| Recensões: LÜTZ, Manfred: Estamos locos? Una visión amena de la psicologia. Trad. por José Manuel Lozano-Gotor Perona | |||
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LÜTZ, Manfred: Estamos locos? Una visión amena de la psicologia. Trad. por José Manuel Lozano-Gotor Perona. Santander: Sal Terrae, 21, Livro original. Escrito por renomado psiquiatra e psicoterapeuta, assume posição extremamente crítica em face das diferentes formas de terapia, quando elas perdem a visão do conjunto da pessoa humana. Preside ao texto visão humanista. Em linguagem de E. Morin, o A. revela-se antes um generalista a um especialista, embora domine o assunto. As críticas gozam de saudável pertinência. Não lhe falta certa ironia fina, ao referir-se ao cirurgião que durante dois anos aprende as técnicas operatórias e carece de dezenas de anos para saber quando não necessita intervir cirurgicamente. Em outra tirada espirituosa, diz que a ameaça maior à sociedade vem da loucura completamente normal e não dos enfermos. Cita Hitler, Stalin, Mobutu, Bin Laden e outros como pessoas absolutamente normais. Como teriam tanta energia, durante tanto tempo, para cometer tão sofisticados e enormes crimes, se não tivessem sanidade psíquica? Um enfermo mental não teria condições de fazer tal estrago social. Levanta críticas contundentes à tendência da neurociência de reduzir ao orgânico a responsabilidade dos agentes. Compara o cérebro ao piano. Sem ele, sem dúvida, não se toca nenhuma sinfonia de Beethoven. Mas sem a genialidade do compositor alemão e a virtuosidade do pianista não se executa nenhuma peça musical. Aí está a liberdade e capacidade humana de fazer o bem e o mal. Os neurotransmissores não determinam a liberdade, embora sem eles o ser humano não aja livremente. A tese central do livre consiste que o maior risco para a humanidade não são os enfermos mentais. Precisamente porque o são, não têm energias para serem tão maus. Só os loucamente normais se fazem perigosos. Aborda os normais desquiciados. Seguem em tudo o figurino da moda. Não suportam as pessoas diferentes, que saem da norma. E tem comportamento, às vezes, surpreendentes em face dos que eles julgam fora da regra. São “normopatas”. Analisa a estupidez de certos personagens. Classifica-os de estupidamente normais. A mídia oferece-lhes excelente espaço de exibição. Cenas dos carnavais renanos e venezianos mostram esse tipo de estupidez. O psicanalista não hesita em dizer que nenhum de seus pacientes se comporta tão estupidamente, como alguns desses “normais estúpidos” da publicidade. A clareza de princípios válidos que regiam a sociedade antiga cedeu lugar a uma globalização de visões de mundo. Esta gera profundo desconcerto, levando as pessoas a estresse e a comportamentos estranhos, misturando elementos de várias épocas e culturas em verdadeira bricolagem. Haja vista a abundante literatura de autoajuda, de prontuários de sucesso. Quem não crê em nada, acaba crendo em qualquer coisa. Conclui esta primeira parte em que tratou da loucura completamente normal, das pessoas desfocadamente normais, da estupidez perfeitamente normal: estas pessoas normais constituem o autêntico problema da nossa sociedade. Um segundo grande bloco de reflexões responde a pergunta: Por que tratar as pessoas? A quem? Como? O A. confessa que ficou chocado quando, ao conversar com um qualificado psiquiatra católico sobre suas primeiras experiências no terreno da psiquiatria, ouviu dele ter-se impressionado como Fancisco de Assis manejara sua esquizofrenia. Pareceu-lhe o cúmulo classificar S. Francisco de esquizofrênico porque ouvia vozes. Levou a pensar como o critério restrito não atinge o ponto fundamental do ser humano. Desconhece no santo a capacidade de relacionar-se com os outros, a delicadeza de não molestar a uma mosca, a habilidade comunicativa única de mobilizar os jovens. Ironicamente conclui a reflexão sobre Francisco: se unicamente houvesse pessoas como ele, não se teria inventado a psiquiatria. As pessoas geniais não são normais, nem por isso são loucas. Inverte a reflexão. São fantasticamente anormais, como os analisados acima eram loucamente normais. O livro questiona profundamente lugares comuns da psicologia e psiquiatria, trazendo o leitor para a realidade da existência humana. Aborda os inícios da psiquiatria na região dos Países Baixos e da Baixa Alemanha por obra caridosa dos religiosos cristãos, os irmãos alexianos, que, a partir do século XVII, começaram a ocupar-se de enfermos mentais. Mostra o limite de uma ciência que se baseia em diagnósticos não a partir dos valores de análises clínicas ou de outras medidas, mas a partir de descrições gráficas de fenômenos estranhos psíquicos. Não existem diagnósticos nem classificações em realidade, nem esquizofrenia, nem depressão, nem dependências, mas pessoas que sofrem consequências de diferentes fenômenos. Analisa bem o limite dos diagnósticos para valorizar a originalidade das pessoas que mostram tais sintomas. Isso tem levado a mudanças nos tratamentos psiquiátricos nos últimos tempos. O A. restringe, em muito, o