BANON, Patrick: La Révolution Théoculturelle. Comprendre et gérer la diversité religieuse dans notre société. Paris, Presses de la Renaissance, 2008. 22, 5 cm x 15 cm. 384 p. ISBN 978-2-7509-0441-8 O autor se apresenta como escritor ensaísta, pesquisador em ciências das religiões e sistemas de pensamento, e especializado nos monoteísmos. Assessora empresas internacionais em gestão da diversidade cultural e religiosa e fundou o Instituto das Ciências da Diversidade. Une três campos de interesses: empresa, conselho político e pesquisa no campo das relações interculturais e religiosas. Possui enorme experiência mundial de contactos culturais: Europa, Estados Unidos da América, Brasil, Israel, Marrocos, etc. As culturas religiosas carecem de tratamento próprio. Não se comportam como as outras culturas. As religiões, quais organismos vivos, se adaptam às mutações contemporâneas, sem perder seu rumo. A diversidade religiosa, que nos enriquece a sociedade, precisa ser gerida, harmonizada, para que se preservem os valores fundamentais da igualdade entre homem e mulher, a promoção da miscigenação, o reconhecimento do outro, a rejeição da exclusão, a relação pacífica com a vida e a morte, a busca da paz, a esperança de uma sociedade coerente e a garantia da proteção dos mais fracos. Isso não acontecerá sem definir a pertinência das expectativas culturais e religiosas, nem sem voltar-se ao espírito de uma prática religiosa e medir-lhe o impacto sobre a sociedade. O A. escolheu o terreno da diversidade para confrontar a história dos sistemas do pensamento religioso em face das expectativas contemporâneas. A sociedade futura dependerá de como se gerir a diversidade religiosa. O A. pretende, a partir da diversidade religiosa, contribuir para um viver humano junto e não lado a lado, ao preservar o duplo valor da pluralidade e da igualdade. Numa terra sem fronteira, convivem mais de 4.000 formas de crenças e dezenas de milhares de divindades numa trajetória perto de 40 mil anos. E, sob o aspecto civil, 38.500 firmas transnacionais e 250.000 filiais constroem o terreno econômico. Mais de 20 milhões de trabalhadores qualificados migraram nos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Em nível mundial, 191 milhões mudaram de país em um ano. Culturas e religiões mundializam-se ao mesmo tempo que o trabalho. As vias da informação nos apresentam à porta ofertas espirituais dos quatro cantos do mundo. É a mundialização do religioso e uma convergência das preocupações com a condição humana. Em vez de religião, o termo melhor seria “teocultura”. Vive-se num mundo em que geografia, economia e religião desenham e redesenham o rosto da humanidade em interação com as condições cambiantes da sociedade. A mundialização possui força religiosa, ao provocar mudanças na ordem existencial social. Estamos às vésperas de uma era pacífica ou de um confronto mundial. Nesse mapa globalizado, a religião não se comporta como uma cultura entre outras, mas como a essência de nossas culturas. Esperava-se o fim do sobrenatural e veio a irresistível individualização do religioso. A história não acabou com a dinâmica das religiões nem com a necessidade religiosa. Com a mundialização, o sagrado tornou-se um atravessador de fronteiras, ao pôr em contacto direto as sociedades tradicionais com uma espécie de superorganização sociocultural. O mundo mais uma vez se ressacraliza. Haja vista os exemplos da Rússia e da China. A União Européia discute sobre seu patrimônio cristão, judeu e muçulmano. As religiões em contacto umas com as outras se iluminam mutuamente. A efervescência religiosa não se explica pela fragmentação das religiões nem pela nostalgia do sagrado. A revolução teocultural resulta da livre circulação dos indivíduos, da abolição das fronteiras, da mundialização das culturas, da globalização da oferta espiritual e da confrontação das culturas e das experiências históricas. Entramos em novo ciclo religioso. Predomina nele a adaptação das religiões, que migram ou circulam, ao novo contexto geocultural onde