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Recensões: PODOLAK, Pietro: Tertuliano  
Autor: jblibanio
Publicado em:: 2010/11/16
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PODOLAK, Pietro: Tertuliano. Tradução por Francisco Gomes Figueiredo Moraes. São Paulo: Loyola, 2010. 21 cm x 14 cm. 162p. ISBN 978-85-15-03735-3

                O A., doutor em Filologia e Literatura grega e latina pela Universidade de Pisa, Itália, reflete o clima de ardorosos estudos em torno dos escritos desse famoso escritor do final do sec. II. Homem extremamente contencioso no seu tempo e nas interpretações ao longo dos séculos. O livro visa a um público não especializado, embora ofereça nova fisionomia de Tertuliano. O limite do porte da obra impede que se tratem a fundo todas as obras e temas de autor tão fecundo e complexo. Para quem quiser, porém, aprofundar os diversos aspectos abordados, o texto oferece bibliografia seleta e abundantes notas.

                O texto tem três blocos bem distintos em assunto e tamanho e um apêndice. O primeiro, bem curto, consagra-se à biografia de Tertuliano. O segundo, o mais longo, classifica-lhe as obras em quatro tipos – apologéticas, catequéticas, doutrinais e montanistas -, apresentando breve introdução de cada uma delas. Um terceiro bloco sintetiza-lhe e sistematiza-lhe o pensamento. À guisa de apêndice, trata da sua sobrevivência, das obras perdidas e de um prospecto cronológico.

                Excelente estrutura. Permite os não adentrados em tal pensador fazerem-se uma ideia complexiva, resumida, mas fiel. Depois para voos altos, há outras que nos impulsionam.

                A pessoa: uma das personalidades mais significativas de toda a literatura latina entre os autores cristãos do Ocidente antes de Agostinho. Ele reflete as problemáticas filosóficas, religiosas e espirituais da cidade de Cartago e da África cristã. Lançou as bases linguísticas, conceituais e filosóficas  da reflexão teológica ocidental que se seguirá nos séculos seguintes.

                Apesar de muitas incertezas a respeito dos dados biográficos de Tertuliano, resulta com certa clareza que ele devia ter sido um homem de profunda insatisfação pessoal em contínuo movimento, do paganismo ao cristianismo, do cristianismo ao montanismo, e do montanismo à fundação de uma seita pessoal. Nessa trajetória aparecia um temperamento rigoroso, asceta, polêmico, de disciplina moral e eclesiástica sempre mais rigorosa.

                O contexto das obras apologéticas se define pelas perseguições. Abrem essa série: a exortação Aos mártires, os dois livros Aos pagãos e o Apologeticum. Inaugura-se uma literatura de exortação ao martírio, de encorajamento mostrando a beleza do martírio e a verdadeira liberdade que o cárcere parece tirar. Tal tipo de escritos se difundirá no curso do século III. As outras obras Aos pagãos e o Apologeticum significam o mais extenso e conceitualmente trabalhoso bloco de obras. Considera-se esta última como verdadeira obra-prima da apologética de Tertuliano, quiçá de toda a apologética cristã no Ocidente. Ele mostrou capacidade de defesa e de ataque. Defende os cristãos das acusações e mostra a vacuidade e perversidade das religiões pagãs. Na obra De testimonio animae, ele aprofunda um ponto da apologética: a alma dá testemunho do Deus único e verdadeiro com os movimentos da própria consciência. A obra Adversus Iudeos caracteriza-se antes pela defesa e propaganda da religião cristã do que pela polêmica com os judeus. Ad Scapulam (Iulius Scapula nome de procônsul da África) se produziu em momento mais tardio que as anteriores, já acontecida a adesão ao montanismo. É a mais breve no gênero de carta aberta, escrita talvez por ocasião da recusa de um soldado cristão de pôr a coroa por ocasião de uma cerimônia de promoção. Ela exalta o martírio, reivindica a liberdade de culto para os cristãos, refuta as acusações feitas a eles.