campo da psiquiatria em vez de ampliá-lo, como acontece em certos meios sociais. Afirma que muito poucas pessoas extraordinárias devem sua singularidade a uma enfermidade. Aponta para o lado positivo das experiências de enfermidade, sem idealização. Cabe à psicoterapia ajudar o enfermo a descobrir tal aspecto positivo de sua situação. Em vez de levá-lo a falar unicamente de seus males, importa que ele descubra as energias que o mantiveram até aquele dia em vida e com capacidade de estar ali diante do terapeuta. Por aí vai o tratamento. Acena para os limites e pontos positivos das diversas formas e escolas terapêuticas com excelente capacidade crítica, não sem humor. Chega a falar de mais de 500 métodos distintos. Como conhecê-los todos? Há gente que afirma existirem tantos métodos terapêuticos quantos são os terapeutas. Vale então distinguir o importante do não importante. Trata explicitamente da psicanálise, do behaviorismo, da revolução sistêmica, da terapia centrada na solução de Steve Shazer e da neurociência. Ilumina a reflexão teórica com casos concretos. O ponto central vai na direção de valorizar o sadio no enfermo. A propósito, menciona a psiquiatra infantil Thea Schönfelder que resume o êxito de sua terapia assim: “o que me diferencia de meus semelhantes psicóticos é a possibilidade que tenho de vê-los ´mais sadios` do que eles são capazes de verem-se a si mesmos”. Esta frase traduz bem a postura básica de Lütz. Encara a pessoa humana em cinco dimensões: biológica, biográfica, psicanalítica, socioambiental e da liberdade. Rejeita qualquer tratativa unilateral. Cabe, em cada caso, perceber o peso de cada uma dessas dimensões, isto é, o que se origina do biológico do paciente, ou da sua vida pregressa, ou dos traços inconscientes dos primeiros anos, ou do meio ambiente em que vive, ou da decisão da vontade. Não se pode negar e desconhecer nenhum desses fatores que nos ajudam a entender a pessoa humana. Resume a conclusão do visto nos dois primeiros blocos deste modo: Os diagnósticos não são verdades, mas palavras para porem em marcha uma terapia; os transtornos psíquicos podem ser vistos sob aspectos muito distintos, mas nenhum deles é verdadeiro; há um sentido e sem sentido nas psicoterapias; delineia visão panorâmica dos procedimentos terapêuticos mais comuns Um terceiro bloco reflete sobre os diagnósticos básicos e terapias, aplicados ao mundo dos transtornos psíquicos. Começa com um caso de conflito matrimonial, cuja origem se detectou ter sido um problema orgânico de tumor cerebral no marido. Por causa do tumor, mudara de comportamento e causara problemas de relacionamento com a esposa. Em outros casos, interfere na depressão a disfunção das glândulas tireoides. Por isso, o primeiro passo de uma terapia consiste em sondar o dado orgânico. Sua influência pode provocar até total inconsciência de atos praticados, seja de maneira puramente transitória, como a síndrome psicomocional, ou a síndrome de transição, ou de modo permanente até que a causa biológica seja tratada, se possível. Há enormidade de efeitos orgânicos em comportamentos psicossociais, desde graves, agudos, momentâneos até o enfado crônico por causa do desgaste lento do cérebro. O A. menciona vários deles, como o mal de Alzheimer, que desenvolve mais. Aponta algumas dicas terapêuticas para as pessoas que convivem com tais enfermos. Valoriza, de maneira linda, a presença de enfermos, com menos capacidade de comunicação, mas mais carregados de humanidade que muito executivo sadio, e como eles questionam a vida dos normais que não têm tempo para os outros. A modo de exemplo, enumera alguns problemas do tratamento de alcoólicos: a dificuldade de delimitar a situação, sua complexidade, a ignorância dos médicos em relação a ela. Acena à questão do agravamento do alcoolismo por causa da privatização do consumo: minha geladeira e eu. Só a quantidade de consumo alcoólico não é critério seguro. Entram outros fatores. O ponto nevrálgico está em saber se a pessoa perdeu o controle respeito à bebida e se ela se submete a consumo compulsivo. Três problemas denunciam o alcoólico: a relação com a esposa, o comportamento no trabalho e a carteira de habilitação para dirigir. As três realidades correm perigo com o alcoolismo. Como são existencialmente importantes, sacrificá-las por causa da bebida mostra grau elevado de dependência. Indica alguns passos do tratamento de tal dependência. Além do tratamento do alcoolismo pela via médica, aborda o aspecto psicoterapêutico propriamente dito, desvelando a dificuldade da conversa com o alcoólico e sua capacidade de enredar o terapeuta. Ele sabe defender-se muito bem dos diferentes discursos do terapeuta. A visão atual terapêutica prefere insistir na responsabilidade dos pacientes, fortalecer-lhes a liberdade e dar importância a uma relação cooperativa com eles, baseada na estima e dirigindo o foco da atenção às suas capacidades existentes. Não insistir em sua recaída, mas admirar-se de que ele tenha voltado à terapia. Em continuidade com o alcoolismo, o A. aborda também a questão terapêutica