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Segundo volume

Este é o segundo volume com 62 homilias do Pe. João Batista Libanio na paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, Vespasiano (MG).

"Uma de suas características é o bom humor que partilha, em especial nas palestras e homilias por esse mundo afora... Esse bom humor, que não abre mão da visão crítica e da inquietude por mudanças, talvez seja fruto de seu contato permanente com nosso povo, que sabe também fazer sua teologia, que tem seus olhares e suas inspirações proféticas..."

 

Eduardo Machado

 

 

Homilia 38 p. 102

SINAIS DE MORTE E RESSURREIÇÃO

NO AMOR (Jo, 11, 1-45)

É um milagre cheio de pormenores. Agora vem a grande metáfora deste milagre. Para mim, é uma metáfora da vida humana, é uma parábola do nosso existir.

Quem foi que morreu? Morreu o amor. Por que o amor? Porque Lázaro era amado por Jesus. Maria e Marta eram amadas por Jesus. Eles também amavam a Jesus. Morreu o amor. Mas antes de morrer, ficou doente e disso avisaram-no: "Aquele a quem tu amas, está doente". É como se alguém dissesse ao esposo, à esposa, ao namorado ou à namorada, ao amigo: "Aquele que tu amas está doente de falta de amor. Aquele que tu amas começa a vacilar, está doente. Parece que o amor está titubeando". Passados alguns dias, o amor morreu. Mas Jesus não recuou, esse o grande problema. Porque não tem volta - o amor morreu. E segue aquela frase bonita de Marta: "Se tu tivesses estado aqui, ele não teria morrido". Quem é esse tu, que se tivesse estado lá, não teria deixado morrer o amor? No milagre, é Jesus. E na parábola de nossa vida, quem é esse tu que, se tivesse estado lá, naquele momento em que o amor estava bruxuleando, estava falhando, ele não teria morrido? Quem é esse tu? Ele é o símbolo, é o mistério, é a transparência, é a gratuidade. Vamos passar um por um.

É o símbolo. Se na relação entre os dois, o símbolo estivesse presente, o amor teria vencido, não teria morrido. A morte do símbolo é a primeira doença do amor. E, logo em seguida, ele morre também. Por que o nosso amor precisa de símbolos? Porque o símbolo faz o nosso amor ser bonito. É o símbolo que colore o amor, que o arranca da vulgaridade, da sua materialidade, do seu egoísmo, da busca sôfrega de prazer, do agarrar e pegar o outro, do segurar e possuir o outro. O símbolo é divino, é delicado. O símbolo é a ponte para a Transcendência. Que diferença quando um namorado chega perto da namorada e traz uma rosa e quando simplesmente a agarra como se fosse uma coisa! Percebam a diferença! O símbolo quer nos lembrar que somos seres simbólicos, vestimos tudo de símbolos. Como a nossa roupa. Esse símbolo roxo da minha túnica quer dizer que nos aproximamos da dor. O símbolo das toalhas, das velas acesas, que às vezes bruxuleiam e até apagam para dizer que a nossa fé pode ser levada pelo vento e desaparecer. Vivemos cercados de símbolos para que lancemos pontes para o Transcendente. Arranquemos os símbolos e seremos animais! Vocês já viram uma vaca simbólica? Já viram um cachorro ter símbolo? Nós, não. Precisamos de símbolos, porque quando morre o símbolo, morre o amor.

E quando morre o mistério? Mais profundo ainda. Quando morre o mistério, aí morre tudo. "Senhor, aquele que tu amas, está enfermo". Senhor, aquele que 40