               

                O A. denomina o segundo bloco de “obras catequéticas”. Nesse conjunto de obras, predomina o estilo homilético, a modo de sermões feitos na comunidade de Cartago. Textos breves. No De spectaculis se condenam os espetáculos pagãos por seu caráter idolátrico, por fomentar vícios e por serem contrários a Deus. O De oratione comenta o Pai Nosso, oferece instruções e explicações de alguns usos litúrgicos, o uso do véu pelas mulheres. No De baptismo dirige-se aos catecúmenos ou aos que ainda têm fé imatura, reafirmando-lhes a necessidade do batismo, seu significado espiritual e teológico e de instrução na fé. O batismo não deve ser dado às crianças, pois não têm como conhecer a Cristo. O  De patientia trata da paciência como virtude cristã, recomendada com motivações próximas da filosofia pagã, escrito em estilo de alto valor. Apresenta Cristo como modelo de paciência e a impaciência tem origem no diabo e está na base de todos os  pecados humanos. O De paenitentia introduz-nos na vida litúrgica da Igreja de Cartago. A penitência é recomendada por Deus e se pratica somente por causa de atos pecaminosos. No Ad  uxorem, Tertuliano dirige-se à própria esposa. Ele desaconselha à consorte o recasamento, caso ficasse viúva. Mostra-se contrário em relação à liceidade do matrimônio misto entre cristão e pagão. No livro De cultu feminarum, revela-se rigorista, com traços misóginos. Devem-se evitar os ornamentos femininos por serem invenção dos anjos decaídos. A procura da beleza não convém ao cristão.

                Um terceiro grupo agrupa as “obras doutrinais”. Prescindindo das disputas sobre a datação anterior ou posterior à adesão ao montanismo, os estudiosos mais recentes tendem a redimensionar ou a negar a influência do montanismo de Tertuliano no aspecto propriamente dogmático. Três temas ocupam um projeto orgânico antimarcionita: a doutrina do único Deus, a encarnação de Cristo e a ressurreição da carne, trabalhados respectivamente em Adversus Marcionem, De carne Christi e De carnis ressurrectione. O De carne Christi que estabelece a concretude da carne de Cristo constitui o fundamento para os argumentos para análoga carne humana depois da ressurreição do De carnis ressurrectione. Também as questões cristológicas do Adversus Marcionem  se ligam às do De carne Christi e recuperam argumentações do De carnis ressurrectione. Essa trilogia encontra continuidade no tratado de psicologia De anima e na doutrina trinitária do Adversus Praxeas que nascem em momento de plena maturidade doutrinal. Por sua vez, Adversus Valentinianos e Adversus Hermogenem revelam menor originalidade especulativa, embora o primeiro aprofunde doutrinas gnósticas e obras da teologia eclesiástica e o último a exegese bíblica. De praescriptionibus Haereticorum explica a natureza das heresias, sua origem na curiosidade intelectual, a inutilidade de discutir com os hereges, a origem apostólica da doutrina e a falsificações dos hereges.

                Um quarto bloco agrupa as obras montanistas. O A. concentra-se naquelas em que Tertuliano defende e propaga a nova seita. O peso do montanismo não se deu no universo doutrinal, mas disciplinar e moral. O montanismo surge do profeta Montano e de duas assistentes Prisca e Maximila, na segunda metade do século II, na Frígia. Ele e as duas mulheres se julgavam possuídos pelo Espírito Santo. Por causa do rigorismo ascético e moral e de posições escatológicas tocadas por entusiasmo espiritual, lentamente entraram em conflito com a hierarquia da Igreja até a ruptura. Tertuliano adere a tal movimento. Isso repercute em várias obras, intensificando temas rigoristas e ascéticos já presentes na fase anterior.

