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Recensões: CONZEN, Peter: Fanatismus. Psychoanalyse eines unheimlichen Phänomens  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/8
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CONZEN, Peter: Fanatismus. Psychoanalyse eines unheimlichen Phänomens. Stuttgart, W. Kohlhammer, 23 cm x 15, 5 cm. 2005. 300p. ISBN 3-17-017426-6

                O atentado terrorista contra as Torres Gêmeas a 11 de setembro de 2001 ofereceu ocasião para esse estudo. Feriram-se nele não somente os principais símbolos do poder político e econômico dos EUA, mas também surgiu o temor  de que o ódio fanático se tornasse um instrumento técnico-racional de amanhã. O A. sentiu-se tocado no mal-estar de sua geração que se perguntou como foi possível que uma nação de cultura européia, como a Alemanha, tivesse chegado à loucura ideológica do nazismo com absurdos crimes. Nesse trabalhointeresse pessoal e cultural na luta contra o ódio e a intolerância, procurando entendê-los como pano de fundo do fanatismo. A história da humanidade é também uma história de seu fanatismo. Os fiéis radicais de toda espécie provocaram mais maldade que todos os malandros e psicopatas juntos. As ameaças hoje são apocalípticas pela junção de armas de extermínio maciço com espírito fundamentalista. Daí a importância do presente trabalho profundo e científico do fenômeno do fanatismo como esclarecimento e profilaxia. O fanatismo se vincula com todos os aspectos da natureza humana, sadios e doentios, conscientes e inconscientes, racionais e irracionais, incubados e manifestos. Atinge indivíduos, grupos e grande massa. A pulsão para o extremo, para a divisão e para a projeção salta do profundo da psique humana, mas as idéias fanáticas se forjam na sociedade e na história, protegidas não raramente por poderosas instituições e a seu serviço. Entre as paixões humanas talvez seja o fanatismo uma das mais enigmáticas. Por que uns se transformam em monstros e outros em santos em situações totalitárias excepcionais: Edith Stein e os SS da Alemanha de Hitler? Por que jovens reagem ora altamente sensíveis ora com condutas destrutivas?

                um trabalho interdisciplinar oferece alguma percepção da complexidade do tema. O livro pretende iluminar não tanto as condições político-econômicas e históricas de surgimento do fanatismo, mas também as suas raízes psíquicas internas. Que forças conscientes e inconscientes subjazem na pulsão humana para o extremo que nos fazem susceptíveis de fanatismo? Como nos manter vigilantes diante de carismas destrutivos e assim nos defender respeito a sempre novas demagogias e à manipulação de massas? Recorre à psicanálise por ela oferecer elementos que esclarecem paixões e mecanismos de autoengano presentes no fanatismo. Ela é atenta à desmedida do poder presente nas relações humanas e tanto mais perigoso quanto mais ele se veste de roupagem moral. Acentua a suspeita contra todas as atitudes de ortodoxia dogmática.

                Ainda no interior do quadro introdutório, o livro insiste na importância de uma abordagem científica e interdisciplinar. Recorre ao acesso que a psicanálise lhe oferece para compreender a estrutura psíquica do fanático. Trabalha as teorias de S. Freud sob a epígrafe do “ethos da Ilustração”. Para entender o ser humano e o extremo compulsa pensadores como Melanie Klein, Otto Kernberg, Heinz Kohut. Avança a pesquisa psicanalítica para o campo da família, do grupo e da cultura, analisando o atuar mútuo dos radicalismos privados e coletivos. Lança mão da teoria psicanalítica da identidade. A identidade apresenta-se como necessidade fundamental. E as identidades confusas relacionam-se com a pulsão para o total-ismo. Em seguida, estuda a fanática virada estruturante do sentimento de identidade individual e coletivo.

                Contra tal quadro, o livro desenvolve na primeira parte a realidade e as formas de manifestação do fanatismo, especialmente no cruzamento do fanatismo individual, grupal e de massa.

                É praticamente impossível defini-lo por causa da pluralidade de camadas do conceito de fanatismo. Cada definição salienta determinados aspectos sem cobrir a amplidão do fenômeno. Os fanáticos recebem múltiplos adjetivos: ativos, agressivos, expansivos, calados, introvertidos convictos, perdidos no grupo, dependentes, alinhados, etc.

                O livro estuda preferentemente o fanatismo de idéias ativo, agressivo, expansivo em momentos de intranqüilidade de relações humanas. Algumas dimensões de tais fanatismos: originário, induzido, de idéias, formal, construtivo, destrutivo, frio, mudo, expansivo, mole, duro, confuso, claro.

                Alguns temas intimamente conexos com o fanatismo merecem destaque. Inicia estudando-o em relação com os movimentos fundamentalistas ampla e rigidamente espalhados pelo mundo desde o início dos anos 90. Há uma vaga de publicações sobre tal tema. Outro aspecto é o fanatismo movido pela pulsão do ódio. Em lugar nenhum a maldade humana se torna pior e autojustificada do que no serviço de ideais. São macabras as discussões religiosas, as guerras por causa da .

                Prosseguindo a análise, o A. aborda a questão da divisão da consciência como fenômeno patológico segundo a teoria psicanalítica da consciência. Cria-se uma terrível boa consciência de fazer o mal. Assim na luta contra o mal ameaçador, percebida com um agir necessário, justifica-se o uso de todos os meios. Existem perversos e criminosos que se julgam em sintonia com Deus e um gozo nas próprias ações. Há um traço sádico. O superego se divide. Para o fanático a luta em torno de sua rígida convicção é o campo do autoamor e autodesprezo e não as relações de amizade e amor. O fanático possui traços psicopatológicos, mas não é sem mais doente. Funcionam mecanismos patológicos, no entanto, não todo o tempo.