tinha amor, agora já não acha graça no amor, não acha nenhuma beleza em nada. Perdeu o encanto. Ficou plano, como uma quadra de basquete, onde todos pisam, sujam, não tem profundidade nenhuma. Não tem a profundeza das águas dos oceanos, não tem a beleza de um mar, a grandeza de uma montanha, mas tem a planura das coxilhas gaúchas, onde os olhos se perdem na monotonia. Quando o mistério acaba, acaba o amor. "Senhor, aquele que tu amas, está enfermo. Aquele que tu amas, morreu. Se tu tivesses estado aqui, ele não teria morrido!" Se o mistério estivesse nas nossas relações, se o mistério permeasse os nossos olhares, se o mistério guardasse os nossos encontros, nossos amores não morreriam tão facilmente. Não nos separaríamos tão facilmente. Depois de um, dois anos de casados, vem uma moça chorando, me dizer que no namoro era tão diferente, no noivado era tão diferente. Acabou o mistério, porque não havia mistério. O mistério é eternidade. Não acaba. O mistério, eu dizia hoje na aula de Teologia, é aquela realidade que quanto mais conhecemos, mais queremos conhecer, porque nos seduz, nos atrai. Por isso queremos sempre conhecer mais. Quando alguém não quer mais conhecer outra pessoa, quando cansa daquela pessoa, é porque morreu-lhe o mistério. Uma pessoa é sempre novidade para nós. Um filho pequeno é sempre surpresa para a mãe. Quando uma criancinha pequena já é enjoada para a mãe, quando ela já não suporta o seu choro, a criança cessou de ser mistério para essa mãe. Morreu o amor. Também de mãe, também de pai, morre o amor. Todos os amores humanos morrem quando o mistério não os atravessa, não os perpassa, não os envolve, não os alimenta, não os fertiliza.

Morreu a transparência. Outra morte terrível. A transparência é a possibilidade de eu falar a verdade. Não ter que esconder nada. Quando dois se amam não precisam medir as palavras. Se não podem dizer certas coisas, porque senão o amor morre, já morreu há muito tempo. Não precisam esperar, porque a morte já veio. Falta só aquilo que Marta disse: "Já cheira mal". Só falta o fedor, porque a morte já aconteceu. Há muitos amores que ainda não cheiram mal, porque ainda não passaram os quatro dias da corrupção. Quando passarem, sentirão o cheiro desse amor morto. Por isso as pessoas se separam, passam do amor ao ódio. Quantos casais, depois de poucos anos, não podem nem se ver? Amaram-se, geraram vidas e, de repente, não se olham mais. É exatamente isso: ninguém quer ficar com um cadáver em casa, porque cheira mal. Como Marta é inteligente! Ela percebeu que o amor morto cheira mal.

Mas Jesus vai mais longe. Ele sabe que o amor, o mistério, a transparência, a transcendência podem ser ressuscitados. "Se creres, Marta, teu irmão viverá!" O que é crer? Na etimologia, crer é dar o coração – cor-dare – entregar o coração. O amor só ressuscita quando os dois, de novo, se amam transparentemente, mistericamente, não misteriosamente. Mistericamente, se olham nos olhos e aí se entregam de novo. Renasce o amor. Soa a voz de Jesus: "Lazare, veni foras!" 41

Lázaro, saia para fora! Saia, amor morto! Saia pelo olhar, pelo gesto, pelo toque, pela palavra, pelo carinho, pelo abraço. Saia, volte, reapareça! Essa voz de Jesus é capaz de arrancar o morto do túmulo. Aí diz Marta: "Senhor, eu creio que tu és a ressurreição e a vida!".

Que vocês se encontrem com o Senhor, quando o amor morrer, porque Ele é a ressurreição gratuita. Amém. (12.03.05)

RESPEITO À INDIVIDUALIDADE  (Mt 16, 21-23)

 

Esta passagem parece até um pouco escandalosa. Jesus, por tão pouco, chama Pedro de Satanás. Isso merece uma reflexão mais profunda, porque a palavra de Pedro é o que todos nós também queríamos. Ele não queria que Jesus sofresse, porque o amava. Portanto, Pedro não disse nada de mal. Ele não queria nada de mal para Jesus. E por que Jesus o chama de Satanás? Essa é a pergunta. Se Pedro dissesse que iria matar os inimigos, Jesus estaria certo. Mas a admoestação de Pedro foi das mais inocentes. Nenhum de nós vai querer que um filho, uma esposa, um marido, um amigo vá sofrer, ser caluniado, ser preso. E quando Pedro diz isso, Jesus o chama de Satanás. Alguma coisa deve haver por trás desse Evangelho, que não parece tão claro.

