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Recensões: ENRIQUE Y TARANCÓN, V., MIRALLES, J. et alii: De cara al tercer milenio. Lecciones y desafíos  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/9
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ENRIQUE Y TARANCÓN, V., MIRALLES, J. et alii: De cara al tercer milenio. Lecciones y desafíos. Barcelona/Santander, Cristianisme i Justícia/Sal Terrae, 1994, 176pp., 20,3 x 13,5 cm.   Col. Presencia teológica; 75. ISBN 84-293-1119-X

 

                Vários trabalhos, um espírito. A variedade vem da temática sócio-cultural, teológica e espiritual. A unidade vem da perspectiva crítica, muito articulada com a modernidade e pós-modernidade desde o mundo dos pobres, dos excluídos, dos marginalizados. Aparece um Primeiro Mundo atento ao Terceiro Mundo, não só por um interesse intelectual, mas também por um compromisso de vida e de fé.

                Um leitor do Terceiro Mundo pode até mesmo sentir-se envergonhado, ao ver mais seriedade e compromisso por parte desses escritores espanhóis na maneira de tratarem os seus problemas que os seus próprios compatriotas.

                A apresentação do Card. Enrique y Tarancón chama a atenção para o papel profético da Instituição Cristianisme i Justícia que coordenou esta publicação por ocasião da celebração de seu décimo aniversário de existência. O livro é o resultado de conferências feitas, a modo de balanço das lições dos anos 80 e dos desafios da década de 90, em torno dos eixos acima mencionados: sócio-político, teológico e espiritual.

                J. Miralles destaca alguns traços básicos dos anos 80 sob o aspecto sócio-cultural: individualismo, nacionalismo, capitalismo. Parte do conceito de cultura de G.Rocher como um conjunto estruturado de maneiras de pensar, sentir e agir mais ou menos formalizadas, que, aprendidas e compartilhadas por um grupo de pessoas, servem, de um modo, ao mesmo tempo, objetivo e simbólico, para constituir a estas pessoas numa coletividade particular e distinta. Busca descobrir as lições duradouras da década de 80 sobretudo na Europa depois da queda do comunismo do leste, no esforço de criar seu próprio espaço e nessa nova condição pós-moderna. Destaca três grandes temas: a) crise e ressurgimento do capitalismo e os nacionalismos emergentes nos ex-países comunistas, b) a construção da Europa nos novos espaços e c) a pós-modernidade com sua problemática religiosa.

                O A. relaciona a crise do capitalismo dos anos 70 com a emergência da onda neoliberal na Inglaterra, nos USA e que depois se espraia pelos outros países. O neoliberalismo tem mudado o significado do trabalho, provocado uma crise do valor da solidaridade, reforçado o individualismo e a queda da linguagem das utopias. Por detrás de tudo isto, está a revolução tecnológica.

        Com a queda do sistema socialista nos países do Leste Europeu, explodem nacionalismos de traços étnicos, religiosos e/ou lingüísticos. A Iugoslávia exemplifica tal fenômeno de maneira dramática. Não se pode esquecer também o rebrotar do neonazismo, de racismos, xenofobismo, etc. da pior qualidade.

                O A., como europeu, levanta a questão da unidade da Europa: definição e construção. Em seguida, delineia os contornos, já bastante conhecidos, da pós-modernidade e sua repercussão no mundo religioso. Conclui transformando a reflexão em questionamentos na direção da valorização da sociedade civil, do repensamento do etnocentrismo europeu, duma nova pedagogia de formação, de respostas concretas à crise das grandes utopias.

                J. García Roca, por sua vez, enfoca os desafios pendentes  para os anos 90. Toca pontos fundamentais como o enfrentamento da crescente complexidade no nível das explicações, organizações e direções com a mundialização dos problemas, o seu caracter interativo e portanto a necessidade de soluções nesse mesmo plano. Rejeitam-se as ortodoxias simplificadoras. Paradoxalmente há uma afirmação das particularidades, do local, dos mundos vitais, do comunitário, dos espaços de proximidade com desconfiança da centralização ao lado da crescente globalização. A linguagem macroeconômica permite identificar a crise e tentar superá-la. A busca da felicidade, do bem-estar das pessoas, da qualidade de vida indicam novo clima cultural. Por isso, estão os desafios de levar em consideração os fatores subjetivos, pois se percebem os limites do enfoque sociológico e econômico. Faz-se mister repensar os espaços do Estado e do Mercado, em articulação com o novo espaço da subjetividade, caracterizado pela proximidade, comunicação e personalização. Enfim, desafia-nos a tensão entre o pluralismo cultural e a necessidade da própria identidade cultural. Caminha-se de um momento em que se estabeleciam projetos maiores para valorizar os pequenos projetos, em que se marcavam bem os conflitos para a busca de consenso e intermediações políticas. O A. focaliza no espaço social o recrudescimento dos dois cenários da integração de grupos pequenos e países ricos, de um lado, e, do outro, o da exclusão, da marginalização de grandes maiorias, com os problemas daí decorrentes, sobretudo da vulnerabilidade, da fragilização de tantas realidades sociais até então estáveis. Termina prevendo um tempo em que o sucesso dependerá da conjugação dos protestos-proposta e das propostas-protesto.

