| Recensões: VALLET, Odon: Le honteux et le sacré. Grammaire de l’érotisme divin | |||
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VALLET, Odon: Le honteux et le sacré. Grammaire de l’érotisme divin. Paris, Albin Michel, 1998, 22,4 x Doutor em direito e ciência das religiões, o A. faz um estudo bem original e sugestivo. Parte da intuição de que o campo religioso tem uma ambivalência que o aproxima de seu oposto. E tal fato expressa-se no sentido das palavras que a exprimem. Por isso, ele persegue uma série de binômios unidos pela etimologia, mas que refletem até mesmo uma antinomia. Bom conhecedor da lingüística, o A. recorre às línguas clássicas grego, latim e eventualmente sânscrito e hebreu, sem falar das modernas. Esse jogo de sentidos das palavras torna o livro extremamente saboroso. Descobre aproximações semânticas que dificilmente se percebem à primeira vista. Em muitos termos aparece a aproximação entre o mundo religioso e sexual. Daí o subtítulo do livro: Gramática do erotismo divino. Com freqüência, atém-se a considerações psicanalíticas, valendo-se de Freud. Já na introdução, o A. joga com os dois campos semânticos do termo “sentido”: orientação e percepção. Relaciona sabedoria, saber e sabor, a partir da mesma origem latina: sapere. Aliás, em bom português, “saber” tem esse duplo sentido de “ter gosto” e de “conhecer”. Para despertar a curiosidade do leitor, elenco a lista dos binômios estudados. “vergonhoso e sagrado”, “venerável e venéreo”, “pedofilia e teofilia”, “nebuloso e núbil”, “desnudamento e nudez”, “circuncisão e decisão”, “sadio (são) e santo”, “república e puberdade”, “estupro (violação) e virtude”, “mãe e matéria”, “pai e padrinho”, “testamento e testículo”, “ereção e direção”, “cópula e inapto”, “castidade e castigo”. Como conclusão, apresenta o par “carícia e caridade”. Algumas vezes a distância entre os termos parece grande e o A. consegue encontrar as ligações percorrendo os itinerários semânticos das palavras. Há relações que esclarecem melhor os termos e percebe-se a mentalidade religiosa que presidiu tantas experiências humanas fundamentais. É impressionante a força da religião nas origens de tantos vocábulos que hoje soam tão estranhos a ela. Esse estudo abre possibilidades de aprofundar a relação entre antropologia e teologia. Ao plasmar muitos vocábulos, o ser humano revela simultaneamente a si mesmo e sua relação com o mundo divino. A etimologia permite perceber esse duplo jogo. Apesar de ter escolhido termos provocantes, o A. mantém-se num nível sério e respeitoso, embora realista. O livro revela enorme erudição. O A. passeia por diversos campos do conhecimento. De modo especial, freqüenta os clássicos da cultura profana e religiosa, sem deixar de fazer incursões nos autores modernos. As análises são finas, espirituosas, inteligentes. Percorre os itinerários dos termos. Descobre camadas profundas, antigas que já estavam totalmente soterradas por outros estratos linguísticos. O livro ensina trabalhar com a etimologia e arqueologia dos termos. Aguça a atenção do leitor para o sentido das palavras. Desperta uma nova sensibilidade para o parentesco dos termos. Observava um lingüista inglês que toda palavra paga um tributo à sua etimologia. O livro demonstra cabalmente tal tese. De fato, apesar de o significado comum de uma palavra ter-se afastado muito de sua origem, o A. consegue provar como o toque originário ainda permanece. Quem pensaria, à primeira vista, que república se vincula tão profundamente com puberdade? Mesmo que mãe (mater) e matéria estejam tão próximas, poucas vezes se relacionam essas palavras. Poder-se-ia passar par por par e mostrar como o A. conseguiu enlaçá-los numa lógica linguística sutil, baseada freqüentemente na história da cultura. J. B. Libanio |
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