            Primeiro, a palavra é Satanás, depois pedra de tropeço, depois diz que Pedro não entende das coisas de Deus. São as três razões que Jesus usa para chamar a atenção de Pedro.

            Quando é que nós somos Satanás? Satanás é o mesmo que Lúcifer, aquele que carrega luz, portanto, que ilumina. Jesus nos alerta que, em muitas situações, nós queremos ser luz para outra pessoa. Queremos forçá-las a tomar um caminho, sendo que todos têm direito de seguir o caminho que quiserem e não o que indicamos. Aí somos Satanás. Quando a mãe quer forçar o filho a seguir uma vocação qualquer, porque ela sonhou, ela é Satanás. Pode ser um desejo dos seus mais belos sonhos. E por que Satanás? Porque não devo forçar alguém a ir por um caminho que não queira. Não que seja bom ou que seja mal, mas por não ser o caminho daquela pessoa. É essa sensibilidade que precisamos ter. Nós somos anjos de luz, não quando forçamos alguém a seguir a caminhada, mas quando deixamos a pessoa, ela mesma, descobrir o caminho, e aí sim trilhar. Se Pedro tivesse dito: "Jesus, siga o seu caminho, aquele que você descobriu diante de Deus, de sua oração. Eu estarei a seu lado". Aí Jesus teria dito: "Pedro, você é luz, você é anjo!".

            Nós somos anjos quando nos colocamos ao lado das pessoas, em qualquer situação. Seja filho, filha, amigo, amiga. Eu estarei a seu lado. Pode ser em Moçambique, para pegar doença. É convocação. Eu estarei ao seu lado para apoiá-lo. Não vou ser Satanás para alertá-lo do perigo, para desanimar o amigo. Portanto, muitas vezes, aqueles a quem nós amamos são Satanás.

            Segundo. Jesus diz: "Você é pedra de tropeço". Isso quer dizer escândalo. Que é pedra de tropeço? Você vai andando por um caminho, jogam uma pedra, você tropeça e cai. Pedro não queria que Jesus caísse nunca. Naquele momento, em que Jesus queria começar a sua caminhada, é como se Pedro interferisse e se colocasse no meio, impedindo-o de seguir. Quantas vezes nós somos pedras de tropeço para as pessoas, porque entramos em seu caminho e não as deixamos seguir a sua vocação? Quantos pais impedem os seus filhos de seguirem uma vocação religiosa ou profissional, influenciam para um lado ou para outro? Quantos sugerem, condicionam?! Esses são Satanás, são pedras de tropeço, porque não têm o ouvido de Deus. Quando é que a gente tem ouvido de Deus? Quando temos o ouvido da liberdade, da diferença, da originalidade. Quantos pais e mães têm dificuldade de aceitar que seu filho é diferente, e às vezes as escolhas são chocantes, dolorosas, escandalosas?! Querem forçar, impedir e aí Jesus diz: "Você não tem o ouvido de Deus". Porque você só ouve a voz da vizinha, das comadres e não ouve a voz que nasce do coração de alguém, que brota dos seus desejos, de seus anseios mais profundos. Se Mônica (*) tivesse forçado seu filho em seu momento de desvario, talvez ele nunca tivesse sido Santo Agostinho. Ela esperou, chorou, esperou.

            Termino com uma metáfora. Uma vez Alceu Amoroso Lima (**) andava afastado da fé cristã e ele disse a um famoso jesuíta da década de quarenta - Leonel Franca - um dos grandes luminares da fé no Brasil: "Por que você não fez nada quando me viu afastado, apenas esperou?" E ele respondeu: "Toda vez que quisermos abrir o casulo antes que a larva tenha força suficiente para rompê-lo, ela morrerá". É preciso saber esperar que a larva se fortaleça, rompa o seu próprio casulo, e saia essa belíssima borboleta voando para o infinito. Amém. (31.08.02)

 

            (*) referência a Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho

            (*) intelectual carioca, membro da Academia Brasileira de Letras

 

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(Todo valor recolhido dos livros vendidos é revertido para atividades sociais e manutenção do site jblibanio.com.br. O grupo de amigos e admiradores de Pe. J.B. Libanio é uma organização sem fins lucrativos e comprometida com a Evangelização para mais servir e amar.)


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