                Sobre a temática teológica, J.I. González Faus retoma alguns traços importantes dos anos 80. Para entender tal década, remonta ao movimento do Concílio Vaticano II que pretendeu ser um concílio eclesiológico e desencadeou uma revolução cristológica. Esta recupera a humanidade de Jesus, a identidade de Deus desde Jesus que prega o Reino de Deus, que morre na cruz e assim revela o Espírito, portanto a Trindade. O Concílio manifesta também o caráter ocidental da Igreja. Os anos 80 trouxeram um giro na investigação histórica, passando da problemática do Jesus da história e o Cristo da fé para a da Igreja comunidade histórica e a Igreja da fé. As investigações históricas levantam questionamentos à "traqüila situação" em que até agora vivíamos na Igreja sobre a questão da mulher, do ministério petrino. Problemas pendentes. O A. considera a involução eclesial como fator típico da década passada. Fato assaz conhecido e sofrido. Continua indicando a repercussão de fatores extrateológicos como a questão da "justiça impossível, a "cultura do respirar" no duplo sentido de alienação diante do sofrimento e de defesa de tanta gente que se está afogando. Refere-se à recepção ambígua do Oriente por parte da cultura ocidental, tanto como forma de enriquecimento como de alienação. Destaca também o valor do diálogo e do pequeno quando tem o caráter de sinal. Conclui analisando os três fatores: Europa, América Latina e Oriente. Cabe à teologia na Europa desmascarar a concepção de progresso e da cultura capitalista, que tiveram a Europa como berço, manter-se numa linha de fidelidade à opção pelos pobres (América Latina) e manter o diálogo (Oriente).

                Para os anos 90, F. J. Vitoria, num texto mais longo, vê como desafio seguir as pegadas da justiça. Prefere falar de "sabedoria cristã" em vez de teologia. Vê-a confrontada com os desafios da justiça na sua missão hermenêutica, mas também "terapêutica" no sentido de participar dos sofrimentos do mundo de hoje. Através de uma parábola, do superpetroleiro, evidencia o caráter crítico-prático da sabedoria cristã. Com ela, quis mostrar o risco de vivermos em superpetroleiros modernos que com seus radares não captam os sofrimentos dos naúfragos perdidos no oceano enquanto antes as pequenas barcas os viam e salvavam. O texto bastante pastoral acentuou mais o aspecto exortativo que analítico.

                A terceira parte dedica-se à espiritualidade. J. M. Rambla inicia sua colocação com algumas distinções práticas e úteis sobre as diversas acepções de espiritualidade, assumindo-a em sentido amplo de vida espiritual e clima espiritual. Depois de traçar um quadro sumário e rápido de temas, problemas e aspectos do momento atual, chama a atenção para a gama de injustiças aí envolvida com os compromissos correlativos. A característica fundamental de uma espiritualidade da justiça é seu caráter integrador dos opostos: estrutural/pessoal, longínquo/próximo, luta/reconciliação, etc. O A. manifesta a preocupação de apresentar uma espiritualidade bem concreta e encarnada. Por isso, desenvolve três idéias importantes: o próximo como aquele que está mais perto de nós, a experiência de Deus no concreto e a tarefa não só de derrubar, mas também de construir. Concentra-se depois na tarefa fundamental da espiritualidade emergente, a saber de viver espiritualmente não só nos extremos, nas margens, nas periferias da vida, mas no seu centro (Primeiro Mundo). Lá nos extremos está o lugar privilegiado dos pobres e a favor dos pobres, marginalizados, drogados, aidéticos, anciãos etc.. No centro, está o mundo rico, com toda a sua variedade de tecnologias modernas, que estão a desafiar viver a espiritualidade. O A. aponta três traços importantes para viver aí a espiritualidade: o gosto pela vida com a relevância da afetividade, educar o desejo e a subversão, o não-conformismo evangélico. Analisando o campo da espiritualidade percebe sinais de vitalidade no influxo e atrativo do Oriente, na intensificação das diversas formas de Exercícios Espirituais, na extensão da prática da orientação espiritual, no crescimento de movimentos espirituais. Além disso, recobraram importância nos últimos anos o feminismo, uma aproximação mais completa da Bíblia, o diálogo inter-religioso, a temática ecológica.

                No último texto, D. Mollá tenta discernir os sinais da espiritualidade para o final do milênio, que ele chama de "mística de olhos abertos" numa reação ao secularismo. Trabalha, em primeiro lugar, a dimensão humana de tal mística. Ela supõe uma capacidade de interioridade, um dom de discernimento, uma força de resistência. E os desafios colocam-se em descobrir ao Deus que se esconde na obscuridade da vida, no seguimento de Jesus como dom e em gratuidade, em viver profeticamente as tensões de nossa pertença à Igreja e em levar uma existência integrada como "místicos horizontais".

                O livro não traz nenhuma originalidade especial, mas sistematiza, organiza, propõe, de maneira clara e sugestiva, elementos sócio-culturais, teológicos e de espiritualidade que flutuam no oceano confuso do momento atual. É boa bússola para navegar. Escrito com muito espírito, clareza e coragem profética.

 

 

 
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