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Recensões: BORDONI, Marcello: La Cristologia nell’orizonte dello Spirito  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/8
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BORDONI, Marcello: La Cristologia nell’orizonte dello Spirito. Brescia: Queriniana, 1995. 315 pp., 22,8 x 16 cm. Coleção Biblioteca di Teologia Contemporanea, 82. ISBN 88-399-0382-8

                O livro quer responder à atual conjuntura espiritual do mundo moderno ocidental que se vê envolvido por uma onda espiritualista, carismática, com freqüência colocada sob a inspiração e moção do Espírito. No entanto, muitos reconhecem certa ambigüidade nesse “despertar do Espírito”. O tema central da obra é uma busca de encontrar o verdadeiro critério cristão para discernir a ação do Espírito: a cristologia. Em outras palavras, buscar um aprofundamento teológico da relação entre cristologia e pneumatologia. Daí o  título da obra.

                O A. é professor titular de Cristologia sistemática na Pontifícia Universidade Lateranense de Roma com várias obras escritas nesse campo de sua docência.

                O livro divide-se em duas grandes partes. A primeira, levando em consideração o contexto desse novo “paradigma religioso”, procura entender melhor essa realidade do Espírito Santo, não tanto como objeto da reflexão cristológica, mas antes como horizonte ou forma do pensamento cristológico. Há uma virada na cristologia desde a perspectiva do Espírito. O interlocutor principal dessa parte é o homem religioso do nosso tempo.

                Para desenvolvê-la, o A. começa estudando os sinais da idade do Espírito na religiosidade contemporânea. A modernidade realiza, sob certo aspecto e de maneira secular, a era do Espírito anunciada por Joaquim de Fiore (+1202), valorizando a intuição, a experiência, o espontaneísmo natural e um certo romantismo em que Deus e mundo se unem e se confundem. Além disso, o valor religioso dessa experiência situa-se no horizonte aberto em que o limite é o não limite da consciência pelo qual o ser humano se insere numa dinâmica de superação de todas as fronteiras até atingir a totalidade, a plenitude.

                É nesse contexto de modernidade que emerge esse despertar espiritual. Onda místico-experiencial. O A. descreve essa realidade, assinalando as suas características, aliás já bem conhecidas. Em momento seguinte, procura discernir os sinais presentes do Espírito Santo como anúncio de um novo evento de Cristo. Há pontos positivos nesse despertar religioso como uma forte busca de encontro com o divino, de uma experiência do Deus vivo. As religiões necessitam enfrentar essa nova situação religiosa. O A. recupera essa experiência religiosa num encontro interpessoal com a palavra de Deus no Espírito Santo. Trata-se menos de uma reflexão teológica sobre o Espírito Santo do que no Espírito Santo sobre o Logos do Cristo e sobre o mistério trinitário. Numa palavra, o Espírito Santo é horizonte a priori de toda afirmação teológica e particularmente cristológica.  Seu caráter pessoal é mais aquele no qual é possível o encontro com Cristo e com os irmãos.

                Nessa primeira parte estuda-se o papel fundamental que o Espírito cumpre na revelação de Deus e no conhecimento da fé. Dedica todo um capítulo sobre o Espírito como horizonte primordial da experiência cristã. Desenvolve esta idéia recorrendo aos dados bíblicos dos Primeiro e Secundo Testamentos. Ao estudar o Primeiro Testamento, assinala as primeiras alusões sobre o Espírito como lugar primordial da experiência de Deus. Destaca o dado de que a vida no seu contexto tanto naturale-cósmico-vitalista quanto histórico aparece como o lugar de experiência de Deus no Espírito. O Espírito manifesta-se também profundamente ligado à Palavra no contexto profético, escatológico e messiânico. Além disso, tem particular importância a relação entre Espírito e a Sabedoria no discurso sobre o papel experiencial do Espírito.

                No Segundo Testamento, o A. estuda a presença do Espírito na experiência carismática de Jesus e da vida cristã. Ele o faz em especial trabalhando a teologia paulina, joanina e lucana.

                No capítulo seguinte, investiga a experiência de Cristo no Espírito a partir do sentir espiritual segundo a tradição pós-bíblica. Analisa como o caráter do papel do Espírito se insere num contexto tanto pessoal como comunitário (eclesial) com valores afetivos sensíveis e intelectivos de modo que a Tradição não relata experiências do Espírito autônomas, intimistas, sem relação com conteúdos objetivos da Palavra de Deus, revelada historicamente em Jesus Cristo nem sem a ação mesma do Cristo glorioso, agindo no Espírito. Ela reconhece o caráter transcendente e livre do Espírito, posto íntimo e interior à pessoa, com imprescindível conotação cristológica. O tema do Espírito leva a aprofundar a relação entre conhecimento e amor no ambiente da fé. O Espírito dá a mentalidade de Cristo, o sentimento saboreado de que Deus está presente. Ele opera a “capacidade de ver”, de captar o sentido do divino. Ele atesta também a não-cognoscibilidade de Deus, guia-nos na “escuridão luminosa da fé” (Gregório de Nissa). E, finalmente, a experiência mística cristã é constitutivamente mística eclesial enquanto mística de comunhão.