Ele sentiu afinidade com tal severidade moral. Ele invoca a autoridade do Paráclito inclusive para defender os carismas de Montano. Tertuliano trata, depois do Ad uxorem, o problema do matrimonial no texto De exhortatione castitatis, onde reafirma a firme rejeição das segundas núpcias. O De virginibus velandis ensina que a mulher a partir a puberdade deve cobrir a cabeça, aduzindo argumentos de ordem moral, como a fragilidade e fraqueza do sexo feminino e de ordem disciplinar, como a proibição de a mulher exercer funções no interior da comunidade. No De corona ensina que a coroa, símbolo pagão, não pode ser posta na cabeça do cristão. O serviço militar não convém  ao cristão. Nem falta uma exortação ao martírio. Scorpiace – antídoto para a picada do escorpião – é dirigido aos gnósticos, isto é, aos “escorpiões”, especialmente os valentinianos que negavam a necessidade de os cristãos confessarem a própria fé diante da autoridade política em caso de perseguição, para evitar o martírio. No De idolatria condena a idolatria que se mostra na freqüência a cerimônias ou a práticas de ritos pagãos e a tudo o que possui conexão com o mundo pagão. De fuga in persecutione vê na perseguição algo querido por Deus e de que não se pode fugir em oposição a Mt 10, 23 onde Jesus ensina o contrário. De monogamia retoma de novo o tema da oposição às segundas núpcias, aduzindo razões escatológicas. De ieiunio adversus pshychicos refuta objeções dos cristãos contra práticas rigoristas dos montanistas: aumento do número dos dias de jejum, das stationes (momentos de oração e penitência durante o dia), de pratica da xerofagia (abstenção de comidas suculentas, líquidos e banhos por certo período). Chama os cristãos de psychicos” ie. animais, desprovidos de sentido espiritual. De pudicitia opõe-se a uma decisão da hierarquia de perdoar o pecado de adultério, considerando-o irremissível. Adultério e fornicação são equiparados a homicídio e idolatria em gravidade. De pallio – o manto -, de difícil interpretação, parece ser uma defesa de Tertuliano de suas mudanças, tomando como simbólico o fato de ter abandonado a toga pelo pallium, o grosseiro manto dos filósofos.

                O sexto capítulo recapitula, de maneira sistemática, o pensamento de Tertuliano. Inicia refutando certa interpretação simplificada de antirracionalismo, baseada em que ele teria dito credo quia absurdum ou certum quia impossibile. Pelo contrário, ele tem paixão pelo raciocínio,  pela lógica meticulosa usada até nas mínimas demonstrações. Embora lhe tenha faltado adequada formação filosófica, ele confiava no valor da racionalidade, primeiro divina e depois humana.

                Preside a seu pensar o interesse apologético. Pois não indaga a verdade que ele julga já possuir clara pela revelação de Cristo, mas busca defendê-la contra os adversários. De sua obra, resultam alguns traços fundamentais, que o A. sistematiza.

                Herda dos estóicos o corporeismo de todas as coisas. A substância de cada coisa é o seu corpo. Também a alma humana é corpo. Todo criado é corpóreo e até mesmo Deus. Falta-lhe metafísica. Tal visão determina sua compreensão de alma como corpórea. Ela é vista como um corpo que habita outro corpo. A partir da compreensão corpo e alma, ele concebe o ser humano, o pecado, a salvação.

                Outro ponto se refere à exegese. Discute a que tipo de leitura bíblica ele teve acesso. Hebraico parece que não. Fica difícil determinar se ele se valia de versão grega ou latina da Escritura. Valoriza alguns princípios hermenêuticos: o incerto se entende a partir do certo, as expressões no contexto geral, privilegia o sentido carnal (literal) da Escritura, mas não extremadamente.

                Na  teologia trinitária aproxima-se da concepção “econômica” em tensão com os judeus cristãos monarquianistas. Justifica a ação  do Espírito apelando para a trindade econômica. Tal teologia se liga ao corporeismo, segundo o qual Deus também é corpo. Discute-se se existe em sua teologia certo subordinacionismo, embora afirme a plena divindade do Verbo e sua pertença à substância do Pai. Na questão cristológica rejeita o docetismo e o dualismo gnóstico. O corporeismo o levou a insistir no elemento corpóreo do ato moral. E sobre o pecado distingue os remissíveis e os irremissíveis. Entre os últimos temos: homicídio, idolatria, dolo, apostasia, blasfêmia, adultério, fornicação e sacrilégio.

                O livro termina perseguindo a influência de Tertuliano nos autores que o seguiram. Indica finalmente o nome de uma série de obras que se teriam perdido, cujos rastros se encontram nas obras conhecidas.

                O livro, embora bem resumido, foi elaborado com cuidado. Indica ampla bibiografia. Discute as diferentes posições sobre as obras de                     Tertuliano, quer segundo datação quer respeito o significado e alcance teológico. Excelente livro para tomar primeiro contacto com o autor e despertar o gosto de ir mais fundo.

                                       J. B. Libanio

 

 
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