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Recensões: ERICKSON, Millard J., Truth or Consequences. The Promise and Perils of Postmodernism  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/9
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ERICKSON, Millard J., Truth or Consequences. The Promise and Perils of  Postmodernism, Downers Grove, InterVarsity Press, 2001, 335p., 22,5 x 15 cm. ISBN 0-8308-2657-2

                Substanciosa obra sobre a pós-modernidade. No início o A. pôs-se três possibilidades de tratar o tema. Uma primeira via abordaria os nuances das diferentes afirmações sobre a pós-modernidade. Seria um nunca acabar. Uma segunda possibilidade consistiria em encaixar a pós-modernidade em algumas afirmações centrais. Cair-se-ia  num estudo vago e geral, não dando conta da variedade da pós-modernidade. A terceira opção, que o A. segue, detém-se sobre  o pensamento de alguns dos corifeus da pós-modernidade, examinando-lhes a posição com certo detalhe, deixando-os falar pela pós-modernidade.

                Antes de tratar dos autores escolhidos – J. Derrida, M. Foucault, R. Rorty e S. Fish -, o livro apresenta uma rápida introdução à pós-modernidade a partir de três esboços, colhidos de J.-F. Lyotard, A. MacIntyre e do casal Nancey Murphy e J. McClendon. Aí já acena para traços da pós-modernidade. Num primeiro lugar, refere-se à crise da metanarrativa do discurso científico, constatada por Lyotard. Em seguida, aborda a crítica à linguagem enciclopedista (referência à maneira da Enciclopédia Britânica encarar a ciência e a teologia) feita pela linguagem genealógica (na acepção de F. Nietzsche) de acordo com A. MacIntyre. Finalmente, expõe os eixos indicados pelo casal para entender a modernidade e distância que a pós-modernidade toma deles: fundacionismo epistemológico na esteira de R. Descartes, a teoria representativo-expressivista da linguagem de Wittgenstein e o atomismo (individualismo) ou reducionismo.

                Preparando mais diretamente a abordagem dos autores pós-modernos, apresenta duas correntes da pré-modernidade: platônico-agostiniana e aristotélico-tomista. Resume magistralmente a pré-modernidade em seis pontos:

1. Há uma explicação geral das coisas em termos de inclusividade com respeito a toda a realidade e ao todo da história.

2. A realidade tem um caráter racional: história, ser humano.

3. A natureza observável não esgota toda a realidade, já que existem entidades importantes jazendo além da natureza.

4. A felicidade e a realização dos seres humanos requerem um correto ajuste a essas realidades invisíveis.

5. O tempo, como conhecemos, não é o todo da realidade.

6. O imutável e o permanente são os mais importantes.

                Em seguida, analisa a modernidade. Escolhe como pensadores significativos da mesma a R. Descartes, I. Newton, J. Locke e I. Kant. No final, faz também um sumário dos traços principais da modernidade, como ele analisou.

1. O conhecimento é considerado ser um bem a ser buscado sem restrição. Ele proverá a solução para os problemas da humanidade.

2. A objetividade é tanto desejável como possível, podendo-se eliminar todo fator pessoal e subjetivo do processo de conhecimento, tornando as conclusões certas.

3. O fundacionismo é o modelo para o conhecimento. Todas as crenças são justificadas por sua derivação de certos pontos firmes de partida ou crenças fundacionais.

4. O indivíduo conhecedor é o modelo do processo de conhecimento,  devendo cada pessoa ter acesso à verdade por si mesmo, mesmo que a verdade, no entanto, seja a mesma para todo mundo.

5. A estrutura da realidade é racional, segue ordenadamente um modelo.

                O A. aponta como predecessores da pós-modernidade a S. Kierkegaard e a F. Nietzsche, que eram vozes contrastantes com a modernidade dominante no século XIX. Elas desembocaram no existencialismo do século seguinte e proveram inspiração para a eclosão da pós-modernidade. Foram dois sinais de alerta da chegada da pós-modernidade.

