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Concílio Vaticano II: os anos que se seguiram

Concílio Vaticano II

                                               Os anos que se seguiram

J. B. Libanio

                   O Concílio Vaticano II foi um evento histórico datado. Teve o início a 11 de outubro de 1962 e a clausura no dia 08 de dezembro de 1965. Pertence à história. Pesquisas e pesquisas se farão sobre os seus textos, estudando-lhes o processo de redação com as inúmeras emendas até sua forma final, sobre as intervenções escritas e orais, sobre o jogo interno das tendências teológicas, pastorais e burocráticas, enfim, sobre tantos e tantos elementos que o constituíram como magno evento da Igreja católica.

                   Encerrado na sua realização como acontecimento pontual, começa um novo movimento de sua história, que propriamente não terá fim, com maior ou menor influência sobre a realidade que se lhe seguirá. É o tempo da recepção. Expressão teológica que traduz, em termos sociais, a metáfora humana de assimilação que todo corpo necessita em relação aos alimentos externos para continuar vivendo.

                   Aqui se nos abre enorme espaço de consideração. O Vaticano II continua marcando a vida eclesial e para além dela por meio da teologia de seus documentos, pelas instituições que diretamente criou, pelo espírito que gerou, pelos contínuos resgates possíveis de sua riqueza, pelas reações favoráveis ou opostas que ainda provoca, pela força simbólica que significa. Na brevidade do artigo escolheremos quatro pontos.

I. Teologia do Concílio

                   Desde a convocação do Concílio com a criação das comissões preparatórias até a aprovação do último documento, inúmeras pessoas dedicaram-se com denodo ao ingente trabalho da redação dos textos. Obra coletiva, embora se consiga perceber influências marcantes de certas tendências teológicas, de grupos de teólogos ou até mesmo de um teólogo em concreto. No entanto, cada texto foi submetido às críticas de todos os membros do Concílio e de todas as pessoas que quiseram oferecer sugestões. Verdadeira colmeia na fabricação do mel teológico-pastoral dos documentos.

                   Qualquer estudo sério sobre algum documento conciliar necessita refazer o percurso de sua gestação desde o esquema preparatório, as primeiras críticas e as diversas redações com as emendas, assumidas ou rejeitadas, até a última votação. Teve-se o cuidado de indicar as razões porque se aceitavam ou não as sugestões. Por seu meio consegue-se obter maior clareza sobre o verdadeiro sentido do texto aprovado.

         As leituras e interpretações que se seguirão vão debruçar sobre esse tecido variegado e retirar linhas de cores diversas. Sobre detalhes teológicos, sempre haverá divergências de interpretação. No entanto, parece absolutamente claro que a teologia depois do Concílio já não é a mesma. Enterrou-se definitivamente a neoescolástica que reinava nas Escolas teológicas onde se formava o clero católico. Ruiu esse sistema bem estruturado, rigoroso e extremamente formal, ensinado em Latim, que apresentava um conjunto completo de perguntas e respostas fechadas, gerando uma sensação de totalidade, de segurança, de clareza, de rigor. As últimas gerações formadas nessa Escola estão desaparecendo, deixando atrás de si uma quase total ignorância do que tenha sido essa pirâmide teológica que enfrentou impávida o embate de séculos.

                   A problemática moderna que vinha sendo levantada fazia séculos era apenas contemplada no interior desse edifício tridentino. No entanto, foi-lhe lentamente minando os fundamentos. A implosão se fez em poucos anos, sendo a teologia neoescolástica substituída por uma teologia plural, diversificada, menos estruturada e pouco sistematizada. Ganhou-se em atualidade, em variedade de temas e de abordagem, em diálogo com as ciências modernas, em alcance existencial, em repercussão pastoral e força querigmática. As tendências que mais influenciaram o Concílio, até então recessivas no interior da Igreja católica, se fizeram hegemônicas. Os livros escritos tanto antes de Concílio como a abundante literatura posterior, que secundavam a linha de diálogo com a modernidade, ocuparam o lugar dos clássicos manuais escolares da teologia neoescolástica.

