| Recensões: GIMPEL, Jean: O fim do futuro. O declínio tecnológico e a crise do Ocidente | |||
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GIMPEL, Jean: O fim do futuro. O declínio tecnológico e a crise do Ocidente. Mem Martins (Portugal), Editorial Inquérito, 1993, tradução do francês Luis Serrão , coleção Perspectivas, ISBN 972-670-174-0 188pp, 21 x A tese central do livro gira em torno da crise do Ocidente devido ao decréscimo do ritmo de inovações tecnológicas não se realizando os progrnósticos dos futurólogos da década de 50 e 60, sobretudo de H. Kahn , A . Wiener, A . Toffler e outros, quando a “crença insensata no progresso contínuo e aceleração culminou”. Ele distingue entre invenção e inovação. Esta é “uma invenção que foi financiada, testada, comercializada e aceite pelo mercado”.As inovações previstas pelos futurólogos não se realizaram. Relendo as páginas que então se escreveram, podemos ver a distância de suas prospectivas e a realidade atual. O A. demonstra o fato do abrandamento das inovações tecnológicas nos diversos campos. Critica a célebre máxima: “ Não se pode parar o progresso” . O fato do decréscimo das inovações remonta, sem dúvida, a muitos fatores. Logo no início, ele indica a atitude fundamental das pessoas diante da ciência. De um lado, o movimento ecológico inibe, com suas ameaças, a criação de novas tecnologias. As empresas tiveram que pagar enormes indenizações por efeitos negativos de seus produtos e isso as inibe no ímpeto criativo. Além disso, as leis, o comportamento de certo tipo de advogado, o comportamento do judiciário tornaram o fato de inovar cheio de risco e assim desestimulam tal façanha. Acena também ao caráter precário e arriscado de vários ramos da tecnologia, que geram certa suspeita e prognóstico de desenvolvimento menos acelerado. Detém-se mais longamente sobre a informática. Faz ver, apesar de sua atual mitifcação, que o desenvolvimento não se processa no ritmo esperado e que os riscos que ela envolve são maiores que se imaginam. Outro fenômeno em andamento refere-se a um recurso a tecnologias, em dado momento, consideradas obsoletas, só que em forma mais aperfeiçoada. Ele elenca vários setores onde o progresso não se deu na linha esperada. Assim na educação, volta-se ao giz, ao quadro, como meio mais pedagógico do que o uso do computador sem mais. Desiste-se das pesquisas do construir a inteligência artificial. Em muitos campos, o uso do computador tem-se mostrado contraprodutivo, gerando perdas de produtividade. As viagens espaciais produziram no corpo humano efeitos negativos que o mundo científico tem calado por razões estratégicas, além do custo proibitivo desses programas com resultados bem menores do esperado. Outro fator da diminuição da criatividade vem da idade. A média de idade dos cientistas dedicados às pesquisas cresceu. É fato comprovado que com a idade se perde a capacidade criativa.Com o envelhecimentodos cientistas é de esperar-se que caia a capacidade inventiva. O material plástico mereceu uma referência especial, já que se depositava nele uma esperança enorme e agora tornou-se sinômino de poluente, lixo não degradável, material de menor valor, cedendo espaço para o algodão, a lã, etc. Se se compara a atual atitude diante do plástico, sobretudo com o endeusamento do “nylon”, lançado por Du Pont de Nemours em 1930, vê-se a não confirmação das expectativas de então. Pois, as meias nylon foram apresentadas pela primeira vez em 1939 na Feira Internacional de N.York. Du Pont teve dificuldade de satisfazer a demanda. Ele fez um filme em que duas mulheres travaram um corpo a corpo por um par de meias de nylon perante o olhar estupefato da vendedora. Foi declarado material estratégico na guerra de 1939 para o fabrico de pára-quedas. Hoje é esse vexame. Em 1988, no 50 aniversário do Nylon, Du Pont organizou uma comemoração em que J. Hill, que colaborara na criação de tal material, critica-o ferozmente: “Penso que a raça humana vai perecer, sufocada sob o plástico. Vêem-se esses malditos sacos de lixo por todo o lado...Por todo o lado, o meu olhar encontra pedaços de plástico amarrotados. Dão-se conta disso?” Algo semelhante acontece com o cimento. Esse material parecia ser a salvação nas construções. Hoje já mostra sua precariedade. Há uma volta à madeira, ao tijolo, ao barro, à cerâmica, ao adobe. No campo do transporte, aparece a precariedade do helicóptero, da aviação em geral que ameaça tornar-se maior perigo, devido ao congestinamento, e outros riscos. Voltam os investimentos nos trens, no bonde. Onde aparece mais trágico o declínio da tecnologia é no campo da indústria farmacêutica. Aí se sente mais a pressão de uma legislação rígida, das indenizações em caso de algum maleficio. O campo da prevenção, sobretudo na fabricação de vacinas, tem decaído muito. Até doenças, que pareciam já erradicadas, voltam como a tuberculose, a malária em muitas regiões, etc. As tintas se tornam ainda mais escuras, quando o A . dedica a última parte do livro a um estudo comparativo das civilizações em seu movimento de subida, estabilidade e decadência. Assinala como a civilização ocidental já está na fase descensiva, já que não há nenhuma nação nova que possa continuar este processo. As previsões do A são catastróficas, terminando o livro com a possibilidade do fim de nossa espécie