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Publicado por Jblibanio em 29/10/2009 (24659 leituras)
DIVINA PROVIDÊNCIA:
reflexão teológica
J. B. Libanio

1. Introdução

O mundo antigo era regido pelo determinismo. As tragédias gregas são exemplares. A moira – o destino – comportava-se como força cega que pairava até sobre os deuses do Olimpo . Nada havia na Antigüidade que lhe pudesse escapar.
A linguagem popular herdou muito do determinismo antigo. Alguém morre, soa automaticamente a frase: chegou a sua hora. Nenhum outro tipo de causalidade é levado em consideração.
A problemática da Providência levanta-se diante da possibilidade do acaso, de algo que parece contrariar um projeto já estabelecido. Na Idade Média, Santo Tomás reabilita o acaso em oposição ao determinismo. Só Deus existe e age necessariamente. Nada existe em relação a Deus que seja por acaso, mas sim em relação às outras coisas (S Th I q 19 a. 6c; 22 a.2 ad 1m; 103 a. 7 ad 2m; 116 a 1c). O acaso só existe nos seres inferiores, contingentes e materiais, mas raramente (SCG I c. 39). Algum efeito pode escapar da ordem de uma causa particular, mas não em relação à causa universal (S Th I q. 22 a. 2 ad 1). O acaso existe no nosso mundo, mas não para Deus. Ele entende a providência como um atributo essencial de Deus. Em relação ao mundo de fora, Deus governa mediante a sua providência”. A providência é o plano (ratio) do governo do mundo (O. H. Pesch, Reflexiones teológicas sobre la providencia a la luz de las ciencias de la naturaleza y del espíritu, in Fe Cristiana y Sociedad Moderna, vol. IV, Madri, Ediciones SM, 1984, 95). Deus não está sujeito às necessidades do mundo, mas cria-as.
O acaso diminui com o conhecimento das leis da natureza (Laplace). Tende a desaparecer. Kant considera a natureza como o reino da necessidade.
A ciência moderna, porém, volta a valorizar o acaso. Clássico se tornou o livro de J. Monod: Acaso e necessidade. O aleatório preside o processo evolutivo e ele se fixa em leis deterministas.
Distingue-se o acaso mecânico, técnico, pontual, como o jogo de roleta. Há um desconhecimento das leis do movimento. Não é um acaso essencial. Não serve para explicar as mutações evolucionistas.
Há um acaso que é remetido a causas reais e à cadeia de causas intrínsecas às coisas. É essencial e consiste numa coincidência absoluta de causas muito diversas, num primeiro momento entre si independentes. Nada permite que elas interajam com necessidade. Nada de antemão fala que estas causas se encontram, mas uma se encontra com a outra. O acaso dos primeiros seres vivos mostrou-se um caso de total indeterminação. Para a ciência, o surgimento da vida e do homem se deve a um “cego jogo de seleção” da evolução molecular. A vida surgiu, mas não deveria ter surgido. O acaso passa a ser necessidade.

