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Recensões: BOECHAT, Walter, org.: Mitos e arquétipos do homem contemporâneo  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/16
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BOECHAT, Walter, org.: Mitos e arquétipos do homem contemporâneo. Petrópolis, Vozes, 1995. 198 pp., 21 x 13,5 cm. ISBN 85-326-1580-5

 

                O livro reúne conferências proferidas nos anos de 1993/1994 numa promoção do Instituto Junguiano do Rio de Janeiro em conjunto com o Instituto Cultural Cesgranrio. Como acontece com tal tipo de publicação, que agrupa diversos autores, o estilo, o vulto, o valor variam. No entanto, mais da metade dos textos é da lavra do próprio coordenador da publicação, W. Boechat. Ele, além da formação em Medicina, graduou-se no Instituto  C. G. Jung de Zurique, Suíça. No primeiro texto seu do livro, em estilo coloquial, começa a reflexão sobre os “arquétipos e mitos do masculino” a partir de uma experiência de dinâmica, feita só entre homens,  num Congresso Internacional, realizado em Chicago. Trata da questão do “masculino”  em relação ao movimento feminista na chave junguiana do “animus/anima”. Recorre aos mitos para descrever as possibilidades do masculino, ie. seus arquétipos. Faz uma “psicomitologia do masculino”. Para isso, analisa a cosmogonia de Hesíodo da fantasia grega. Detém-se no fato do filicídio nos mitos, como revelador do masculino. Aspecto presente no mito de Édipo, mas menos analisado. Aponta a importância de o homem trabalhar conscientemente sua feminilidade inconsciente, manifestada na criatividade, imaginação e sensibilidade. Analisa também os mitos: Don Juan, Puer, trickster (embusteiro), herói, o sábio, etc.

                Em outro texto, Hefesto, o deus da téchne, depois de rápidas pinceladas sobre diversas concepções de mito, atém-se à configuração arquetípica do deus periférico na ordem patriarcal  do Olimpo, a saber o disforme Hefesto, desvendando-lhe os elementos iluminadores da psicologia masculina. Num escrito seguinte, o A. desenvolve o mito de “Atalanta, a Fugidia”, em relação com o processo de individuação da mulher. Refere-se ao fenômeno da “exposição” a que as pessoas rejeitadas são submetidas. No caso do Brasil, há o doloroso exemplo dos meninos de rua. O A. põe-se na esteira de M. Maier, usando o referencial alquímico para interpretar tais símbolos mitológicos que envolvem a Atalanta.

                Prosseguindo o mesmo veio de relacionar mitos e processos psicológicos, W. Boechat estuda o mito “Eros e Psiquè - sob o ponto de vista da individuação do homem”. Começa com rápidos traços sobre a evolução cultural dos “Daimones”. Há algumas imprecisões teológicas no vocabulário e na expressão, ao referir-se a Cristo e à  ‘homoousia” das Pessoas divinas. O que, aliás, corresponde a uma maneira leiga de falar desse tema. Para melhor intelecção do mito, tirado da obra de Apuleio, o A. o biografa em linhas gerais e o relaciona com sua obra e o mito em questão.

                “Perseu e Medusa: O arquétipo da reflexão” é outro estudo de W. Boechat. A saga de Perseu envolve tanto o motivo arquetípico do herói, como o dos gêmeos. Serve para iluminar o  processo de individuação. Nele se deve trabalhar o arquétipo da sombra. No mito, aparecem mais uma vez o motivo da “exposição”e o da “criança”. Desenvolve uma reflexão psicanalítica detalhada e cuidadosa. Um juízo sobre a pertinência de tais elaborações só pode ser emitido por especialistas do ramo. Há elementos que iluminam nossa realidade psicológica, mesmo sem entrar nos nuances teóricos.

                “Os mitos em ‘O Banquete’ de  Platão” merecem também um estudo por parte de W. Boechat. No centro está o tema do Eros, visto sob a perspectiva dos diferentes personagens do Diálogo de Platão.

                Um último texto do mesmo A. trata de “Afrodite, a deusa do amor”. Todo mito de nascimento tem a ver com a origem da consciência. Nesse caso, Afrodite fala do amor que assoma à consciência, da revitalização e atração dos opostos. Significa também o poder civilizatório pelo Belo, já que ela é a deusa do amor e das flores. Ela reina no espaço sagrado de conjunção entre civilização e natureza. O A. continua mostrando toda a riqueza simbólica desse mito.

                O livro contém outros cinco trabalhos de autores diversos. Humberto Braga, de maneira muito sucinta, apresenta os mitos de Prometeu, Dom Quixote, Fausto e Carlitos, o Vagabundo. Relaciona-os com a modernidade. Heloísa Cardoso desenvolve o mito do Graal, como resposta para o homem moderno. Graal é o vaso sagrado da Última Ceia, que recebeu as sagradas gotas de sangue do Salvador. A A. analisa-o em duas chaves de leituras diferentes. Numa primeira, a lenda do Graal surge no bojo do ciclo arturiano. Numa segunda leitura, a lenda é mais antiga e remonta à época de Cristo ou mesmo à de Salomão. O texto estuda os principais símbolos aí retratados na dupla versão. A atualidade de tal mito vem do fato de que vivemos um momento de busca, de crise espiritual. Tal elemento é fundamental no mito do Santo Graal.

                W. Boechat estudou o mito de “Eros e Psiquè” na perspectiva do masculino. Paula P. Boechat o faz sob o ponto de vista da individuação da mulher. Submete-o a uma análise bem detalhada e sugestiva.

                Carlos A. Corrêa Sales também se detém sobre o processo de individuação a partir do “Hino da Pérola”. Este remonta a épocas pré-cristãs, mas a sua versão em prosa se encontra no livro apócrifo Atos do Apóstolo Tomé (O A. usa a grafia Tomás, que, em geral, em português, não é usada para o apóstolo). O A. desenvolve uma reflexão sobre o aspecto gnóstico do mito, ampliando-a para uma compreensão mais ampla da gnose.

                Os diferentes trabalhos relacionam os mitos com os processos psicológicos, sobretudo psicanalíticos. Oferece elementos interessantes para a sua compreensão. Sua leitura supõe certa familiaridade com ambos os mundos da mitologia e da psicologia. Em poucos momentos, os autores aludem a realidades religiosas no contexto do mito. Cabe simplesmente dizer que a Escritura historiciza alguns mitos ou os assume, já não como mitos, mas como linguagem para traduzir realidades históricas e fatos reais. Ultrapassam, portanto, o âmbito das vivências psicanalíticas, pelo qual os autores se interessam nesse livro. Com essas ressalvas, , o leitor poderá tirar proveito da leitura.

J. B. Libanio

 

 
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