                   Uma primeira geração pós-conciliar mergulhou nas águas novas dessa teologia e produziu profunda renovação na pregação, na catequese, no ensino da teologia, na pastoral. Como o tema mais importante do Concílio foi a eclesiologia, começou-se por aí. Paulo VI no início da Segunda Sessão tinha confiado especialmente aos Padres conciliares a tarefa de responder à pergunta sobre a consciência da Igreja, no fundo, sobre o que ela diz de si mesma.

                   A virada se deu na linha da concepção da Igreja como Povo de Deus, como sinal e sacramento do Reino de Deus na valorização de sua base batismal, laical e na sua vocação de presença significativa da graça vitoriosa do Cristo ressuscitado no mundo, na história. Trata-se de uma Igreja que para dentro se entende mais consciente de sua igualdade fundamental em contraposição à organização clerical e que para fora age na atitude humilde de serviço ao mundo. Valoriza-se a Igreja particular numa nova relação com a Igreja universal, garantindo a comunhão entre elas pelo espírito colegial.

                   Mas imediatamente a eclesiologia provocou uma profunda transformação na cristologia, em sempre crescente valorização do Jesus palestinense, diferentemente de uma dogmática centrada na união hipostática. Surgirá excelente série de Cristologias, na Europa, nos EUA, na América Latina. Na compreensão da Trindade vai prevalecer a intuição rahneriana de que a Trindade imanente, das relações entre as pessoas divinas, é a Trindade econômica, de sua presença na história da salvação. A teologia sacramental se enriquece da compreensão da liturgia como celebração do Mistério pascal, do significado profundo do símbolo, do princípio de inteligibilidade dos ritos e sinais, do incentivo à participação dos fiéis. O Vaticano II impulsiona com sua  eclesiologia a teologia ecumênica, a do diálogo inter-religioso e com os não crentes. Desloca-se de uma teologia objetiva e objetal, dogmatista e doutrinal, para uma existencial, hermenêutica e dialogal.

                   Até hoje nos nutrimos de teólogos que estiveram na gestação do Concílio, que lhe continuaram as intuições fundamentais e que avançaram para além de seus ensinamentos, impulsionados por seu espírito de abertura.

                   No entanto, a onda montante da teologia pós-Vaticano não irrigou todos os rincões da Igreja. Arrefeceu sua força penetrante diante da vaga carismática que vem deslocando o interesse para experiências espirituais carentes de uma reflexão teológica ou até resistentes a ela. Produz-se uma literatura de consolo, de autoajuda, centrada na subjetividade e na emoção. Está um limite do processo teológico dos anos que se estão seguindo ao Concílio.

                   Sendo o Concílio fruto de compromisso das tendências divergentes de cunho tridentino-Vaticano I e da nova teologia emergente, não foi difícil a setores tradicionais resgatar dos documentos do Concílio elementos teológicos tradicionais, sobretudo no campo da eclesiologia. Assim estamos de novo diante de conflitos teológicos semelantes aos dos tempos conciliares com a diferença da inversão dos sinais. Lá a teologia moderna era hegemônica e marcou fundamentalmente os documentos conciliares, enquanto hoje ela se rarefaz e em seu lugar se fortalece uma eclesiologia de cunho centralizador e institucional. Em parte isso se fez possível porque a eclesiologia do Vaticano II não conseguiu ser traduzida em instituições permanentes. Em termos jurídicos modernos, ela comportou-se como belos princípios de uma Constituição, mas sem regulamentação e portanto sem efetivação real e concreta. Todo brasileiro conhece perfeitamente tal tensão. Na Constituição brasileira consta o direito de todos à habitação, alimentação, escola, trabalho e os milhões de sem-casa, sem-teto, sem-pão, sem-escola, sem-emprego. E realidade? Assim o Vaticano II teve princípios e sonhos que não conseguiram entrar no leito do rio jurídico e secaram sob o sol do tempo.

 

II. O Sínodo dos bispos e a colegialidade

 

                   A principal instituição eclesiástica pós-conciliar, o Sínodo, como expressão da colegialidade, ficou a meio caminho. Exprimiu já um sinal de comunhão dos bispos com a Sé romana, mas se restringiu a um simples papel consultivo. Os seus resultados permanecem em nível de confidencialidade e terminam num documento de autoria pessoal do Papa com a liberdade de trabalhar, a seu modo, as sugestões recebidas. Com isso, desaparece a colegialidade no sentido mais pleno e de novo predomina o pólo central.