2. O recurso ao mito

As culturas e religiões antigas recorreram ao mito para dar sentido à realidade que a circundava. Tanto fenômenos da natureza como experiências fundamentais, como a vida, a morte, o sofrimento, o amor, o ódio, as lutas, desafiam os povos para encontrarem um significado. Assim eles criavam os relatos míticos em forma de lendas, estórias, sagas.
A tradição bíblico-cristã debateu-se desde os seus primórdios com tais mitos, procurando dar-lhes um sentido coerente com a fé monoteísta. Mas conservou muito da estrutura mítica.
Negligenciando a natureza mítica dessas narrativas, facilmente cometemos um duplo equívoco. Ora tornamos históricos esses personagens ou fatos, em vez de captar-lhes o caráter simbólico-real. Ora dogmatizamos, fazendo deles verdades reveladas, quando são expressão de outra realidade. Assim o que era no paganismo considerado falso, na Revelação bíblico-cristã se tornou fato verdadeiro, esquecendo que ambos se referiam a um universo simbólico. Isso significa não entender a profundidade da psicologia e experiência humana, suas necessidades profundas, representações, sonhos, desejos e restos míticos. Não se interpreta bem a capacidade e necessidade humana de criar mitos, historicizando-os ou demonizando-os, em vez de buscar-lhes o sentido profundo.
“O material do inconsciente é eternalizado projetivamente em Deus como verdade revelada. O homem ao falar de Deus, no fundo fala de si e não lhe é permitido sabê-lo (E. Drewermann, Wozu Religion. Sinnfindung in Zeiten der Gier nach Macht und Geld. Im Gespräch mit J. Hoeren, Freiburg, Basel, Wien, Herder, 2001, p. 197s)
Milagres de Jesus dizem mais do significado simbólico do que de uma realidade física. O milagre da multiplicação dos pães tem mais a ver com a alusão a Elias, que socorre a viúva de Sarepta, do que com uma realidade física. Assim se vai fundo na leitura no lugar de permanecer-se numa simples interpretação literal. (E. Drewermann, Wozu Religion. Sinnfindung in Zeiten der Gier nach Macht und Geld. Im Gespräch mit J. Hoeren, Freiburg, Basel, Wien, Herder, 2001, p. 203s)
Diante da linguagem mítica, da “lenda”, cabe a pergunta que tal mito, que tal “lenda” significa de real na nossa vida? E não que aconteceu?

3. Visão tradicional da Providência

O Concílio Vaticano I (1870) resume muito bem essa doutrina.
“ Deus, por meio de sua providência, conserva e governa tudo o que criou, “a qual se estende com vigor de uma extremidade à outra, e governa tudo beneficamente” (Sb 8,1). “E não há coisa criada que fique oculta à sua presença” (Hb 4, 13), inclusive, a livre ação futura das criaturas” (DS 3003).
A Divina Providência torna-se pergunta da vida diária, seja diante dos fatos positivos como negativos. Funda-se na onisciência, onipotência e cuidado de Deus em relação a todas as coisas.
Santo Tomás diz que é um ato simultâneo do entendimento e da vontade de Deus. Pertence às ações divinas imanentes. O ato “ad extra” (para fora de Deus), correspondente à providência, é o governo do mundo que Deus faz por meio dela (S Th I q 14-25; 103-104). O governo do mundo é a execução da providência que é o seu plano (ratio). A providência é, portanto, a razão segundo a qual as coisas são ordenadas ao fim e a qual preexiste na mente divina.
Em termos semelhantes, falamos que tudo foi criado “ad maiorem Dei gloriam” e que existe uma história da salvação. No fundo, falamos do mesmo problema.
4. Outras grandes narrativas seculares

Não só a fé e a religião traçaram grandes narrativas que explicassem a totalidade da existência humana e dos fenômenos que a envolvem.
A filosofia teve e tem a mesma pretensão. Basta recordar o projeto hegeliano do saber absoluto, do marxismo como chave interpretativa de toda a história humana no passado, presente e futuro, das ciências que pretendem desvendar todos os enigmas da realidade, do atual neoliberalismo com o fim da história.


5. Pós-modernidade: crise das grandes narrativas

"Simplificando ao máximo, tem-se por pós-moderna a incredulidade com respeito aos meta-relatos" (J. F. Lyotard: La condición postmoderna, 10)
Mesmo permanecendo a pretensão dos grandes relatos, surge uma desconfiança radical na cultura pós-moderna a respeito deles por parte das ciências e da filosofia. Anuncia-se o fim das "meta-narrações" marcadas pela presença de grande narrador onisciente que detém o segredo da história. É o fim e incrença nas grandes teorias e discursos totalizantes, implícitos e explícitos que explicam a totalidade do real (Deus, razão, ciência). Surge o tempo da pequena narrativa: étnica, cultural, religiosa, ética, estética. Defende-se a multidão desses pequenos relatos.