                A transição para a pós-modernidade é traçada por M. Heidegger, H.-G. Gadamer, o tardio L. Wittgenstein, Th. Kuhn e a sociologia do conhecimento. São autores que combinam elementos da modernidade e pós-modernidade. Na biografia de Wittgenstein isto apareceu claro. Com este capítulo o A. conclui a primeira parte do livro.

                A segunda parte é dedicada ao estudo dos quatro autores-símbolo da pós-modernidade: J. Derrida, M. Foucault, R. Rorty e S. Fish. Apresenta elementos do pensamento de cada um deles, terminando com um sumário crítico-analítico. O leitor tem assim uma visão sintética de cada pensador no referente à pós-modernidade.

                Terminada a exposição suficientemente substanciosa dos autores, o A. faz uma avaliação da pós-modernidade em dois momentos. Inicia salientando os elementos positivos.

                A pós-modernidade aponta para a natureza condicionada do conhecimento por causa da influência do tempo, espaço e cultura na percepção da verdade e de nossas conclusões. Tais condicionamentos pesam na escolha dos temas mais ventilados, na orientação da sua discussão e na sua intelecção.

                Assinala os efeitos das diferenças de pressupostos, que nos escapam com freqüência e que, no entanto, colorem as nossas compreensões. Só é pertinente uma crítica de outro sobre critérios que ele aceite ou que sejam universais.

                Indica os limites do ponto de partida problemático do fundacionismo, que se considera absoluto e indubitável e que daí tira suas conseqüências. Tal raciocínio não funciona na pós-modernidade, que relativa tais pontos de partida.

                A pós-modernidade é aguda em perceber no interior dos sistemas e dos pontos de vista suas contradições, isolando-as e identificando-as. É uma força do pensamento desconstrutivista de Derrida. Sugere o caráter de tentativa dos sistemas e não de completude estruturada.

                Denuncia o uso do conhecimento como poder, ao manipulá-lo para chegar ao próprio fim. Aí está a importância de muitas críticas de M. Foucault.

                Defende a necessidade de uma hermenêutica da suspeita. Sem cinismo, a pós-modernidade pergunta por que interesses a afirmação em questão está informada. Cabe a distinção entra a afirmação e a evidência que a sustenta. É diferente a afirmação sobre um produto de um laboratório isento daquela feita para apoiar a venda da mercadoria.

                A pós-modernidade enfatiza o papel da comunidade em contraposição à individualidade na percepção e compreensão dos fatos e eventos.

                Ela privilegia a narrativa sobre o texto escrito como meio de comunicação cultural para a maioria da população mundial.

                Em outro capítulo, o A. ressume os limites da pós-modernidade. São críticas consistentes que refletem, às vezes,  o outro lado das positividades indicadas.

                Há problemas de coerência lógica. Em primeiro lugar na prática do desconstrutivismo de Derrida. Quando não considerado como método, mas como uma filosofia subjacente, não estaria também sujeito a uma desconstrução?  Ele tem de afirmar que ela é indescontruível. Aceita-se uma exceção num princípio universal. Reflexão semelhante vale da afirmação de Foucault sobre o papel do poder no conhecimento. Se todo conhecimento é baseado no poder  e constituído por, não vale a mesma questão para o pensamento de Foucault? Sobre o condicionamento histórico de todo conhecimento. Então tal reflexão vale do próprio pensamento que se proclama pós-condicionado. Também ele está condicionado pela moda e circunstâncias atuais. A pós-modernidade tem criticado o papel imperialista da filosofia. Mas o papel desconstrutivista, no fundo, também não é tal, ao tornar-se árbitro universal? Quanto à lógica alternativa, advogada pela pós-modernidade em oposição à lógica tradicional, termina ela assumindo um ponto de partida radical da mais tradicional abordagem e não deixando claro em que consiste esta lógica. E, finalmente, o lugar do significado é complicado. O desconstrutivismo não aceita as críticas lógicas por virem de um pressuposto lógico que negam. O desconstrutivismo é inefável. Então não tem sentido queixar-se de que é mal compreendido.

                Outra série de críticas afeta a relação de precedência da fala sobre a escrita, não só temporal, mas lógica. Quanto à linguagem, há críticas tanto por causa da escolha da terminologia, quanto pela obscuridade conceitual.