na esperança irônica de que “novas espécies virão e talvez sejam mais sábias”, citando o almirante americano Rickover. Este almirante tinha sido um dos engenheiros nucleares que criaram o Nautillus, primeiro submarino atômico. Perante o Congresso americano a 28 de janeiro de 1982, o dia de sua reforma, ele fez impressionante autocrítica: “ Perguntam por que é que eu construí navios nucleares. Era um mal necessário. Deviam ser todos afundados”. “Não estou orgulhoso do papel que desempenhei. Fi-lo porque era necessário para a segurança do meu país. Penso que nos destruiremos a nós próprios, portanto que importância tem isso? Novas espécies virão e talvez sejam mais sábias” (p. 158). O prognóstico do A . é um crash em Wall Street, seguido de uma anomia tal que algum país menor aventureiro poderia arriscar destruir o mundo com seus artefatos nucleares. Acha que os USA não estão conscientes da gravidade da situação. Exatamente como aconteceu com as civilizações que entraram em colapso no passado. Aponta como causa do declínio dos grandes impérios: o complexo de superioridade e de auto-satisfação, com a conseqüente resistência à vontade de mudança. É o caminho por onde se metem os USA. Evidentemente o livro tem um caráter programático com a finalidade de despertar o Ocidente para a gravidade da situação. J. Gimpel é historiador das técnicas e autor de inúmeros trabalhos, sobretudo sobre a Idade Média. No livro, faz várias vezes comparações entre a situação atual e a Idade Média, seja para alertar de riscos possíveis hoje, seja para desmitificar afirmações genéricas. Assim, p .ex., discorda de afirmações de ecologistas a respeito do aquecimento planetário por causa da poluição. Diz que na Europa de séc. XII e XIII a temperatura era um ou dois graus superior à atual. A destruição do amibente e a poluição existiram na Idade Media de modo muito acentuado, seja por causa das indústria de vidro que queimava muita madeira, seja por causa dos curtumes e abate de animais que poluíam as águas das cidades. (p.29s). Em outro momento, apresenta a Itália como país modelo pelo fato de ter maior criatividade, por ter introduzido tecnologia de ponta nas indústrias tradicionais. Criou empresas “artigiano”, de raízes familiares, alicerçadas em comunidades em que valores, crenças, lealdades e interesses são partilhados. Estas empresas ,comm uma media de 10 pessoas, em 1985, representavam 80% das indústrias de manufactura nas regiões do Centro e do NE do país, ultrapassando largamente as grandes empresas do mesmo setor industrial. Modena criou “ aldeias de artesãos”, onde as instalações de produção e as zonas residenciais se situam a uma distância que pode ser percorrida a pé ou de bicicleta, onde os centros de formação para desempregados alimentam diretamente as empresas recém-criadas e onde as pequenas empresas utilizam técnicas inforrmatizadas se agrupam para fabricar produtos mais complexos (p.119). A consciência ética de certos cientistas também interferiu no abandono de pesquisas. O caso clássico é o do cientista francês J. Testard, que criou na França, o primeiro bebe-de-proveta. Em 1986, abandonou o seu trabalho com embriões humanos e passou a fazer investigações sobre embriões animais. Cessou depois tais investigações com o temor de que seus resultados poderiam ser aplicados ao estudo dos embriões humanos.. Posição diametralmente oposta à do prêmio nobel J. Monod, expressa por ele na lição inaugural no Collège de France, a 3 de novembro de 1967: “O único fim, o valor supremo, o soberano bem na ‘ética do conhecimento’, não é, reconheçamos, a felicidade da humanidade, menos ainda o seu poder temporal ou o seu conforto, nem mesmo o “ Conhece-te a ti mesmo” socrático, mas sim o próprio conhecimento objetivo. Penso que é preciso dizê-lo, é preciso sistematizar esta ética, retirar dela as conseqüências sociais, morais e políticas, é preciso difundi-la e ensiná-la, porque, como criadora do mundo moderno, é a única compatível com ele. Não deve esconder-se que se trata de uma ética severa e constrangente que, embora respeite o homem como suporte do conhecimento, define um valor superior ao próprio homem. (P. Drouin, L’Autre futur, Paris, Fayard, 1989:22) (151/2). A tese de J. Monod açularia o desenvolvimento tecnológico muito mais. Mas ela está perdendo terreno, precisamente pela influência de atitudes éticas como de J. Testard.. O espraiamento da inquietação ética sobre o destino da vida, da humanidade, tem influenciado para maior cautela nos avanços tecnológicos. Isso vem confirmar a tese de Gimpel. O A. não defende uma a-eticidade científica na linha de J. Monod, mas simplesmente mostra como o surto ético interfere na perda de aceleração do desenvolvimento tecnológico. O A. não emite juízo de valor, mas simplesmente constata o fato. Seus juízos de valor pesam mais sobre o abuso de advogados e juízes sobretudo nos USA que defendem e acatam respectivamente denúncias abusivas a respeito de inovações tecnológicas. Além disso, acentua muito a atual situação de inconsciência das grandes potências sobre a gravidade da crise de civilização sem forças novas capazes de enfrentá-las. Mesmo que o livro seja, a meu ver, um tanto apocalíptico, vale a pena conferir seus dados e tirar as próprias conclusões. J. B. Libanio |
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