"Isto não quer dizer que não haja relato que não possa ser crível. Por "meta-relato" ou "grande relato" entendo precisamente as narrações que têm função legitimante ou legitimadora. Sua decadência não impede que existam milhares de histórias, pequenas ou não tão pequenas, que continuem tramando o tecido da vida cotidiana" (J. F. Lyotard, La postmodernidad (explicada a los niños): 31).

A conseqüência maior do fim da "grande narrativa" é o colapso do modelo cultural tradicional, relativamente unitário para dar lugar à pluralidade de perspectivas culturalmente interpretadas, a outras formas e modelos de vida, de pensamento. Enfim, estamos no mundo do pluralismo das culturas, das lógicas e dos discursos. Buscam-se consensos locais, temporais em oposição a projetos unitários e consensos gerais. Facilitam-se o acesso e a escolha ao indivíduo face a essa pluralidade. Em termos pomposos fala-se, como se disse acima, do fim da história (F. Fukuyama).
Cabe afirmar a relevância do papel da mídia neste quadro. Ela incapacita recuperar os acontecimentos, acelera as informações a ponto de romper a órbita referencial das coisas. Produz degradação existencial, reduz a capacidade de maravilhar-se, de entusiasmar-se, de distinguir o importante do que não o é, de gozar intensamente, de realizar experiências que revelam sentido novo.

"Vivo en el número siete, calle Melancolía
quiero mudarme hace años al barrio de la alegría
Pero siempre que lo intento, ha salido ya el tranvía
Y en la escalera me siento, a silbar mi melodía" (J.Sabina)

6. Objeções a respeito da Divina Providência

O grande libelo contra a compreensão tradicional da Divina Providência é a existência do mal. Desde o dilema de Epicuro até as posições de Camus e cientistas modernos, os males físicos e morais parecem contradizer a um Deus onipotente e bom. O dilema de Epicuro exprimia já claramente a questão:
Existe o mal;
Deus pôde evitá-lo e não o fez, logo não é bom;
Deus não pôde evitá-lo, logo não é onipotente.
O cientista prêmio Nobel, A. Kastler, referindo-se ao processo evolutivo em que as vidas se nutrem à custa de outras vidas, afirmava peremptoriamente.
“Estou profundamente perturbado porque não posso aceitar a fé de minha infância. Em particular, a idéia, tão bela como falsa, segundo meu modo de ver, expressa por Cristo, de que Deus é Amor. De modo nenhum posso aceitar isso. Se admito que existe um universo, que um Deus onipotente e onisciente o governa, pois bem, Ele não é amor! A observação do mundo obriga-me a constatar que a vida dos seres está baseada na morte de outros seres, de alto a baixo na escala” (Ch. Chabanis, Dieu existe-t-il? Non répondent, Paris, Fayard. 1973, p.27.)

A. Camus, no romance a Peste, retoma a mesma problemática.:
O médico Rieux do romance de A. Camus, La Peste, diante da morte de criança inocente, rejeita a resposta do jesuíta Paneloux que lhe sugeria "amar o que não podemos compreender". "Não, Padre", disse ele, "o que penso do amor é bem diferente. E me recusarei até a morte a amar essa criação em que as crianças são torturadas".

Somando, portanto, a crise das “grandes narrativas” e as objeções do mal, como pensar a Divina Providência?