                   As conferências episcopais precederam e sucederam às direções conciliares. Já existiam antes do Concílio, mas assumem depois dele um caráter de universalidade. É o lado positivo de continuação do Concílio. Mas mais uma vez nos defrontamos com a tensão interna existente nos documentos conciliares e na sua efetivação. Aos poucos, conferências que já gozavam de autonomia, criatividade, vitalidade interna e externa sofreram restrições e regressões lentas e continuadas. E as mais novas nunca conheceram um tempo de liberdade e autonomia suficientes para configurar verdadeira consciência grupal, colegial. Os bispos são sacramentalmente ordenados no espírito colegial, mas juridicamente pensados para serem autárquico e assim escolhidos. Criar entre eles uma colegialidade não é algo natural e espontâneo. Supõe esforço continuado e alimentado por uma teologia consistente.

                   À medida que os bispos, que estiveram no Concílio e que beberam lá o espírito, a vivência e a prática colegiais, foram saindo de cena, seja pela morte, seja pela renúncia, substitui-os uma nova geração que não fez tal experiência. Estes facilmente se adaptam a uma visão de Igreja menos colegial e mais diretamente centrada no pólo romano e na autonomia de cada bispo. Assim a colegialidade modifica sua forma de atuação. Inverte-se o movimento que ia na direção de uma liberdade crescente e de uma inculturação consistente das igrejas particulares e dos conjuntos regionais para uma relação direta entre cada igreja, valorizada na sua singularidade própria, e o centro romano. Mantém-se antes a unidade próxima da uniformidade à diversidade e originalidade locais.

                   No espírito colegial, agilizaram-se conselhos presbiterais, pastorais e órgãos semelhantes nas igrejas particulares. Algumas ensaiaram a experiência da Assembléia do Povo de Deus com maior liberdade e agilidade canônica em lugar dos Sínodos diocesanos, previstos e armados de legislação própria. Talvez desponte aí uma luz nova para a maior participação dos leigos e das leigas na vida interna da Igreja particular até o nível das decisões fundamentais.

 

III. Espírito do Concílio: sua força simbólica

                  

                   O Concílio Vaticano é mais que os documentos, do que o evento histórico encerrado. É um espírito, é um novo símbolo da Igreja católica. Cria um imaginário eclesial que adquire força própria e autônoma até mesmo em confronto com alguns textos conciliares. O imaginário seleciona e configura uma representação da realidade em questão.

                   O imaginário foi uma das maiores construções do Concílio Vaticano II. Assim como Trento tinha criado o espírito, a mentalidade, o imaginário tridentino, assim o Concílio Vaticano II o fez. E os imaginários firmam-se melhor quando se contrapõem a outros imaginários diferentes. O imaginário Vaticano II se exprime na sua relação com Trento, com as igrejas evangélicas, com as religiões e com o mundo moderno em toda sua extensão até as formas de ateísmo.

                   Para entender a riqueza do imaginário Vaticano II, necessitamos perceber a oposição a Trento e a tomada de posição em relação às igrejas da Reforma, às tradições religiosas e à modernidade.

                   O imaginário tridentino primou pela afirmação da identidade católica em oposição às Igrejas nascidas da Reforma e aos princípios e práticas da modernidade. Destarte a Igreja católica provocou dentro de si maior coesão interna em torno de três elementos visíveis: o batismo, a confissão externa do conjunto da fé cristã e a obediência à hierarquia e, de modo especial, ao Romano Pontífice. A Reforma introduzia elementos diferentes em sua identidade: sola fide (a fé fiducial), sola gratia (a graça atribuída pelos méritos de Cristo) e sola scriptura (a Escritura lida pelo fiel sob a ação do Espírito). A modernidade postulava a autonomia absoluta do sujeito, uma prática transformadora numa perspectiva de criar dentro do horizonte histórico a plenitude da realidade social humana sem nenhuma Transcendência.

                   A clareza dos opositores permitia também uma maior consciência e nitidez da identidade tridentina. Assim ela criou o imaginário eclesial que alimentou a Igreja católica durante quatro séculos.

