado. Cada passo obtido merece festa, celebração. Unem-se em torno dos mesmos objetivos que implicam pessoas, políticas, estratégias, táticas. O mundo social e político representa para eles o espaço da alegria. Fazem-se capazes de realizar o que Che Guevara formulara de maneira tão simples: “Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás". A causa não se porta como madrasta, nem como fonte de dureza, de rigidez, de violência, mas de alegria e dança.
Só assim se entende, especialmente no mundo dos jovens, como eles mesclam saudavelmente compromisso social e político com coleguismo, companheirismo, comemorações jubilosas. Maio de 1968 e manifestações semelhantes tiveram traços dessa alegria – phylia – em relação à causa maior da liberdade. O conhecido slogan “É probido proibir” traduz bem esse sentimento de liberdade, de leveza. Esse amor permite superar a decepção com a política por causa do baixo nível de muitos políticos. Alegra-se com os verdadeiros defensores da cidadania, da democracia, dos interesses do povo.
Avancemos ainda mais. Alegrar-se com a presença da Transcendência. De novo, sob vários nomes. J. Hick publica livro provocante com o título: Deus tem muitos nomes [Philadelphia: The Westminster Press, 1980]. As experiências de tal amizade enchem uma enciclopédia de místicos, de pessoas devotadas à Transcendência até os ateus acima mencionados que nos falam da sua necessidade. Santo Agostinho imortalizou tal fruição divina, ao definir a felicidade como frui Deo, fruir, gozar de Deus. Santa Tereza, São João da Cruz legaram-nos versos imortais.
Amor-agape
Um último salto do amor. O amor-agape. Nasce da fé biblicocristã. Além de tudo o que se disse, existe o amor da pura gratuidade. A carência e amizade implicam a resposta do outro. Aqui não. Esta pode vir. E trará muita alegria e gozo. Mas não se faz necessária.
Os dois grandes paradigmas, por assim dizer, desse amor se chamam: Deus a criar o ser humano e Jesus a perdoar os inimigos. Do nosso lado, com o pincel do conhecimento, do amor e da práxis desenhamos esses modelos em nossas vidas. A célebre oração de São Francisco pontua-nos com clareza: “Ó Mestre, fazei que eu procure mais consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado”. Está definição concreta desse amor.
Por que a criação o manifesta? Deus nos cria livres, entrega-nos a responsabilidade da liberdade e continua sustentando-nos no existir, amemo-lo ou não o amemos. E teologia no-lo define simplesmente como Amor. E Jesus visibiliza tal amor no perdão aos inimigos.
Na raiz de tal amor estão a disponibilidade, a entrega total de si, a capacidade de perdoar. Infelizmente o ser humano consegue perverter o amor-agape, ao concretizar tal orientação unicamente para si. Consome as energias, dedica-se de corpo e alma, perdoa, mas somente a si mesmo. Claro que já não se faz jus ao amor-agape da tradição cristã. Corrompeu-o na raiz.
Outros vivem tal dimensão na relação interpessoal. As mães, em geral, mostram-se capazes de tal amor aos filhos. Comove-nos ver a cena de mães a agitarem o lenço com lágrimas nos olhos para filhos presos detrás da grade, sabe Deus lá, por que crimes. Lá estão elas fieis ao amor ao filho sem perguntar nem sondar a culpabilidade. Puro perdão.
Em espaço mais amplo, o amor-agape se vive em comunidade. Difícil, mas real. Acolhem-se as pessoas na gratuidade, sem exigir nenhuma retribuição, perdoam-se os atritos e desentendimentos. Sonho de toda comunidade. Só o amor-agape mantém feliz uma comunidade e torna-a lugar de alegria e de beleza.
Ainda mais difícil, vivê-lo no espaço de uma causa, de um programa e projeto social e político. A diversidade das pessoas, a pluralidade de motivações que as reúnem, a natureza mesma da realidade dificultam enormemente essa relação de amor-agape. Esse amor vai tão longe que perdoa os companheiros de luta, aqueles que decepcionam pela traição à própria vocação política. Tem coragem de superar a sensação de impotência em face da monstruosidade do sistema dominante. Sustenta-se, como Jesus na cruz, no meio do fracasso, mantendo a confiança no Transcendente. Assim a derrocada de tantos projetos revolucionários não destrói a esperança. Recorda-se, como Israel, dos momentos de graça do passado para ter força no presente e lutar em vista de futuro melhor. Assim, experiências do passado, tais como, Cuba, a derrota dos EUA na guerra do Vietnam, Maio de 1968, Praga 1967/8, Diretas-já, Médicos sem Fronteiras, Novos movimentos sociais, nova consciência ecológica, surto religioso, o Fórum Social Mundial, etc. permanecem como centelhas de “outro mundo possível”.
Até em relação à Transcendência, que se revela como puro amor-agape, custa-nos alimentá-lo. Não raro, provações, desgraças inexplicáveis, catástrofes, sofrimentos rondam-nos como dúvida e até revolta contra Deus. Por que Deus permitiu isso comigo? Perguntas infinitas vezes levantadas. E quanto mais nos assediam desventuras, fracassos e outras calamidades, tanto mais nos desafia o amor de entrega, de absoluta confiança em Deus.
São João nos resumiu bem tal amor: “E nós temos reconhecido o amor de Deus por nós, e nele acreditamos. Deus é amor: aquele que permanece no amor permanece em Deus e Deus permanece nele” (1 Jo 4,16). Nesse amor não há temor: “Não há temor no amor; mas o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor implica castigo, e o que teme não é perfeito no amor’’ (1 Jo 4,18). Está a consciência de que amamos, porque, no fundo, o amor primeiro de Deus antecede o nosso amor e o sustenta. “Quanto a nós, amemos, porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4,19). O amor de Deus opera amor.
Paulo cantou esse amor, em belíssimos versículos, com inúmeras qualidades: paciente, benigno, não invejoso, nem orgulhoso, nem soberbo, nem descortês, nem interesseiro, nem irritadiço, nem rancoroso, antes tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo tolera. Enfim, esse amor nunca acabará (1 Cor 13, 1-8).
Conclusão
Por que faço o que faço? Por muitas razões. Expus algumas. Toca-nos refletir e perscrutar a mente, o coração e analisar a práxis. Só assim conheceremos o segredo do agir. Oxalá cheguemos a esse último nível do fazer: na liberdade e por amor.
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A FAMÍLIA EM TRANSFORMAÇÃO
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