7. Nova leitura da teologia da criação

D. Lambert, Ciências e teologia. Figuras de um diálogo, São Paulo, Loyola, 2002, p. 44-57.

A criação e ação de Deus no mundo são freqüentemente, na leitura comum, entendida na relação causa e efeito. Deus agiria à semelhança de nossas ações eficientes, só que com a vantagem de ser onipotente. Interviria no mundo, produzindo efeitos determinados, substituindo a ação criatura. Isso aparece de modo especial no milagre, que é componente fundamental da compreensão comum da Providência e atravessa nosso cotidiano.
A criação é relação pela qual Deus põe o mundo na sua existência pela superabundância de sua vida divina, do amor, do dom, da gratuidade. Estabelece com o criado uma relação metafísica de dependência ontológica e não de causalidade física. Não produz algo a partir de estado físico preexistente, mas faz surgir o mundo, espaço-tempo-matéria sem se fundar sobre nenhuma realidade preexistente. Assim o mundo tem autonomia real, embora relativa Àquele que o põe no seu ser. A criação é uma forma de kenosis de Deus que aceita não ser o único mestre, o único todo-poderoso.
Evita-se assim o panteísmo, que entende Deus identificar-se com o mundo. Supera-se também o deísmo, que vê Deus à margem do mundo depois do ato criativo. Presença, mantém com o mundo uma relação transcendente que o põe permanentemente no ser. Distante, respeita a autonomia das causas atuantes no mundo, já que sua relação com o mundo não é nesse nível, mas no da origem e finalidade, de-onde o mundo vem e para-onde tende. Assim os fenômenos naturais não precisam de explicação direta e imediatamente transcendente. O ser humano é convidado a ser co-criador. Deus não é uma causa entre as outras, mas “causa das causas”: aquela em que tudo subsiste. “Deus como causa, faz que as coisas se façam como elas se fazem” (A. Gesché, Dieu pour penser. IVe partie, Le cosmos, Paris, Cerf, 1994, p. 71).
A sua ação deve ser entendida como apelo que desencadeia a série de causas, cujas possibilidades estão inscritas no cosmos. Respeita-lhe as leis autônomas. Esse apelo de Deus é a vinda à existência, a realização das condições iniciais compatíveis com seu projeto. A ação de Deus no Universo é plural, inova a criação, suscita nas profundidades do pensamento do homem uma idéia que vai orientar suas escolhas.
O milagre assim adquire outro sentido. Visto na perspectiva da física clássica, ele é a superação, suspensão de uma lei universal. Na perspectiva da física quântica, ele é um fato cuja possibilidade é próxima de zero, mas não necessariamente supera toda possibilidade do criado (M. Chalub, Milagres – A Abordagem da Psicologia e da Teologia, in PUC-Rio, Centro Loyola de Fé e Cultura, Magis. Cadernos de fé e cultura n. 40, fev., 2002, p. 15-26) .
Recorre-se para interpretar a ação de Deus no mundo ao pan-en-teísmo.
“Panenteísmo: “Um ponto de vista filosófico que aceita a presença de Deus na natureza e ao mesmo tempo a Transcendência de Deus em relação ao mundo” (Mons J. Zycinski, Three cultures: science, humanities and religious value, Tucson, Pachart Publishing House, 1990, p. 53; cit. por D. Lambert, Ciências e teologia. Figuras de um diálogo, São Paulo, Loyola, 2002, p. 51)

8. Base científica da nova leitura da criação: Teoria do caos

Tenta-se superar um sistema dinâmico e determinístico à medida que ele já não é determinado por meio de relações causais atuantes, lineares, mas por meio de relações que se tornam caóticas. O sistema perde o caminho tranqüilo e ordenado das causas que atuam linearmente, em parte ou totalmente, para seguir um impulso de diferentes interações e de retro-acoplamentos. O observador já não prevê seu comportamento a longo prazo e exatamente. O caos introduz nesse sistema condições totalmente novas de início. No começo aparecem parcas mudanças, mas com o tempo acontecem grandes transtornos. Desta maneira o sistema renova-se muito por dentro. Reordena-se de novo graças ao caos. O caos dissolve não somente as estruturas presentes e mecanismos, desorganizando-os, mas também descobre e testa na fase crítica possibilidades de ordem até então não existentes. Uma delas é selecionada e realizada (A. Ganoczy, Unendliche Weiten. Naturwissenschaftliches Weltbild und christlicher Glaube. Freiburg, Basel, Wien, Herder, 1998, p. 96).
Essa teoria tira a base da concepção tradicional de milagre que fundava para muitos o significado da Providência.