                   O Concílio Vaticano II entra no processo de dissolução desse imaginário já em andamento, de modo lento, gradual e progressivo, por obra de fatores que penetravam a Igreja, sobretudo dos movimentos bíblico, litúrgico, da Ação Católica, social, querigmático, missionário, artístico, catequético e de uma teologia renovada. O Concílio Vaticano II entrou na onda de tais movimentos, assumindo-os em seus documentos, seja no teor teórico quanto no prático-histórico. Assim ele começou a construir outro imaginário teológico-pastoral.

                   Viveram-se os anos conciliares e pós-conciliares num clima de novidade, de liberdade, de experiências diferentes, de busca de diálogo com as igrejas, religiões e modernidade. Ambiente de muita esperança e euforia, mas também de ousadia e desmedida. Tudo parecia possível naqueles anos. O pé da história pisava no acelerador e a Instituição eclesial entrava em movimento rápido de mudança. Logo em seguida, surgiram temores, uns fundados, outros imaginados, que levaram a mudar a posição do pé do acelerador para o do freio.

                   Já faz décadas que o clima de novidade e de experiências dos anos seguintes ao Concílio esfriou e sendo substituído por um processo de triagem e enquadramento de algumas experiências selecionadas e sancionadas pela burocracia eclesiástica. Nisso estamos, no momento, à espera de novos surtos de experiências e tentativas de modelos diferentes.

                   Os anos de liberdade e iniciativas inovadoras deixaram marca positiva em muitos espaços eclesiais apesar de alguns refluxos. As celebrações litúrgicas ganharam em vida, em participação, em beleza, em espontaneidade e em criatividade. Com a emergência do fenômeno carismático essa tendência acentuou-se, em alguns casos, até os extremos de recursos midiáticos de pura exterioridade e aparência.

                   O fiel médio adquiriu uma autonomia interior diante de normas e preceitos eclesiásticos que beira o "cisma branco" de um silêncio indiferente sem protestos, mas também sem cumprimento das normas, transgredindo-as com sã consciência até em pontos que a Instituição eclesial considera graves. Há crescente e tranqüila liberdade de consciência a que a autoridade eclesiástica não tem acesso com suas prescrições e exigências de confissão. No entanto, certos novos movimentos eclesiais reagem fortemente contra tal clima, impondo de novo a gravidade e rigor de prescrições da Igreja, no campo moral - pessoal e familiar - e sacramental. Experimentamos momento de choque entre essas duas tendências. Uma silenciosa, por isso menos perceptível, outra mais barulhenta e de manifestações visíveis.

                   A formação do clero passou por vários estágios. Num primeiro, os cursos de filosofia e teologia inseriram-se em Universidades, possibilitando aos seminaristas um contacto diversificado cultural e humanamente. Era o espírito de abertura do Vaticano II entrando pelas portas dos seminários. Depois houve uma volta ao antigo estilo de vida mais reclusa, como instituição total. Puxava o refluxo da onda para o espaço anterior. Nisso estamos para muitos casos, embora surja no horizonte a possibilidade de transformar a teologia num curso reconhecido pelo MEC. Isso trará modificações cujo alcance ainda não temos possibilidade de prever.

                   Mais consistentes parecem as transformações da Vida Consagrada por força do espírito do Concílio. As vidas religiosas ativas despojaram-se de sua veste monacal, assumiram características secularizadas, encontrando na América Latina expressões radicais de inserção no meio popular, com profunda transformação de forma de oração, de trajes, de teor de vida comunitária, de prática pastoral. Também aqui existem movimentações numa linha diferente que conjuga a novidade de formas externas e institucionais com traços tradicionais na pedagogia e disciplina religiosa. São novas formas de vida consagrada que nascem no interior dos movimentos eclesiais de renovação, que se fortaleceram nas últimas décadas. Em termos altamente positivos, o Concílio permitiu que muitas congregações redescobrissem o carisma fundacional no meio de uma indeterminação religiosa criada pelos cânones eclesiásticos.

                  

                            IV. Recepção na América Latina

 

                   Já é um lugar comum entre teólogos da América Latina dizer que Medellín foi a recepção original do Concílio Vaticano II. Surgira por desejo de Paulo VI com a finalidade de afinar a Igreja da América Latina com a teologia e pastoral do Vaticano II e terminou dando um salto qualitativo para além da concepção centroeuropéia desse concílio.

