KNAPP, Markus: Verantwortetes Christsein heute. Theologie zwischen Metaphysik und Postmoderne. Freiburg/Basel/Wien, Herder, 2006, 22 cm x 14, 5 cm. 256p. ISBN 13: 978-3-451-28713-8 O A. vem da área da teologia fundamental. Diante da pós-modernidade, que reivindica pluralidade de sentido, o Cristianismo não abre mão da pretensão de ter um sentido universal. Como enfrentar tal situação pluralista na perspectiva do ser cristão? É a proposta do livro. Inicia descrevendo a duvidosa situação da teologia na Universidade alemã: falta de estudantes, incerteza do mercado, tensão entre cientificidade e eclesialidade da teologia, deslocamento da formação teológica do clero para instituições eclesiásticas por temor da teologia acadêmica. Hoje o problema da teologia na Universidade alemã é mais financeiro que ideológico-científico, como em outros tempos. Como disciplina é respeitada, mas considera-se o seu discurso estranho à cultura científica atual, como vindo do passado. Tem dificuldade de fazer-se entender, de ser plausível no mundo de hoje. E a religiosidade que anda pela pós-moderna, abundante e difundida, não se interessa por teologia. Pertence ao mundo da subjetividade e privaticidade das pessoas e não à publicidade da sociedade nem à instância da teologia. É uma religião sem teologia, na qual não se distinguem o racional do irracional, o autêntico do inautêntico, o justificável do injustificável. O A. levanta à teologia fundamental a seguinte pergunta: dada a subjetivação e privatização da religião no contexto da sociedade moderna e, portanto, de marginalização da teologia, como ela enfrenta tal situação? Se ela quiser ter futuro, deverá pôr tal questão em toda profundidade. Para responder o problema básico do livro, o A. descreve os elementos fundamentais do viver e pensar na pós-modernidade. O dogma desse momento cultural soa: só existe sentido no plural. Por conseguinte, não existe um único sentido, grande para todos, mas uma pluralidade de formas e de perspectivas de sentido, entre os quais as pessoas escolhem livremente e se apropriam a seu modo. Sentido único soa totalitário, infantilizante. Não existe uma realidade última atrás da pluralidade de sentidos. Este é o cerne da pós-modernidade. Sob certo sentido a teologia é in-contemporânea com a pós-modernidade, ao afirmar o postulado oposto. A teologia cristã fala na perspectiva do sentido de valor último. Não é contingente. Pretende validade última com pretensão universal. Toca principialmente todos os homens. Exibe um horizonte de sentido último para todos os seres humanos, afeta-os a todos, adquirindo foro público, embora os toque numa maneira existencial. Ela funda-se na revelação divina, proposta na história, como definitiva e última na pessoa de Jesus Cristo. A teologia necessita mostrar a razoabilidade de um sentido último. Como fazê-lo numa pós-modernidade que exclui todo sentido último e definitivo? Indica cinco estratégias em curso. A primeira consiste em deslocar a teologia para o campo das ciências da Religião. Mas, no fundo, significaria a dissolução da teologia. A segunda estratégia leva a teologia a acomodar-se à pós-modernidade, apresentando-se com uma perspectiva de sentido entre muitas. Neste caso, renunciaria a pretensão de propor um único sentido último e de refletir sobre seu fundamento. A terceira parte da constatação de que uma realidade que determine tudo não é compatível com a compreensão cristã de Deus, porque o capitalismo se tornou a realidade que determina todas as outras. Ele é a religião que impregna profundamente as experiências humanas. A experiência de sentido está profundamente corrompida. A teologia necessita desmascarar tal religião, recorrendo a diferença bíblica entre culto a Deus e idolatria. Outra estratégia seria situar a teologia no campo das ciências da cultura. E finalmente se trata de assumir com toda seriedade o desafio do sentido último, buscando nova fundamentação da possibilidade de um sentido último como critério para aceitação responsável da revelação cristã, como definitiva e de validade última. Há várias tentativas nessa direção que o A. estuda na 2ª parte do livro. É uma via na contramão da pós-modernidade, que lhe exige criticidade de si. A dificuldade aumenta por ela não contar com o apoio de uma metafísica filosófica, como fez durante longo tempo. Por meetafísica entende-se “um pensar que abarca o todo do que realmente existe e esse todo se considera sob o olhar do fundamento e origem últimos”. Na perspectiva de Aristóteles é o ser enquanto existe e pergunta por seus princípios e últimas causas. Tal compreensão não obriga a uma metafísica do ser. Por isso, o A. se pergunta se a obrigação de fundamentação da teologia pode ser realizada no contexto pós-metafísico. Para tal, ele desenvolve longamente o que é o pensar pós-metafísico e como a teologia se situa nessas premissas pós-metafísicas. Numa segunda parte do livro, estuda autores que enfrentaram tal problema pós-metafísico: W. Pannenberg, H. Verweyens e Th. Pröpper. Encera com reflexões pessoais. A compreensão cristã da existência abarca a totalidade da realidade da vida. Só nesta perspectiva, entende-se a pretensão de conhecer um sentido último. É inteligível que, na história da teologia cristã, ela se sinta em estreita simbiose com o pensar metafísico da filosofia. A afinidade é dada pelo fato de a metafísica relacionar-se com o todo da realidade e buscar-lhe o último fundamento. A teologia entrecruza com ela por sua busca de um último sentido para toda existência. Acontece que tal metafísica na modernidade perdeu plausibilidade. Daí a teologia buscar vários caminhos filosóficos para contornar a questão: renovação da metafísica, outro tipo de filosofia primeira ou um pensar pós-metafísico. O A. pretende encontrar a possibilidade de a teologia estabelecer seu fundamento num contexto pós-metafísico. Não se trata de uma disputa