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Recensões: SELLA, Adriano: Globalização neoliberal e exclusão social. Alternativas...? São possíveis!  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/17
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SELLA, Adriano: Globalização neoliberal e exclusão social. Alternativas...? São possíveis!, São Paulo, Paulus, 2002. 148p., 21 x 13, 5 cm. ISBN 85-349-1913-5

                A literatura sobre a globalização neoliberal oscila entre os extremos de cientificidade ou de trivialidade. Este livro situa-se no meio. Não tem pretensões de um estudo técnico de economista nem também repete chavões conhecidos. É ótimo instrumental para a pastoral, pois consegue apresentar de maneira simples, didática, mas não banal nem estereotipada, a complexidade da problemática da globalização neoliberal.

                Num primeiro capítulo, aborda a questão da exclusão social e sua relação com a sociedade moderna. Visualiza-a com dados do IBGE, da Fundação Getúlio Vargas para o Brasil e do PNUD, da FAO para o mundo. Em seguida, explicita o conceito de dívida social. É a face oposta da exclusão. Ela inverte os papéis. Na exclusão, o pobre é devedor e o rico é credor. Na dívida social, o pobre passa a credor, carregando o pagamento da dívida social sobre os que possuem. Para isso, distingue bem a dívida financeira que beneficia o rico da dívida social que favorece o pobre. A dívida social é o resgate do pobre. Essa inversão facilita as pessoas simples compreenderem a situação e despertarem-se para a consciência de seus direitos.

                Num capítulo seguinte, descreve as formas de organização da economia. Parte da economia de subsistência (ontem) para uma economia do lucro na sua forma de capitalismo eletrônico(hoje). A forma muito didática e resumida idealiza um pouco a economia de subsistência em detrimento da economia do lucro. Senti falta da menção ao neocapitalismo, como economia social de mercado, que conseguiu formas bastante mais justas, como em certos países nórdicos.

                Aborda depois o fenômeno da globalização do neoliberalismo, emitindo um juízo moral teológico sobre ele, ao chamá-lo de ´pecado mortal`. A preocupação ético-religiosa atravessa todo o estudo, já que visa à formação de agentes de pastoral.

                Terminando o aspecto crítico-analítico, relaciona a exclusão com a segregação social. O autor usa o barbarismo ´apartação`, numa infeliz  tradução do apartheid. É um vocábulo que está a entrar na linguagem corrente, mas que deveria ser evitado. Vocábulo mais ligado ao ato de apartar o gado do que para falar da segregação dos humanos. Nesse contexto, refere-se aos diferentes brasis. Há o Brasil formal dos inseridos na economia e o informal dos excluídos dela; há o Brasil oficial das elites, o do ´plano real`, o virtual ` da mídia das festas e da religião alienante e o real da exclusão, dos conflitos. Evidentemente toda tipologia, e ainda mais tão simplificada, não dá conta da realidade, mas ajuda a perceber algum elemento de verdade presente. Basta comparar com o pequeno trabalho de H. de Souza que fala de seis Brasis (Brasil do capital mundial, Brasil das transnacionais, Brasil oficial, Brasil da economia submersa, Brasil simbólico, Brasil da sociedade civil).

                O último e mais longo capítulo investe nas alternativas ao neoliberalismo e à globalização. Um primeiro caminho é articular a luta política (nível vertical) com a luta social (nível horizontal). Na luta, trata de forçar os poderes públicos a assumirem políticas e programa sociais, invertendo  o sinal, democratizando o capital, orientando-o para o social. Exemplo de luta social é o MST. Outras expressões de saída da exclusão social são: o Fórum Social Mundial e sua articulação internacional, o projeto popular para o Brasil da Consulta Popular, a economia solidária de que o MST é  excelente modelo, o programa de renda mínima.

                Está em jogo a concepção de sociedade. A dominante é neoliberal. A saída pede uma sociedade neo-solidária. Esta nasce do contacto direto e empático com a realidade dos pobres e dos excluídos. Alimenta-a a dimensão ética como imperativo fundamental para o modelo de sociedade alternativa. Por sua vez, a ética da neo-solidariedade implica uma dimensão de espiritualidade e mística para o engajamento na luta a fim de construir um ethos global solidário. As ferramentas para a sua construção implica um novo paradigma. Este consiste na passagem de uma sociedade fundada no lucro para uma sociedade solidária. A justiça torna-se-lhe a regra reguladora. A dimensão ecológica não está ausente. O respeito ecológico situa-se acima do lucro e do capital. Enfim, impõe-se uma nova maneira de conceber a relação entre Estado e Sociedade civil. Sem sociedade civil ativa, não se constrói um Estado solidário, forte e justo.

                Essa reflexão sobre a sociedade solidária veio ao encontro da preocupação muito presente nos meios engajados das igrejas. M. Abdalla [O princípio da cooperação em busca de um a nova racionalidade, São Paulo, Paulus, 2002], por exemplo, escreveu excelente livro sobre essa problemática numa perspectiva filosófica. Tenta mostrar que subjetividade está em jogo na sociedade capitalista e que subjetividade se deve criar para uma sociedade alternativa.

                O motor de todo processo social é a utopia, que, em termos teológicos, se chama esperança. E nessa ingente tarefa cabe às igrejas e às religiões papel próprio. A teologia da libertação nasceu, vive e sonha com uma fé cristã engajada nesse gigantesco processo.

                Este livro é excelente para breves cursos de agentes de pastoral. Entra nessa onda de conscientização política popular, imprescindível para qualquer mudança de maior porte. Não se faz nenhuma mudança social em profundidade sem que a consciência popular não se transforme. E para deslocar o acento de uma compreensão da sociedade centrada na produtividade lucrativa, competitiva para uma sociedade alternativa da solidariedade, do bem comum, do respeito da natureza, implica ingente trabalho cultural. São necessárias obras técnicas, profundas de cientistas e especialistas. Mas também cumprem enorme papel nesse processo obras como esta em que de modo sério, mas simples e acessível, se oferecem elementos para a criação de uma nova consciência política e social.

 

                               J. B. Libanio

 

               

               

 
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