aterrissam. E o importante em relação à religião é gerenciar as suas ações para ver em que medida elas impactam sobre a coesão da sociedade. O A. não aceita a tese da “saída da religião”, segundo a expressão de Gauchet. “O fim das religiões não é para amanhã’. Interpreta a secularização como “um sistema de sincronização entre o tempo terrestre e o tempo divino”, e não como emancipação em face do religioso nem como oposição às religiões. “Os sistemas de pensamento religioso exprimem as relações da pessoa com o outro, oferecem um sentido à vida e à morte, permitindo uma solidariedade entre os seres inelutavelmente submetidos a um destino comum”. Ao caírem as fronteiras religiosas, a teocultura toma força. A religião não desaparece, adapta-se às mudanças do mundo. Na base de dados estatísticos, o A. traça um quadro religioso da atualidade. Repesco, à guisa de exemplo, o caso dos pentecostais que hoje somam uns 72 milhões e se anuncia para o ano 2025 a cifra de 800 milhões. O problema para o A. se centra em gerir essa gigantesca diversidade religiosa a bem da convivência humana como uma responsabilidade sem fronteiras. Haja vista o exemplo do Canadá. O Estado de Ontário negou a autorização para tribunais islâmicos de arbitragem religiosa e a instauração da charia para regular litígios familiares. A teocultura não deve ser pensada em função de interesse de uma facção religiosa, mas de maneira global, medindo o impacto que certas práticas de determinada religião causam no conjunto da sociedade. Estamos a viver o fim de um ciclo religioso e o nascimento de um novo mundo. A mundialização decreta a morte do ciclo magicoagrícola de 10 mil anos. Reina a diversidade religiosa a ser harmonizada. A teocultura agrupa expectativas religiosas as mais diferentes, às vezes contraditórias ou identitárias, sempre respondendo às individualidades, enquanto as religiões se diversificam . O problema, portanto, é a diversidade que pode transformar a sociedade num paraíso ou num inferno. A revolução teocultural torna obsoleto o sistema dualista, antagônico nascido com a pré-história. Entra-se auspiciosamente em tempos da diversidade, da tolerância, desde que não sejam acobertadores da desigualdade injusta e da autorização a qualquer transgressão. O direito da liberdade de consciência do indivíduo no campo religioso não pode ser absoluto numa sociedade, mas cessa quando se encontra com o direito de outro. Este é o princípio da laicidade francesa. Há casos em que certas práticas religiosas entram em choque com a convivência humana em determinada sociedade. Esta lhes põe limites. Existe discussão sobre a questão de uso de drogas em ritos religiosos: até onde o Estado pode penalizá-lo e até onde os praticantes desses ritos têm o direito de usá-las? O A. debate uma série de casos de ritos ou costumes religiosos e culturais e sua compatibilidade com a vida social de determinada sociedade, sua legislação, o direito dos outros cidadãos que não têm a mesma prática religiosa. Existe uma tolerância religiosa, levada ao extremo, que se volta contra a sociedade, ao sobrepor a diferença individual aos valores coletivos. O livro faz amplo passeio cultural por inúmeros casos em que ritos ou práticas culturais de determinados sujeitos religiosos se chocam com a vida de determinada sociedade. Além do uso de alucinógenos, entram em questão: poligamia, práticas judaicas do repouso sabático extremo, rejeição da carteira de identidade numérica, negação da matrícula escolar por razão religiosa, segregação de frequência a certos lugares públicos, discriminação por violação da pureza, casamento anulado por causa da não virgindade, sacralidade do hímen, agressão física à mulher, prescrições alimentares, obrigação de uma empresa providenciar espaços para a prática religiosa de funcionários, demissão do emprego por causa do divórcio, de recasamento, de incompatibilidade religiosa, da opção homossexual, de não querer trabalhar nalguma seção de trabalho, como açougueiro judeu que não quer vender carne de porco, uso do véu e de sinais