                Dificuldades práticas são indicadas. Há uma tendência na pós-modernidade em refugiar-se em respostas muito subjetivas. Além disso, autores pós-modernos rompem com os parâmetros acadêmicos e universitários convencionais. As propostas desconstrutivistas não parecem aplicáveis em nível societário. Sabem a certo anarquismo.

                Finalmente, apresenta o A. uma série de observações sobre a praticidade do neopragmatismo de Rorty. A opção de Rorty pela delicadeza em oposição à crueldade e humilhação implicaria o uso de termos como certo e errado em relação à natureza humana. Isso iria contra a própria a reflexão do filósofo americano, que prefere falar de uma comum susceptibilidade do ser humano, diferente do animal,  da rejeição da humilhação e do sofrimento por causa do consenso comunitário ou cultural. E quando tal consenso não existe? Outra questão refere-se à natureza das comunidades que são contingentes e plurais, Nada é inerentemente bom para uma comunidade particular. É o que ela escolhe. Existe o risco de conflitos entre comunidades até o extremo da guerra. Sem verdade objetiva dificilmente se revolvem tais conflitos. Sem o apoio de uma base metafísica para os valores, termina-se defendo uma “ironia privada” e um “liberalismo público”. Finalmente, o neopragmatismo trabalha com um conceito problemático de verdade: o que funciona e produz conseqüências benéficas. Qual é o fundamento dessa visão pragmática da verdade?

                Na última parte do livro, o A. avança temas para além da pós-modernidade. Um primeiro refere-se à natureza da verdade. Entra em debate profundo sobre a concepção de verdade subjacente à pós-modernidade. Ela sublinha o aspecto de a verdade ser condicionada culturalmente, colocando-a sob a influência do poder. Para isso, sugere uma concepção pós-pos-moderna, captando o elemento de objetividade da verdade que atravessa os períodos pré-moderno, moderno e pós-moderno. Conserva, porém, a orientação pós-moderna. Depois continua tratando dos critérios e provas da verdade. Adota uma posição que chama de “realismo crítico”

                Em um capítulo ulterior, o A. propõe a história cristã como metanarrativa em contraposição superativa à pós-modernidade que nega as metanarrativas ou explicações inclusivas de totalidade (all-inclusive explanatinons). Apela para o caráter revelado dessa metanarrativa.

                E termina suas propostas de superação da pós-modernidade no referente à compreensão de comunidade, apresentando o Reino de Deus como comunidade última.

                Conclui o livro com um capítulo sugestivo: fazendo a transição para a pós-pós-modernidade. Aí aponta para sinais da superação da pós-modernidade. Antes de tudo, impõe-se uma clareza sobre os elementos de perenidade da fé bíblico-cristã e das necessidades fundamentais do ser humano a que esta revelação responde, tais como a necessidade de perdão e a incapacidade de prover-se de redenção dos próprios pecados. O Cristianismo diante dessas necessidades pode acomodar-se de tal modo que perca sua originalidade ou pode manter sua estranheza provocadora peculiar. Indica também as características da pós-modernidade que permitem avançar no anúncio da fé cristã: ir para além do lado puramente racional do ser humano, valorizar o conhecimento intuitivo, desenvolver a criatividade e imaginação, perceber o movimento interno da apresentação correta da fé, usar de sutileza e discurso indireto, recorrer à narrativa e dramatização.  A pós-pós-modernidade está a anunciar-se no movimento em direção a valores éticos tradicionais, a outras mudanças culturais, a defecções de quem defendia há pouco o desconstrutivismo. E encerra o capítulo apontando para meios que acelerem o processo: fazer simulações de novas situações, fazer estudo de casos pós-modernos para criticá-los, desmascarar as promessas irreais da pós-modernidade, superar a distinção entre teoria e práxis, ater-se a maior grau de objetividade e orientar a globalização noutra direção.

                É um livro muito consistente. Valioso tanto na exposição honesta, objetiva das posições quanto no rigor em levantar suas críticas. Conduz o processo com muita cautela, perspicácia e processividade. Livro exemplar no gênero que abre pistas para um cristão encarar lucidamente a pós-modernidade.

       

                                       J. B. Libanio

               

               

 

 
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