                O A. estuda separadamente o fanatismo religioso, político e moral, embora todo fanatismo tenha um núcleo religioso, ao buscar o puro; político, ao querer melhorar a realidade imperfeita; e também tenha traços moralizantes intolerantes. O estudo do fanatismo religioso não quer desconhecer a grandeza da religião e as suas realizações no nível da alegria, do consolo e da criação de cultura. Trata-se, no caso, de sua perversão.

                Em seguida, detém-se o livro nas disposições individuais da personalidade do fanático. As reações da sensibilidade são situações de entusiasmos extremos ou de indignação apaixonada que se deixam rapidamente voltar ao nível psíquico indiferenciado. Os preconceitos, percepções falhas, atitudes de dureza e descomprometidas obscuramente se dissociam em setores marginais do Si (Selbst) e podem produzir comportamentos virulentos. Existem períodos fanáticos de transição que são identificações com convicções radicais que de novo se enfraquecem nalgum momento. Termina essa segunda parte com o estudo das personalidades fanáticas.

                Os fanáticos originários e induzidos são aqueles nos quais emerge o passional, sobretudo do interior da personalidade. Juntam-se determinadas características de temperamento e caráter, tensões, sensibilidade, inquietações com específicos traços da pulsão e da família, a modo de um fogo interno. Os fanáticos do dever são pessoas que pouco impactadas pelo fogo visionário, têm, no entanto, paixão extrema de ater-se na forma de obra de arte de uma religiosa ou de uma idéia política. O fanático sob pressão são aqueles que, sem profunda relação com uma idéia ou valor, cegamente assumem uma causa e incondicionalmente realizam o que lhe confiaram.Termina com dois parágrafos dedicados ao fanatismo de grupo e de massa.

                Numa segunda parte, o estudo se centra no surgimento do fanatismo nas pessoas e na comunidade. A camada mais profunda do fanatismo se situa no abalo da confiança fundamental. O fanático, em última análise, aspira nas visões e utopias a algo atrás, à busca pela proteção absoluta, à  absoluta harmonia, ao desligar total de toda imperfeição, do mal, isto é, à libertação do profundo medo da existência. Outra fonte é o sentimento de vergonha doloroso e aniquilador. Por trás do lutar radical contra o mal externo encontram-se profundos ferimentos do Si individual e coletivo. O terrorismo funciona como arma do impotente.

                Uma outra fonte infantil do fanatismo se encontra na fixação do complexo de Édipo, aquela temática irracional do poder, do triunfo, do sentimento de culpa da vida humana.

                A adolescência mostra afinidade com a radicalização. A dissolução estrutural da personalidade adolescente relaciona-se com o impulso para o totalismo. Pela primeira vez na adolescência, a pessoa está na condição de pôr o consistente em questão, de pesar as alternativas radicais de visão de mundo e de ligar concretamente o excesso utópico e a raiva indignada a imagens prévias e inimigas. Fase da vida altamente sujeita às oscilações extremas de atitudes e a oposições cobiçadas, a descaminho por influência doutrinal. A visão apaixonada e a capacidade de entusiasmar-se na adolescência se tornam campo fértil para o fanatismo em conflito com a autoridade estabelecida ou por ela manipulada. A confusão sobre a própria identidade se faz ponte de acesso ao fanatismo. Cria-se, segundo Erikson, um estado de perda de iniciativa e de medo, um doloroso sentimento de estar sob pesada pressão do tempo, não sobrando energia para dar o passo para a idade adulta.

                A reestruturação fanática da identidade se processa por um deslizar para um mundo paralelo. A fase da adolescência consegue ou um equilíbrio ou se endurece na personalidade fanática. Por que acontece a segunda possibilidade? Assim, por exemplo, da movimentação de protesto da juventude de 1968, somente alguns poucos assumiram a luta armada. Por quê? Há muitas teorias explicativas. E o A. aponta para várias hipóteses.

                Termina as análises com uma última reflexão sobre a solidão, a incapacidade de intimidade e de generatividade do fanático. Há uma falha fundamental de sentimento que cega o fanático para as conseqüências do próprio agir em si e nos outros.

                Depois dessa brilhante análise teórica e bastante ampla do fenômeno do fanatismo, o livro dedica longo estudo a dois casos: a pessoa de Hitler e nazistas, e o exército vermelho. Como alemão, sente-se mais próximo deles. A personalidade de Hitler, a sua carreira política, personagens mais próximos dele, a ditadura, o holocausto foram analisados. O segundo caso, mais recente, foi do “exército vermelhoque se formou a partir dos finais dos anos 60. O livro oferece excelentes elementos para interpretar essas duas trágicas experiências de fanatismo.

                O livro termina com um olhar sobre a atualidade depois de 11 de setembro de 2001. No início do século XXI, o  mundo, como nunca, foi visitado pelo ódio, violência e fanatismo. Parece que se abriu a era do mega-terrorismo. Em muitas partes do mundo, conflitos religiosos e políticos de maneira perversa são conduzidos por meio do fundamentalismo religioso. E o estudo conclui com reflexão sobre a luta cultural religiosa tanto no mundo ocidental como muçulmano.

                Estamos diante de excelente obra que vasculha os subterrâneos do fanatismo, do terrorismo, tanto no nível das personalidades individuais quanto dos grupos e de massa. Quem se interessa por semelhante temática tem material para muito estudo e de alto valor científico, bem documentado.

                       

                               J. B. Libanio

 

                                

 
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