religiosos em escolas públicas, aposição de sinais religiosos em lugares públicos, discriminação contra o uso da barba por razões religiosas em trabalho onde a higiene não permite, o tipo de roupa a ser usado, limite sagrado ao tempo de trabalho conforme a religião, enfim, uma infinidade de casos em que a dimensão religiosa e cultural étnica se bate contra a mundialização que leva as pessoas a viverem fora dos espaços em que uma religião ou um cultura hegemônica impunha as regras sociais. O livro oferece enorme riqueza de informação sobre todas essas questões e suas implicações sociais. É uma reflexão que não tem fim. A cada momento surgem novos choques. No fundo, está uma discussão sobre a tolerância e a liberdade. Não se pode negligenciar a verdade em nome da opinião. Não é possível satisfazer equitativamente às milhares de tradições prescritas por milhares de religiões e veiculadas por milhões de indivíduos. Não podemos renunciar a todo um lado da sociedade democrática e laica para respeitar o direito fundamental de consciência e de culto, reivindicado por essa mesma sociedade. Em nome da diversidade cultural e religiosa não podemos manter aspectos arcaicos religiosos. O multiculturalismo pode trazer-nos a morte de nossa sociedade democrática e com ela morre também a diversidade, pois é a única sociedade capaz de permitir a pluralidade religiosa e garantir a liberdade de consciência e de culto. O A. conclui que a coexistência equitativa num mesmo espaço geográfico e temporal de uma diversidade de culturas, de tradições e de religiões é uma verdadeira revolução, enriquecedora, humanista e única na história humana. Impedir que esta diversidade se perpetue é um crime contra a humanidade. Doutro lado, para preservar essa diversidade, a sociedade precisa permanecer indivisível, igualitária e fraterna, como um campo de jogo das culturas onde estas, no seu embate, existem e coexistem. Nem a paz do cemitério em que uma única cultura domine e destrua todas as outras, nem o conflito sem regra, devorador. Os confrontos, as interações e as contradições provocam vida. As religiões possuem enorme força interior vital de assumir sempre novas formas conforme as batalhas que travam. A sociedade, por sua vez, não deve acomodar-se sem discernimento às expectativas particulares. Arrisca de impedir as culturas religiosas de contribuir plenamente ao esforço coletivo de organizar na história humana a coexistência harmoniosa de uma diversidade reconhecida. Ele deve enriquecer-se das diversidades e reforçar-se com elas, sem renunciar a seus valores fundamentais. Isso implica a busca de harmonização recíproca das expectativas culturais, o respeito do princípio de igualdade entre os indivíduos e de equidade nas respostas dadas às demandas religiosas. Numa palavra, trata-se de harmonizar sem discriminar. Já Spinoza escrevia em 1670: “o culto exterior da religião e todo exercício de piedade devem estar de acordo com a tranquilidade e conservação do Estado para ser realmente conforme à vontade de Deus”. Harmonizar a diversidade cultural e religiosa num mundo aberto impõe melhor conhecimento das expectativas e uma definição clara dos critérios de apreciação das demandas. Nossa responsabilidade é de harmonizar as culturas para permitir aos indivíduos de participar plenamente na sua pluralidade pessoal do projeto coletivo da perpetuação de uma sociedade. Missão quase religiosa, assim termina o livro. O livro afirma a tese da harmonia sem acomodação, do respeito às culturas e religiões sem tergiversação, da diversidade sem capitulação aos caprichos individuais, da manutenção dos princípios fundamentais da democracia sem secularização religiosa. Ele mostra a rapidez como se aceitou a morte do religioso por desconhecimento histórico do dinamismo das religiões ao longo dos milênios da cultura humana. O A. mostra enorme conhecimento das religiões até as minúcias. Conjuga alto nível de informação histórica com excelente percepção da problemática atual de diferentes espaços culturais e religiosos. J. B. Libanio |