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Recensões: UGEUX, Bernard – RULMONT, André: Celui qui est chrétien, celui qui n´est plus  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/17
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UGEUX, Bernard – RULMONT, André: Celui qui est chrétien, celui qui n´est plus. Paris: Desclée de Brouwer. 21 cm x 14 cm. 286 p. ISBN 978-2-220-06064-4

 

                Livro escrito em estilo autobiográfico que nasce de um encontro dos dois autores no mosteiro de Rixensart na Bélgica. Ligam-se por laços da família, já que a esposa de André é prima de Bernardo. O tema da conversa, depois das rápidas informações sobre família, gira sobre religião, espiritualidade, busca de Deus. Então, Godelieve, a esposa de André, sugere que se gravem e se prolonguem tais encontros e conversas e se escreva um livro, de que ela se encarregaria de dar forma. Ei-lo então aqui publicado.

                André é pesquisador na área das ciências exatas e também curioso do campo da espiritualidade. Bernardo é sacerdote, já há 32 anos, dos Padres Brancos, que missionou e visitou muitos continentes e países.

                André, de família católica, estudara em colégio religioso, mas desde os anos juvenis sentia enorme dificuldade com a religião católica e a abandonou para tornar-se um peregrino da espiritualidade. Bernard manteve-se fiel a sua vocação cristã e sacerdotal.

                O livro reflete, de início, a face existencial dos dois interlocutores. O ponto em comum: uma busca séria e existencial de Deus. A diferença maior, que marcará todas as discussões, advém da percepção, interpretação e vivência do mundo divino.

                Bernard vive a fé no interior da Igreja católica. Todo o arcabouço de verdades, ritos, práticas, prescrições, balizas normativas não o impede de manter-se fiel a sua fé cristã em Deus, em Jesus Cristo no interior da Igreja. André, pelo contrário, teve experiência traumática com a objetividade católica. As verdades, os ritos, as prescrições soavam aprisionamento e falseamento de sua experiência. Por isso, já bem jovem, abandona a fé cristã nos moldes de sua transmissão.

                A partir dessas duas posturas básicas, fundamentais se entende todo o conjunto das conversas. A cada tema que se lança, ora um, ora outro faz o papel de interrogador e outro responde. Contrapõem-se assim essas duas atitudes iniciais e persistentes.

                O primeiro questionamento gira em torno de Deus. Enquanto Bernard, na lídima tradição bíblico-cristã, afirma o caráter pessoal de Deus, de sua relação com as criaturas, com a história humana, André rejeita como pretensão humana, como algo incompreensível atar Deus a arcabouços dogmáticos, à Escritura. Para ele, o ser humano busca antes o Divino, uma Energia Consciente maior, um Mistério, no qual mergulha, com o qual se envolve, sem nunca vislumbrar algo mais que a experiência espiritual. Fazer o bem consiste em adequar-se, em harmonia, respeitar a harmonia escondida do universo e, neste sentido, entrar em ressonância com a energia divina. Os termos harmonia, energia envolvente, consciência dessa experiência marcam o itinerário teórico de André.

                Ambos afirmam a condição do ser humano como buscador de sentido. Para Bernard, o sentido se encontra numa pessoa: Deus. Para André está na própria busca humana. Basta-nos essa experiência, sem carecer de outra definição do que virá mais tarde. É suficiente o movimento de busca espiritual.

                André confessa devedor de espiritualidades orientais  que esfumam a realidade de Deus num vago buscar humano, numa atmosfera espiritualizante, enquanto Bernard firma-se na tradição judaico-cristã do Ocidente e na muçulmana de um Deus pessoal.

                No fundo, todo o livro gira em torno dessas diferenças e, sob certo sentido, algo complementar, mas sem nunca identificarem-se. São duas vias que, na última radicalidade, não se encontram no nível da interpretação teórica.

                O livro sofre de certa lentidão e repetição por causa do gênero autobiográfico. Voltam-se ambos continuamente às duas experiências fundantes iniciais. E daí não saem. O leitor que se encontra em face de tal alternativa existencial deparará no livro com interessantes dados para discernir o seu caminho. Ou se ele já tem clareza sobre sua via, verá refletido em outro o próprio caminhar.

                Em última análise, espelham-se nesse diálogo duas tendências bem fortes nesses tempos de pós-modernidade. Reavivam-se as buscas da religião na sua exterioridade como ponto de referência e mediação necessária para encontrar a Deus, de um lado. De outro, está a crescente multidão daqueles que se alimentam de um Deus anônimo, perdido no mistério do humano, do cósmico, do espiritual. Mais etéreo que real, mais sentido que pensado, mais experimentado espiritualmente que traduzido em ritos, verdades e aspectos institucionais.

                Essa problemática afina-se com o novo paradigma ecológico que se impõe cada vez mais. Dilui-se não somente o Deus criador, mas também a presunção dominadora do ser humano sobre o mundo. Prefere-se a atitude contemplativa à ativa. Inverte-se o sinal da modernidade que inaugurara a era da ação em oposição à contemplação rural tradicional para redescobrir um outro tipo de contemplação espiritual, de toque místico. Não denota a impotência do ser humano, antes a renúncia à potência por descobrir a sua comunhão maior com o todo do universo.

                O livro gira em torno dessa ampla temática, não de maneira teórica e elaborada a partir de autores, mas reflete as considerações pessoais dos dois interlocutores. E a partir dessas posturas fundamentais debatem a historicidade de Jesus, para um importante, para outro não. Discutem sobre a presença histórica decrescente do Cristianismo na sociedade de hoje, sobre a interpelação da ciência à religião, sobre tensões clássicas entre unidade e diversidade no respeito da diferença, entre universal e particular de maneira harmoniosa, entre homem e mulher na sua importância na sociedade, cultura e religiões. Nem faltaram as duas questões cruciais do enigma do mal e da vida depois da morte.

                Tudo termina com os dois postos na posição inicial, mas matizadas pelo debate. Se um leitor quiser conhecer esses caminhos, eis uma boa leitura.

 

                                       J. B. Libanio

 


 

 

 
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