9. Releitura teológica da Providência

Em relação ao mundo material

As ciências descobrem-nos a lógica criativa de Deus inscrita nas criaturas. Estabelecem o duplo princípio biótico e antrópico. Biótico: tudo tende para a vida. Antrópico: a vida tende para o ser humano. Nesse processo evolutivo, há imperfeições, próprias do ser criado. As leis mantêm sua finalidade maior, mas sujeitas a falhas por coincidências contraditórias ou por interferências inevitáveis pela lógica da criação. Aí dentro se situa o limite de Deus, por ele mesmo querido e a ele mesmo imposto.
A Divina Providência, que exprime a vontade de Deus, não se coaduna seja com tudo o que resultou bem no processo evolutivo seja com o que pareceu falhar. O primeiro responde diretamente à finalidade criativa. O segundo responde à impossibilidade de o criado ser perfeito. Portanto, não vem nem da ignorância nem da impotência de Deus. Ele, ao olhar para o resultado geral do jogo criativo, julgou que valeu a pena ter feito, apesar de tantas derrotas parciais.

Em relação à liberdade e graça

Os projetos biótico e antrópico desembocam na Encarnação e na Ressurreição de Jesus. O projeto criativo adquire aí sua maior clareza. O mundo material existe para ser assumido na glorificação do corpo de Cristo, passando pela kenosis da Encarnação e morte de cruz para, terminar na ressurreição. A Divina Providência aqui encontra maior clareza.
Ela dá o último sentido de todas as ações, apesar de Deus não agir mudando as causas naturais, as ações humanas. Aceitar a providência é estar em comunhão com Deus e crer que toda a nossa vida é marcada pela fidelidade de Deus criador e salvador. A providência divina especial em relação ao ser humano se funda no fato de uma ação específica de Deus no surgimento do ser humano. A alma humana não emerge da inércia da matéria no processo evolutivo, porque a liberdade humana é participação graciosa da subjetualidade e liberdade essenciais de Deus diante do mundo (Pesch, op. cit.,115). Emerge, sim, de uma comunicação entre Deus com o espírito humano, chamando-o à existência. Deus vincula-o a si mesmo enquanto único fim satisfatório. Garante-lhe a liberdade diante de todos os bens particulares (Pesch, op. cit.,118)

“Tese 3a: O ato criador específico que fez o homem enquanto tal não deve conceber-se como um ato pelo qual Deus criou ‘primeiro’ o espírito, para entrar ‘depois’ – mediante um novo ato específico – em comunicação com ele, mas como o mesmo ato de entrar em comunicação, no estádio evolutivo no qual o antropóide esteve maduro para tal, fosse qual fosse a data de tal maturação” (O. H. Pesch, Reflexiones teológicas sobre la providencia a la luz de las ciencias de la naturaleza y del espíritu, in Fe Cristiana y Sociedad Moderna, vol. IV, Madri, Ediciones SM, 1984, 94-128, hîc 117)
A permanente entrada em comunicação de Deus constitui o espírito humano, a sua conservação é como uma criação contínua e direção para o fim último.
“Deus, ao constituir o espírito como espírito para a comunicação com o Espírito divino, o constitui com vistas ao fim (último) de sua liberdade à medida que o homem não se subtrai voluntariamente a este acontecimento, (Pesch, p. 120)
Na harmonia da liberdade de Deus com a do homem se desenvolve a providência geral com que Deus dirige todas as coisas para seu fim e governa o mundo. O mundo está subordinado ao homem pelo uso das coisas necessárias para o sustento de sua vida, pela disposição responsável dos bens disponíveis e pela contemplação das realidades que lhe escapam do domínio. Por meio do ser humano Deus governa todo o mundo.
Diante da liberdade humana, Deus aceita o duplo limite. Ele se retira, por assim dizer, duas vezes: uma para que haja a criatura e outra para que ela seja livre e autônoma.
Toda vez que há sucesso na vida humana, o projeto de Deus deu certo. Deus se felicita a si mesmo e nós ficamos felizes. Tem sentido, portanto, atribuir todos os atos livres humanos bons ao projeto providente de Deus.
Quando, porém, a liberdade humana falha, fazendo o mal ou mesmo sem culpa humana há fracasso, não há contradição em relação à Providência Divina. Participa-se do mistério da Encarnação e Paixão de Jesus. Tal realidade insere-se também na ressurreição de Jesus, antecipando-a sacramentalmente. Somente a solidariedade do Criador com o inocente Crucificado permite um pouco de compreensão de tais fracassos. Deus mesmo se identifica com o sofredor, contradizendo a sua incapacidade de sofrer, sua apatia (Ganoczy: 157). Deus sofre o fracasso de seu projeto. Ele e nós sofremos, porque o projeto de vida não se concretiza. São os “limites” da liberdade humana e divina: aquela por fazer o mal e esta por sofrê-lo. Apesar dos fracassos das liberdades humanas, Deus arriscou e julgou bem criá-las.
Deus criou a humanidade livre, cujo grau supremo de perfeição atingiu, ao ser assumida pelo Verbo Encarnado. Todas as liberdades, mesmo nas suas falhas, continuam com uma tendência ontológica transcendental para uma comunhão com a Trindade. Recebem sempre a oferta do perdão de Deus.