                O A. termina essa parte analisando o Espírito na experiência de fé e na reflexão teológica contemporânea. Acontece um movimento na direção da experiência metafísica do ser para a do Deus de Jesus Cristo revelado no Espírito. Começa explicitando a experiência metafísica do ser ou experiência transcendental nas pegadas de De Peter, E. Schillebeeckx e K. Rahner. Em seguida, desenvolve a compreensão da experiência intelectiva como encontro imediato com o mistério no horizonte da verdade do ser. Na constituição da experiência do ser, como incoativamente religiosa, há componente afetiva não divisível da inteligência. Nela acontece uma revelação primordial do mistério da verdade, que se faz presente e se dá. A experiência do ser tem uma dimensão de encontro pessoal com a verdade. Conclui a reflexão analisando a experiência do Espírito no conhecimento de fé e no teológico. Por isso, tanto a experiência de fé e o discurso teológico têm uma presença do Espírito e uma dimensão apofática.

                A segunda parte avança a questão. Aborda os conteúdos objetivos da cristologia, especialmente os pólos da Encarnação, da unção e do mistério pascal,  recuperando aí os componentes essenciais pneumatológicos que pertencem a sua realidade de sempre enquanto cristologia, isto é, como o Cristo ungido do Espírito Santo e mostrando que esse Espírito Santo não é nenhuma força divina incontrolável, indeterminada, mas o Espírito de Cristo e do Pai.

                Trabalham-se nessa parte as dimensões do Espírito do evento cristológico, sobretudo a dimensão do Espírito da Encarnação, na qual pelo Espírito o Verbo se torna carne e sobre a qual se funda a unidade entre o “constitutivo” e o “normativo” da sua mediação salvífica. No Espírito Jesus se torna Cristo, assim se garante a unidade entre o Jesus histórico e o Cristo cósmico. É a consideração da relação entre a encarnação e a unção.

                Uma terceira aproximação, na perspectiva do evento pascal, no qual Jesus de Nazaré é vivificado pelo Espírito e se torna doador do Espírito, oferece a razão teológica para entender, na imediação e força do Espírito, como a particularidade da história de Jesus se faz presente e universalmente operante na história de todo ser humano e como por meio de toda outra mediação religiosa possibilita que a história religiosa da humanidade desemboque na meta final do projeto salvífico de Deus.

                Num primeiro capítulo, reflete sobre a dimensão pneumatológica da cristologia no contexto atual do diálogo inter-religioso no qual a fé cristã é chamada a dar conta tanto da singularidade quanto da universalidade salvífica do evento cristológico. Este é o paradoxo da fé cristã. Uma cristologia do Espírito pode fundar teologicamente a singularidade de Jesus Cristo no seu alcance mediador salvífico cósmico. O Espírito presente na plenitude em Cristo opera em todas as partes em níveis diversos na história da humanidade, na citação de W. Kasper. Essa cristologia pneumatológica significa uma superação tanto de um cristocentrismo exclusivo como de um pluralismo teocêntrico, afirmando a singularidade do evento cristológico como causa constitutiva da salvação e como fundamento da sua função normativa universal conforme o plano salvífico de Deus. Ela consiste em entender a ação salvífica universal do Espírito em relação estreita com Cristo e estender o papel salvífico de Cristo por meio de sua ação atuante no Espírito fazendo-se presente nas religiões do mundo, que aparecem com o cristianismo e não sem ele como caminhos de salvação.

                O A. reconhece que essa posição vem sendo cada vez mais rejeitada por defender o princípio constitutivo da mediação salvífica de Cristo. Alguns reduzem Cristo a uma simples função normativa. Outros nem essa redução aceitam por julgá-la considerar as outras religiões inferiores ao Cristianismo. Propugna-se uma compreensão de um Último fundamental, um Mistério primeiro, um Espírito sem conteúdo doutrinal e conceitual, um único noumenon divino, esvaziando tanto o mistério da Encarnação como a própria realidade do Espirito.

                Na verdade, a solução não pode ir nessa direção mas deve reconduzir o discurso do Espírito ao seu lugar fundamental cristológico da revelação trinitária e abrir, por sua vez, o discurso cristológico em direção a um horizonte pneumatológico. Só assim se garante a universalidade da obra salvífica de Cristo na história da salvação, seja no mundo cristão, seja no das religiões mundiais. É pela sua essencial dimensão pneumatológica que o evento cristológico permeia toda a realidade do mundo.

                O A. não se afasta naturalmente do modelo inclusivista, segundo o qual nenhuma religião pode considerar-se caminho de salvação sem Cristo. Percebe como o próprio inclusivismo amadureceu passando de uma “teoria do cumprimento, do acabamento” à “teoria da presença” no sentido da real presença operativa de Cristo nas religiões mundiais por meio da força de seu Espírito. 