                   Em vários pontos, Medellín prosseguiu criativamente intuições, não muito desenvolvidas, do Concílio. Tanto João XXIII como Padres conciliares, que se exprimiram na voz do Cardeal Lercaro, pensavam um Concílio em que os pobres ocupassem papel importante e a Igreja se transformasse numa Igreja preferentemente dos pobres. No entanto, o que aparece na Constituição Pastoral Gaudium et spes, o texto mais afim a esse desiderato, não correspondeu nem de longe a esses sonhos evangélicos.

                   Medellín navega nesse riacho pequenino, transformando-o depois em Amazonas pela explícita opção pelos pobres para que as igrejas do Continente latino-americano nele voguem seguramente. No Vaticano II eram antes desejos e sonhos, em Medellín se fez realidade e decisão firme. Lá se lançavam as sementes de uma Igreja mais popular, aqui nascem as primeiras comunidades eclesiais de base que encarnam a Igreja dos pobres.

                   O Vaticano II apontou para uma abertura diante do mundo moderno. Esse significava naquele momento economicamente um neocapitalismo com traços sociais, politicamente uma democracia de tintura cristã, culturalmente uma ciência menos arrogante e mais dialogante. Até o ateísmo mostrava-se sensível a um diálogo com a fé cristã.

                   Em nosso Continente, imperavam um capitalismo selvagem, regimes militares autoritários, uma cultura burguesa dita católica, sem a verdadeira seiva profético-cristã. Portanto o diálogo não podia vestir-se da inocência nem da suavidade do diálogo europeu. Teve que tomar um caráter virulento de embate com forças de opressão. Tanto mais difícil foi a vivência do Concílio Vaticano II nessa nova perspectiva que se invocavam precisamente ensinamentos seus de tolerância para combater a agressividade crítica da Igreja da libertação. Na Europa, o ateísmo dialogava com a fé cristã. Aqui a dominação, com túnica católica, não entendia como dialogar com correntes teológico-pastorais da libertação que lhe negavam a verdade cristã.

                   A recepção latino-americana do Vaticano II conflitou com uma recepção dita católica, mas que excluía a dimensão de libertação. Punha reparos numa consideração demasiado otimista e tolerante diante da modernidade que escondia sua face econômica de dominação e só ostentava o lado sorridente da democracia e da cultura pluralista, dialogal.

                   A interpretação libertadora do Concílio Vaticano II fez história na América Latina em termos de teologia, de estruturas de Igreja, de práticas pastorais. A teologia chamou-se da libertação, as estruturas eclesiais foram as comunidades de base, as práticas pastorais se desenvolveram no campo da leitura militante da Escritura com os círculos bíblicos e nas pastorais sociais, no interior de movimentos de luta e reivindicação populares.

                   A teologia da libertação só se tornou possível porque houve a virada teológico-antropocêntrica da teologia e o método ver-julgar-agir consagrado pela Gaudium et spes. Sem esses dois pilares nunca se construiria uma teologia da libertação. É filha do Vaticano II com a originalidade de inserir mais fortemente os pobres na compreensão do ser humano e na articulação do método ver-julgar-agir. Não estava em questão um ser humano entendido unicamente à luz do iluminismo europeu, na sua liberdade e consciência, mas também como um ser despojado, excluído e pobre, fazendo ressaltar mais claramente ainda o humano universal. Era o único que lhe restava depois que o desvestiram de todos os atributos conferidos pela proclamação solene dos direitos humanos da modernidade liberal.

 

                            Conclusão

 

                   O Concílio Vaticano II explica os avanços e os retrocessos do momento atual. Os avanços buscaram colher-lhe a força inspiradora. Acreditaram na sua novidade, na força do Espírito Santo. Realizaram a intuição profética de João XXIII de um novo pentecostes para a Igreja. Semearam por todas as partes elementos de vida, de consciência, de liberdade, de pluralismo, de participação, de igualdade, de compromisso social com os marginalidades e excluídos do sistema. Despojaram a Igreja do triunfalismo, do clericalismo, do juridicismo, de sua concepção autártica e auto-suficiente, para fazê-la simples, humilde, pobre, consciente de seus pecados, arrependida, servidora, disposta a dialogar e cooperar com toda força viva e libertadora da sociedade humana.