intrafilosófica sobre o conceito e possibilidade da metafísica, mas de mostrar que a teologia, no contexto de um pensar pós-metafísico, tem o dever de buscar sua fundamentação, apesar dos problemas aí existentes. Para levar tal tarefa à frente, o A. trata primeiramente na terceira parte problemas estritamente filosóficos da modernidade. Constata que as causas do surgimento da modernidade e sua apreciação são plurais e discutíveis. Sem dúvida, ela trouxe mudança de valoração da religião para o processo de vida na sociedade. O cristianismo, divido pela Reforma, já não cumpria nenhuma função integrativa. A religião não fazia a integração da sociedade como na Idade Média. E a mudança da função da religião só se compreende também no contexto do desenvolvimento sociocultural e politicoeconômico. Discute várias interpretações dessa realidade, quer a de K. Löwith para quem a história é compreendida como processo de progresso no sentido da secularização da escatologia cristã, quer a de H. Blumenger em que a modernidade é interpretada como ato da auto-afirmação humana contra o absolutismo da graça medieval. Concorda com Pannenberg que critica ambas posições como leitura abstrata da história das idéias. De maneira profunda e muito filosófica, o livro percorre o itinerário da religião na modernidade. Nela, a integração religiosa da sociedade é substituída pelo mecanismo de um reconhecimento recíproco e da possibilidade fundada nele de uma comunicativa compreensão. Para chegar lá, os pensadores norteadores da modernidade começam com uma volta ao que manifesta a situação primeira da natureza da existência humana para daí fundar a necessidade de um Estado e da constituição de uma ordem estatal para satisfazer a sociedade humana. Nesse itinerário parte de Maquiavel, passando pela teoria de Fichte, pelo conceito de luta e reconhecimento de Hegel e pela transformação pós-metafísica da teoria do reconhecinento de Hegel feita por Alex Honneth. A terceira parte do livro, confronta a teoria do reconhecimento com a fé cristã. Na perspectiva teológica, a teoria do reconhecimento pode ser fundamentada. A auto-revelação de Deus manifesta seu amor para todos os seres humanos de maneira histórica e definitiva. A teologia cristã trata, portanto, de um acontecimento de reconhecimento. O amor manifesta uma forma específica de reconhecimento. Existe, de certo modo, uma afinidade entre o evento a que se refere a fé cristã e uma teoria do reconhecimento. Na verdade, acontece um evento de reconhecimento entre Deus e o ser humano. A fim de desenvolver tal estudo, inicia com uma reflexão sobre a fé cristã como relação de reconhecimento, recorrendo, logo de início, a K. Barth que atribui papel central à categoria de reconhecimento na doutrina sobre a Palavra de Deus. Em seguida, trabalha a fé cristã no contexto de uma teoria filosófico-social do reconhecimento. E depois, no contexto pós-metafísico, mostra que uma teologia com a obrigação de fundamentação deve interessar-se pelo sentido último. Avança respondendo a pergunta: como se pode levar à frente uma demonstração argumentativa no contexto do pensar pós-moderno? Termina o livro com uma última reflexão, relacionando cristianismo e pós-modernidade. Retoma idéias já trabalhadas anteriormente a modo de conclusão. Repisa a idéia da substituição da religião na função de doadora de sentido ao todo da vida humana, da sociedade, do ser humano pelas ciências que fizeram do ser humano “mestres e possuidores da natureza” na expressão de Descartes. A imagem do mundo se impregna das ciências modernas, deixando para trás a imagem religiosa. Arranca-se a religião do mundo do racional, e ela é impelida para a irracionalidade, enclausurando-se no espaço privado, perdendo toda força integradora social. No entanto, a religião mostra enorme resistência. Volta, aos poucos, como grandeza relevante para a consciência pública de modo que já se denomina a atual sociedade de “pós-secular”. Algo que espanta, tanto por causa da enorme crise interna das igrejas e do êxodo dos fiéis. Existem na atual sociedade razões internas pelas quais a religião volta a ser considerada e a pergunta pelo seu significado permanente se recoloca. Descrevendo a gravidade da atual crise de humanidade, alude às intervenções de cientistas sobre a constituição genética de outra pessoa. Aponta as terríveis conseqüências éticas, psicológicas, jurídicas e sociais. Acena também para outras situações em que se joga a questão da construção plural e frágil do sentido. A fragilidade de tal realidade na sociedade atual abre espaço para a religião como instância criadora de sentido último. Sem religião, fica a pergunta: a modernidade é capaz de sobreviver duradouramente apenas sobre a base de um sentido construído pelo próprio ser humano? Não necessita de uma instância que não seja dependente dele? Pergunta que não se pode descartar sem mais. Isso não significa que a religião voltará a ter a função social integradora e dominante dentro da sociedade. A era constantiniana já acabou irreversivelmente. Mas cabe-lhe uma nova relação com a busca de conhecimento e saber da modernidade. Sem negar a secularização, a religião e a modernidade permanecem de certo modo relacionadas no sentido de que toda busca por reconhecimento revela algo de último e incondicionado, como a religião representa e simboliza. Como tal relação se desenvolverá, não se tem prognóstico especialmente diante da globalização. À medida que se percebe que a secularização não abole a religião, a sociedade se torna pós-secularizada. Não se prescinde da religião sem perdas. Antes ela aparece como algo irrenunciável para que os humanos sejam “gente”, e eles não se mantém nessa condição sem ela. Livro extremamente interessante, corajoso, profundo com enorme riqueza filosófica. Afeta problemática fundamentalmente alemã, mas que tem ressonâncias em outros lugares. J. B. Libanio |