                Para levar à frente esse programa teológico do inclusivismo em que, de um lado, não se esvaziam nem o evento cristológico nem a realidade do Espírito Santo, dedica, nos capítulos seguintes, à tarefa de recuperar teologicamente, no estudo da relação Cristo-Espírito, os conteúdos pneumatológicos da fé cristã de que a cristologia, especialmente no Ocidente, se mostrou até agora carente.

                Desenvolve um discurso sobre a recíproca complementariedade da obra do Verbo e do Espírito na economia histórico-salvífica. O percurso metodológico do A. vai da obra do Espírito no “princípio cristológico” de concentração e de representação para acentuar no fim a obra universalizante do Espírito na história religiosa da humanidade.

                Num primeiro momento nesse longo capítulo, mostra como uma leitura sinótica da ação do Espírito na vida de Jesus poderia dar razão à visão pluralista de um Espírito que se manifesta em muitos cristos. Por outro lado, a leitura paulina e joanina poderia fazer do Espírito nada mais que o próprio Cristo ressuscitado. Daí a importância de articular as duas leituras. A teologia trinitária do Oriente possibilita melhor essa reciprocidade.

                Para aprofundá-la teologicamente, o A. recorre ademais a três aproximações fundamentais, narrativas e doutrinais, do evento cristológico que correspondem à encarnação, à unção batismal e ao evento pascal. Podem ser vistos não só como acontecimentos cronológicos distintos (aspecto narrativo), mas também como dimensões estruturais (aspecto doutrinal) do único evento cristológico que é sempre, ao mesmo tempo, evento da “vinda-descida do Verbo” (encarnação), acontecida numa “contínua passagem para o Pai” (páscoa) por meio da força do Espírito (unção). Em três parágrafos seguintes, o A. analisa cada um desses três eventos do único grande evento cristológico.

                Começa com a reflexão sobre a ação do Espírito na Encarnação. “No Espírito e pelo Espírito, o Verbo se torna carne”. Desenvolve tal tese recorrendo naturalmente aos dados bíblicos, à tradição pós-bíblica. Conclui esse parágrafo descrevendo prospectivas contemporâneas a respeito do alcance pneumatológico da Encarnação e elementos para uma reflexão ulterior sobre os aspectos pneumatológicos do evento da Encarnação. Discute principalmente as posições de Santo Tomás, de H. Mühlen e W. Kasper, a quem mais se vincula mostrando a participação da Trindade e especialmente do Espírito Santo no ato da Encarnação.

                Em parágrafo seguinte, estuda a unção do Espírito. A tese central soa: “No Espírito, Jesus torna-se Cristo: encarnação e unção. A unidade entre Jesus, o encarnado, e o Cristo, na sua função soteriológica”.

                De novo recorre aos dados bíblicos, à reflexão patrística e fecha o parágrafo com reflexões sistemáticas sobre as prospectivas pneumatológicas para uma cristologia dinâmica a partir da unção no Espírito.

                Termina o capítulo, com uma terceira tese. “No evento de páscoa, Jesus de Nazaré, ressuscitado, torna-se Espirito vivificante e doador do Espírito”. Mais uma vez, começa com os dados do Novo Testamento. Depois destaca o acento pneumatológico da soteriologia pascal dos Santos Padres. E, finalmente, articula soteriologia, ressurreição e pneumatologia, de um lado, e, de outro, ressurreição, parusia e pneumatologia. No final de tudo, apresenta, em forma sucinta, as conclusões gerais do livro.

                É um livro que concilia solidez dogmática com abertura. Permanecendo dentro da posição inclusivista, tenta dar-lhe maior abertura acentuando a atuação do Espírito, não independente de Cristo mas em íntima conexão com ele. Também evita o escolho de reduzir o Espírito a mera função de Cristo. Elabora sua reflexão numa perspectiva trinitária, com auxílio da teologia oriental, valorizando a ação no Espírito em três eventos da vida de Cristo, não como algo pontual, mas como expressão de uma relação da própria realidade da Trindade, no seu interior e no seu projeto salvífico.

                Sem dúvida, traz uma lufada de abertura às cristologias carentes dessa dimensão pneumatológica. Serve para aprofundar as reflexões pneumatológicas que se vem fazendo muito ultimamente.

                O grande mérito é a lucidez diante da ambigüidade da “onda do Espírito”, distinguindo duas concepções de Espírito bem diversas. Uma em que o termo espírito traduz uma realidade indeterminada, difusa, sem consistência conceitual e o sentido trinitário de Espírito para a teologia cristã. E nessa segunda compreensão, focaliza sobretudo a relação do Espírito e Cristo. Alerta para uma experiência espiritual-mística, interior, do divino (Espírito) alheia à palavra profética. Contradiria a revelação bíblico-cristã. Numa palavra, o Espírito, que, na sua ‘imediação’, opera pela mediação da Palavra, define-se como Espírito de Cristo. E na sua imprescindível relação com a Palavra encarnada que o Espírito é o horizonte da experiência cristã. Essa é a tradição bíblica e pós-bíblica.

 

                               J. B. Libanio

 
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