Conclusão

Em dois momentos, aparece clara para nós a ação da Providência Divina. O ser humano, ao praticar uma ação boa, realiza esse plano de graça de Deus. Ao pecar, porém, realiza-o pela via do perdão.
A reinterpretação da Divina Providência à luz de uma nova teologia da criação e da revelação evita tanto um secularismo que desconhece a ação de Deus como um intervencionismo de Deus que não respeita a autonomia do criado e da liberdade humana.

Dinâmica
Momento pessoal de reflexão
1. Momento teórico: Formular para si em forma de uma tese o significado atual de Divina Providência.
2. Momento existencial: Qual é o alcance para a minha vida espiritual, sobretudo em relação à oração de pedidos, da nova compreensão da Divina Providência?
3. Momento pastoral: Que dizer às pessoas a partir de uma reta compreensão da Divina Providência tanto nas ações bem sucedidas como nas situações de fracasso e sofrimento?

Momento grupal
Discutir no grupo tanto a formulação da própria tese, como as repercussões pessoais e pastorais da concepção de Divina Providência.

Plenário
1. Cada grupo formule uma única tese como consenso dos seus membros.
2. Ler no plenário as teses dos grupos com eventual comentário do explicitador.
3. Momento para objeções e perguntas.

Bibliografia

L. Boff, Saber cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, Petrópolis, Vozes, 1999.
A. Gesché, Dieu pour penser, IV. partie, Le cosmos, Paris, Cerf, 1994.
A. Ganoczy, Unendliche Weiten. Naturwissenschaftliches Weltbild und christlicher Glaube. Freiburg, Basel, Wien, Herder, 1998
D. Lambert, Ciências e teologia. Figuras de um diálogo, São Paulo, Loyola, 2002, p. 44-57.
A. Torres Queiruga, Creio em Deus Pai. O Deus de Jesus como afirmação plena do humano, São Paulo, Paulinas, 1993.
A. Torres Queiruga, Recuperar a salvação. Por uma interpretação libertadora da experiência cristã, São Paulo, Paulus, 1999.
O. H. Pesch, Reflexiones teológicas sobre la providencia a la luz de las ciencias de la naturaleza y del espíritu, in Fe Cristiana y Sociedad Moderna, vol. IV, Madri, Ediciones SM, 1984, 94-128.
C. Améry, Fin de la Providence, Paris, Seuill, 1976.
R. Frangiotti, A doutrina tradicional da Providência. Implicações sociopolíticas, São Paulo, Paulinas, 1986.

São Paulo – julho 2002
Texto GAP

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