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Quarto volume

"De modo simples, mas profundo, Pe. Libanio consegue aliar a teologia especulativa, o conhecimento exegético dos textos com a prática vivencial, fruto de um trabalho de base que já vem desenvolvendo há vários anos. Por isso elas ficam tão "saborosas" de se ler e de orar. Acredito que aí está o seu sucesso.

Ao nos perguntarmos como se cumpre hoje a palavra, como ela atua hoje, salvando e libertando, vemos que como antes, Deus age através de sinais. Esses sinais, como ensina o quarto Evangelho, são ações libertadoras que mostram a presença redentora de Deus, sua presença atuante de um modo real, mas ainda oculto. Um desses sinais libertadores é esta publicação.

O que aconteceu foi a realização da parábola do grão de mostarda, que se tornou uma grande árvore".

 

P. Roberto Albuquerque, SJ

 

 

O PERDÃO QUE NOS RECONSTRÓI

(Mt 18, 21-35)

 

Já no domingo passado, começávamos a falar sobre perdão. Eu continuava a refletir e perguntava por que o perdão é tão difícil? O perdão cura a nossa dimensão animal. Todos nós somos animais e entre os animais há esse grande processo primitivo. Lá atrás, há dois, três milhões de anos eram símios que andavam por essas árvores e carregamos essa tradição animal. O animal não conhece perdão. Açulado, provocado, reage violentamente. Com esse um milhão e quinhentos mil anos de humanidade, ainda não domamos suficientemente a nossa natureza animal. Ainda somos muito animais. Aí está porque não perdoamos. Primeira simples, direta, escancarada, vergonhosa razão. O animal não perdoa. Quanto mais animais formos, menos perdoaremos. Precisamos guardar isso na cabeça para não começarmos a andar de quatro por aí. Muita gente não perdoa nada e isso é próprio do animal. Guardemos isso! Se quisermos sair um pouco dessa nossa condição e abrirmo-nos para horizontes mais humanos, vamos entender mais o perdão. Mas mesmo assim é difícil, mesmo para seres inteligentes e racionais que somos.

Por que é difícil? Primeiro, porque nós somos cultura. O que quer dizer isso? Nós somos soma do que vivemos, do que vemos e ouvimos. A cultura nos envolve como o oxigênio, e não nos damos conta dela, a menos que paremos e reflitamos. Do contrário, não nos damos conta. Vocês vão ao supermercado vêm as coisas e pagam depois, compram um carro e começam a pagar alguns meses depois. Já pensaram o que realmente significa isso? Eu faço alguma coisa, e parece que no futuro não haverá cobrança. Depois eu me arrumo. Há entre nós uma divisão de irresponsabilidades. Isso passa todo dia pelos programas, pelas propagandas, pelas casas comerciais. Nós fazemos e não precisamos pensar no amanhã. Ora, o perdão só existe se eu tenho visão de amanhã. Quem não pensa no amanhã, não precisa perdoar. Para que perdoar se não existe o amanhã? Por isso não perdoamos. Lentamente, perdemos a dimensão das conseqüências dos nossos atos. O perdão é refazer alguma coisa que, de fato, escapou da nossa mão, já não é nosso. Ora, se tudo é nosso, não precisamos perdoar. Mas nem tudo é nosso.  

Mais ainda. Olhem o que passa em nossa vida. Nós temos mais e menos. Muitas vezes preferimos esse mais imediato, mesmo que mais tarde venha o menos. Isso vai mudando a nossa capacidade de reflexão sobre a realidade. Para ficar mais completo, vou dar outro exemplo. Um problema conjugal. Há uma briga, onde um quer dominar. Fecha a cara e fica fazendo aquela guerrinha toda para vencer. O que é vencer? Vencer é querer agora, é não pensar na conseqüência disso amanhã. É por isso que não se perdoa. Perdoar é ter que pensar que alguma coisa virá depois. Quando alguém se entrega a um prazer imediato, de fumar, por exemplo, o câncer virá daqui a vinte anos. Quando ele chegar... que importância tem? Então fumamos, sabendo que amanhã pagaremos um preço. Bebemos muito, apesar de sabermos que amanhã poderemos ter uma cirrose. Preferimos o mais do prazer, mesmo prevendo o menos gravíssimo. Só que esse menos é amanhã e o amanhã não existe no nosso horizonte moderno. Já não dizia o Renato Russo que devemos amar como se não houvesse amanhã? E se nos pusermos a refletir, de fato não existe amanhã. Vocês não cantam isso russamente? Se não temos amanhã, então para que perdoar? Vamos brigar porque só existe o agora. Mas se existe amanhã, as coisas mudam muito.

Vamos imaginar que eu tenho um fio e eu dou um nó nesse fio. O barbante está com um nó. Eu posso desatar o nó e o barbante volta exatamente como estava. As nossas ações não são assim. As nossas ações, quando desfeitas, não voltam a ser como eram. Eu posso desatar o nó que eu fiz, mas as ações escapam das minhas mãos. Quando eu dirijo a palavra a uma pessoa, essa palavra já saiu de mim. Eu já não sou mais dono dela. Não posso refazer, destruir, voltar exatamente ao que eu fiz. Se eu pudesse fazer isso, não precisaria de perdão. Eu te roubei dez, te devolvo dez. Estamos quites. Para que perdão se eu te devolvi exatamente a mesma coisa? Não há perdão - elas por elas. Mas quando eu ofendo alguém, nunca mais eu conseguirei reconstruir, refazer, porque eu não posso arrancar a dor, o sofrimento do outro. Não posso arrancar a humilhação. Estou acompanhando agora um casal que está vivendo uma situação dificílima. Viveram uma situação de violência terrível e a mulher está destruída. O marido não poderá refazer a situação porque a destruiu. A única realidade capaz de reconstruir é o outro perdoar. Se o outro não perdoar, nunca me redimirei, porque eu não sou dono dele. Por isso, precisamos de perdão. Porque nossos atos são maiores que nós mesmos.

É como a água que escorre da minha mão. Quando ela cai, eu já não sou dono dessa água. Pensamos que somos donos de tudo e não somos. Qualquer ato que fazemos escapa de nossas mãos. Entra na história, nesse grande movimento, e já não podemos dominá-lo. Quando fazemos o mal, só podemos pedir perdão, porque não temos outra maneira de refazer o mal que fizemos. Se ofendermos alguma pessoa, será o seu perdão que poderá nos dar o consolo, a alegria, a paz. Mas se essa pessoa não quiser dar, podemos ter certeza absoluta de que o Senhor Absoluto poderá nos dar o perdão. Precisamos de perdão porque muitos males que fazemos não conseguimos desfazê-los. Os nós que damos, não somos mais capazes de desatá-los. Só o perdão de Deus desfaz o que não somos capazes de desfazer. É o perdão do qual necessitamos. Do contrário ficaremos enrugados a vida toda. Podemos ir ao psicanalista que quisermos, deitarmos em todo e qualquer divã do mundo. Nunca encontraremos o perdão, porque não há analista que tenha força de perdoar. Ele usará sua técnica. Perdão é dom, é gratuidade, é amor. É dele que precisamos, é ele que nos refaz, nos recria até do pecado maior que cometemos.

Quando Pedro traiu Jesus, bastou aquele olhar simples de Jesus. Pedro se reconstruiu e se tornou esse grande santo. Se não houvesse o perdão, Pedro estaria enforcado como Judas. Judas não procurou o perdão, enforcou-se. Pedro acolheu o perdão, é santo. Amém. (14.09.02)

 

 

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