dos dependentes químicos, desde as drogas leves até as pesadas. Termina a reflexão com toque filosófico existencial sobre o sentido da vida e sobre as patologias da atual sociedade. O problema da droga se envolucra com tais questões. Então levanta a pergunta fundamental terapêutica: que pode fazer o dependente em lugar de sua conduta dependente? Por aí se abrem caminhos de cura. Em seguida trata da esquizofrenia. É o desconcerto do eu desde seu próprio núcleo, a incapacidade de distinguir com este eu o que é importante do que não é tanto e, por isso, o sentimento de estar entregue desprotegidamente à pletora de impressões que a gente recebe. Este é o transtorno fundamental da esquizofrenia. Não é uma fissura de personalidade, como se diz vulgarmente. Ao conceitualizá-la, o A. a livra de falsas e preconceituosas imagens que se fazem do esquizofrênico, das quais a psiquiatria não está por completo isenta de culpa. Começa pelo próprio mal cunhado termo esquizofrenia ou outros epítetos: dementia praecox (idiotização precoce). Desde o ponto de vista atual, são crassos disparates psiquiátricos. Ela não leva a nenhuma diminuição da inteligência. Esquizofrênicos costumam ser alunos brilhantes, com títulos acadêmicos e não raro de extrema sensibilidade. Adoecem por inclinação genética na maioria dos casos entre 20 e 40 anos. No texto, ele narra casos clínicos sobre os quais elabora considerações extremamente pertinentes e iluminadoras sobre essa enfermidade. Deixa imagem animadora em face da recuperação dos esquizofrênicos, afastando os clássicos fantasmas. Também desculpabiliza os pais da enfermidade dos filhos. É impossível fazer alguém tornar-se esquizofrênico. Tal não acontece por nenhum erro dramático dos pais na educação dos filhos. Nesse contexto, alude a transtornos afetivos de mania, como a paranoia, o delírio sensitivo de referência. Em outro capítulo, aborda o transtorno maníaco-depressivo em que se vivem os extremos da exultação e da depressão. Desentranha a patologia da depressão, desassociando-a de experiências parecidas, mas a que não cabe tal epíteto. Distingue a depressão grave patológica, isto é, a melancolia de depressões normais, onipresentes em face de momentos duros da vida. A depressão grave brota do fundo da pessoa e tem destacável fator hereditário de que os familiares não são responsáveis. É um transtorno do metabolismo no cérebro que deve ser tratado com fármacos. Em conexão com tal questão, faz considerações esclarecedoras sobre o suicídio. E também aborda o lado maníaco exultante do transtorno afetivo bipolar. Fecha o livro com um último capítulo sobre a apresentação de diversos transtornos psíquicos que a antiga psiquiatria alemã chamava de “variações da substância da alma”. Trata-se tanto de transtornos que se adquirem ao longo da vida, como de personalidades tão estranhas que só podem ser patológicas. Requerem boa psicoterapia. Todas as pessoas podem sofrer de algum transtorno psíquico em sua vida, umas mais que as outras. Acontece por ocasião de algum evento abrumador, experimentado com medo e impotência: guerra, tortura, violação, ação terrorista, sequestro. Fala-se de síndrome de estresse pós-traumática. Se são eventos duradouros podem afetar o cérebro inclusive de forma visível. Pessoas em tais situações se fixam em alguma imagem que a assaltam incontroladamente com insônia e outros sentimentos. Em outros casos, trata-se de síndrome de estresse agudo, de transtorno de adaptação. Fala-se de neurose quando resulta de conflitos da idade infantil não resolvidos. Há vários tipos de neuroses: depressiva, de ansiedade, compulsiva, etc. A psicoterapia é a ajuda decisiva. O medo desempenha enorme papel em todos esses transtornos. Ponto que mereceu lúcida reflexão, ao distinguir a angústia existencial em face da morte, do limite, do sofrimento, algo sadio, da angústia doentia, verdadeira fobia, bem diferente. Há fobias diante de muitas situações: altura, elevador, multidão, lugar fechado. Em certos casos funciona bem o tratamento behaviorista. Aborda o transtorno obsessivo-compulsivo de testar várias vezes se fechou a porta, se desligou algum aparelho, de limpeza. Aqui valem tratamentos farmacológicos e behavioristas. Outros transtornos afetam a comida, bebida, sexualidade, funcionamento do corpo, a personalidade. O A. desenha-nos diante dos olhos série enorme de patologias com rápida caracterização e indicações de tratamento. Estamos diante de excelente livro. Serve primeiramente aos não especializados no campo da psiquiatria e psicoterapia. Dá-lhes primorosa introdução e compreensão ampla do campo. E devido à profundidade, à amplitude e à humanidade do tratamento presta, sem dúvida, excelente serviço também às pessoas do ramo. Na conclusão, pontualiza mais uma vez a natureza da obra. Chama-a de “expedição por terras ilimitadas” dos enfermos mentais e dos doentiamente normais ou que vivem no limite. E deixa lição de otimismo em face dos enfermos e de advertência diante dos ditos normais. Vale a pena conferir. J. B. Libanio |
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