                   Os retrocessos revelam os temores diante do dinamismo propulsor que está a dissolver muitas estruturas emperradas e incapazes de responder-lhe a vitalidade. Freiam as iniciativas, retornam ao centralismo tricêntrico do pólo romano, diocesano e paroquial, controlam as doutrinas, dificultam as comunhões com outras igrejas cristãs, temem a perda da identidade cristã no oceano das religiões, restringem os espaços de liberdade e participação dos leigos, especialmente da mulher, vigiam mais de perto o alinhamento doutrinal e pastoral dos bispos tanto nas escolhas como no exercício de suas atribuições, cerceiam vôos mais altos das conferências episcopais receando rupturas da unidade católica, insistem na visibilidade midiática da Igreja em resposta à onda neopentecostal evangélica na esperança de estancar a sangria de seus membros para aquelas igrejas.

         O momento atual caracteriza-se por um compasso de espera, já que se encontram, numa mesma arena, os avanços e os retrocessos do Vaticano II. O futuro a curto prazo não parece claro. Embora se aposte, a longa duração, no vigor do espírito inicial do Vaticano II, as reações de reordinamento e redirecionamento têm força e consistência.

         De um lado, o espírito do Vaticano II, em busca de novas experiências, de responder melhor à contemporaneidade dos problemas, prossegue seu caminho. Há inúmeros sinais que apontamos. O Concílio Vaticano II capitalizou um acúmulo de forças inovadoras de pelo menos dois séculos. E tal correnteza não se detém com simples tabique rústico.

         Doutro lado, crescem temores de que a Igreja católica perca a identidade, se esfacele, rebaixe as exigências cristãs, assumindo o "espírito do mundo" no sentido joaneico. Sem chegar ao paroxismo do bispo francês Lefebvre para quem o Concílio Vaticano II foi uma traição teológica, assumindo o espírito da Revolução Francesa, de J.- J. Rousseau, circulam opiniões de que o pós-Vaticano II frustou os sonhos de João XXIII e Paulo VI, encaminhando a Igreja por vias erradias de um humanismo horizontalista, sem Transcendência.

                   Em 2004, recordamos com muita gratidão a figura de K. Rahner no centenário de seu nascimento. Ele foi um dos teólogos de maior influência na tessitura dos textos conciliares. No entanto, no final do Concílio, numa primeira Conferência, comparava toda a atividade da Igreja com seu gigantesco aparato ao esforço de se retirar 0,14 gramas de rádio de uma tonelada de minério de urânio. Não obstante paga a pena fazer-se tal esforço. E é esse rádio da fé, esperança e amor que queremos, ao descartar a ganga impura de pedras. O mesmo teólogo continuava dizendo que tudo na Igreja só existe para despertar no coração dos fiéis a fé, a esperança e a caridade. Em outro momento, nos premunia do risco de engessar e fossilizar rapidamente os documentos, não permitindo que eles sinalizassem um caminho a ser percorrido e a ser criado.

                   Nesse ano de comemorações do 40o aniversário de sua clausura, a atenção deveria voltar-se para ir além dos textos na captação do espírito que ele quis criar no interior da Igreja: de liberdade, de enfrentamento com os problemas que estão sempre a surgir, de experiências novas e criativas, de participação e comunhão, de busca de comunhão com os irmãos das Igrejas evangélicas, das Tradições religiosas, de outras visões ideológicas em torno de valores éticos universais. O espírito do Vaticano II prepara-nos para viver um mundo pluralista, de diálogo, de tolerância, de respeito à autonomia das pessoas.

                   Numa palavra, o Concílio Vaticano II é, ao mesmo tempo, um término de longo processo de diálogo da Igreja católica com as da Reforma e com o mundo moderno, e de começo de uma nova caminhada para tempos de uma humanidade de mentalidade universal e cósmica. Estamos nos inícios desse novo paradigma. Que o Espírito nos acompanhe nessa nova viagem, onde não faltarão riscos e belezas, medos e destemor, dores e alegria. Sobretudo é o momento de anunciar a esperança e de espreitar a nova aurora que surge, na poética expressão de Jean Delumeau. Não há noite tão longa que não termine no amanhecer.

[Artigo a ser publicado em Vida Pastoral, 2005]


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